Joédson Alves/EFE
Joédson Alves/EFE

Com medo de impeachment, Bolsonaro quer discutir fim de quarentena com Congresso e STF

Nos bastidores, presidente tem repetido que há um plano em curso para iniciar um processo de impeachment contra ele

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2020 | 11h09

BRASÍLIA -  Apesar de dizer que pode definir com “uma canetada” o fim do isolamento social na próxima semana, o presidente Jair Bolsonaro ainda quer fazer uma última tentativa de articular a retomada das atividades econômicas com o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF). O esforço, segundo integrantes do primeiro escalão, é para evitar que ele seja enquadrado em crime de responsabilidade.

Nos bastidores, o presidente tem repetido que há em curso um plano para iniciar contra ele um processo de impeachment e diz que precisa se cercar de todos os cuidados para não criar o pretexto que os adversários querem para agir contra ele.

Nesta sexta-feira, em teleconferência promovida pelo jornal Valor Econômico, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, negou que um processo de impedimento esteja na sua pauta e afirmou que agora não é hora de agenda política “No meu radar só estão medidas para conter crise e salvar vidas”, disse.

“Para abrir comércio, eu posso abrir em uma canetada. Enquanto o Supremo e o Legislativo não suspenderem os efeitos do meu decreto, o comércio vai ser aberto. É assim que funciona, na base da lei”, disse Bolsonaro  à rádio Jovem Pan, na noite de quinta-feira, 2.

Na mesma entrevista, no entanto, o presidente indicou que precisa do apoio da população para determinar o fim da quarentena, contrariando medida restritivas adotadas pelos governos estaduais.  Ele justificou que “gente poderosa em Brasília” espera um “tropeção” dele e, portanto, precisa do povo ao seu lado.

“O presidente pode muito, mas não pode tudo. Nós temos gente poderosa em Brasília que espera um tropeção meu. Estou esperando o povo pedir mais. O que eu tenho de base do apoio são alguns parlamentares, não é a maioria, mas eu tenho o povo do nosso lado. Eu só tomo certas decisões o povo estando comigo”, respondeu ao ser questionado porque não toma uma decisão pelo fim do distanciamento social.

Nesta quinta-feira, apoiadores do presidente começaram a convocar manifestações para o próximo domingo, dia 5 de abril, contra governadores e prefeitos. Nas redes sociais, a hashatg #NasRuas5deAbril passou a ser usada pelos bolsonaristas sob o argumento de que querem voltar ao trabalho.

Bolsonaro disse que alguns governadores querem que ele tome uma decisão pelo fim do distanciamento social para ele ser responsabilizado.  “O que alguns governadores mais querem que eu tome a decisão para trazer o problema para o meu colo e dali pra frente qualquer morte que acontecer começar a me culpar. Essa é minha preocupação no momento”, admitiu.

Apesar disso, Bolsonaro afirmou que na próxima semana que o isolamento social não começar a ser flexibilizado ele tomará uma decisão. “Se na semana que vem,  se não começar a ter uma  volta gradativa, vou ter que tomar uma decisão. E daí, seja - não o que Deus quiser, eu sempre acreditei em Deus, mas seja o que os brasileiros quiserem.”

Como o Estado antecipou,  ministros do STF dizem em conversas reservadas que, se o presidente Bolsonaro levar adiante sua ideia de reabrir o comércio, a medida será barrada pela Corte. O Estado apurou que o Supremo não vai autorizar nenhuma ação que confronte as recomendações das autoridades de saúde do Brasil e do mundo com relação ao combate do novo coronavírus.  Governadores, aliás, confiam na ação do STF para que a quarentena nos estados não seja derrubada. 

No sábado, 28, o presidente recebeu no Palácio da Alvorada o ministro do STF Gilmar Mendes para discutir a crise do coronavírus e como evitar uma enxurrada de ações judiciais por disputa entre União, Estados e municípios.  A aproximação com Mendes foi articulada pelos ministros Jorge Oliveira, da Secretaria-Geral da Presidência, e Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional. Além deles, participou também o ministro da Advocacia-Geral da União, André Mendonça.

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