Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Presidenciáveis encaram ‘ônus’ da greve

Analistas ouvidos pelo ‘Estado’ afirmam que nenhum dos pré-candidatos ao Planalto se beneficiou da paralisação do ponto de vista eleitoral

Adriana Ferraz e Vítor Marques, O Estado de S.Paulo

31 Maio 2018 | 05h00

Onze dias após o início da greve dos caminhoneiros, nenhum dos pré-candidatos à Presidência da República se beneficiou eleitoralmente da crise que parou o País, segundo analistas ouvidos pelo Estado.

Se já nos primeiros dias da greve, Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Rodrigo Maia (DEM) tentaram capitalizar com a paralisação, o saldo final indica que os presidenciáveis, em maior ou menor grau, ficaram com o ônus do episódio.

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Bolsonaro, por exemplo, teve de mudar o discurso em relação ao movimento. Na véspera do início dos bloqueios de estradas, antes mesmo de o governo Michel Temer demonstrar qualquer tipo de preocupação com os efeitos do desabastecimento, o parlamentar já anunciava apoio aos caminhoneiros pelas redes sociais. Em 27 de maio, chegou a prometer, caso eleito presidente, revogar eventuais multas impostas a quem interditava rodovias pelo País.

Após caminhoneiros – ou infiltrados, como classificou o governo federal – começarem a pedir intervenção militar, o deputado recuou e apelou pelo fim da greve. “O Brasil quebrado não interessa a vocês nem a nós”, afirmou em um vídeo direcionado aos caminhoneiros e publicado em suas redes sociais na segunda.

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“Bolsonaro pisou no freio e percebeu que apostar no ‘quanto pior melhor’ acabou, de certa maneira, influenciando dentro do próprio grupo de apoio dele, que são os militares”, afirmou cientista político e professor da Universidade Mackenzie Rodrigo Prando.

Como solução para o problema, Ciro chegou a pedir a demissão do presidente da Petrobrás, Pedro Parente. Marina criticou o aumento de preços praticados pela estatal. Já o ex-ministro da Fazenda do governo Temer Henrique Meirelles foi chamado ao Planalto no domingo, em plena greve. Convocado pelo presidente, que o lançou pré-candidato do MDB à Presidência, ele participou de uma reunião para tentar colaborar com a solução do problema. Sem êxito, Meirelles tentou se descolar da crise.

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Para o cientista político da Fundação Getulio Vargas de São Paulo Marco Antonio Teixeira as consequências da greve prejudicam qualquer candidatura do governo, como a de Meirelles. “Seja como presidente ou até mesmo para vice-presidente, seria um risco desnecessário para outro partido ter um nome ligado ao governo na chapa”, disse. Segundo ele, as declarações de Ciro e Marina, que alertaram para os riscos da greve, fizeram com que eles saíssem “menos chamuscados”.

Maia quis se antecipar na busca pela solução do problema. No terceiro dia de bloqueios, o presidente da Câmara pautou e votou em tempo recorde um projeto de lei que zerava a cobrança de PIS-Cofins sobre o diesel até o fim deste ano. Na pressa, errou nos cálculos da renúncia fiscal (avaliou em R$ 3,5 bilhões, mas o montante era de cerca de R$ 14 bilhões). Depois da falha, reconhecida por ele, saiu de cena.

Na avaliação do cientista político José Álvaro Moisés, a greve escancarou a falta de autoridade do governo e a ausência de lideranças políticas capazes de resolver o problema. “E também revelou que o vencedor da eleição de outubro vai receber um País em situação extremamente delicada e complexa”, disse. Para Moisés, nenhum dos presidenciáveis ganhou com essa crise. “Para mim, Bolsonaro e Ciro Gomes perderam. Os demais tiveram posição ambígua.”

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Alckmin. Nesta terça-feira, 29, no sétimo dia da paralisação, Alckmin citou o “oportunismo de candidatos presos ou soltos que buscam se cacifar” com o movimento, sem citar diretamente o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Lava Jato. “Em um momento de ânimos acirrados, Alckmin reafirma sua candidatura como opção moderada de centro ao não entrar na discussão. Isso pode ser mais positivo do que negativo”, disse Prando.

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