Wilton Júnior / Estadão Conteúdo
Wilton Júnior / Estadão Conteúdo

Presidenciáveis ajustam discurso na paralisação

Movimento dos caminhoneiros pauta debate eleitoral e mesmo pré-candidatos alinhados ao ideário liberal defendem alguma intervenção na política de preços da Petrobrás

O Estado de S.Paulo

29 Maio 2018 | 05h00

A crise de desabastecimento causada pela greve dos caminhoneiros trouxe para o debate eleitoral um tema antes mais circunscrito aos ambientes de discussão da macroeconomia. Mesmo pré-candidatos à Presidência identificados com o ideário liberal precisaram modular o discurso e defenderam algum tipo de intervenção do governo sobre a política de preços da Petrobrás, diante da gravidade dos reflexos da paralisação do País. Há algum consenso sobre o peso dos impostos, mas pouca unidade sobre como mudar essa estrutura.

Fora do governo desde abril, o ex-ministro Henrique Meirelles defendeu nesta segunda-feira, 28, a criação de um fundo financeiro para amortizar a oscilação abrupta das cotações do petróleo no mercado internacional. “Criaríamos tributos flexíveis, de acordo com a variação dos preços do petróleo. Assim, a Petrobrás poderia manter a sua política de preços corretamente e manteria a sua saúde financeira”, afirmou ao Estadão/Broadcast o pré-candidato do MDB e fiador do governo Temer na área econômica.

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Linha parecida foi seguida pelo ex-governador Geraldo Alckmin, presidenciável do PSDB. Ele defendeu modular a incidência dos atuais impostos em função de câmbio e preços do petróleo. “Quando atingir o pico do petróleo, cai o PIS/Cofins. Quando volta a cair, restabelece o imposto e não prejudica tanto a questão fiscal”, disse.

O tucano também atacou a possibilidade de a Petrobrás reajustar seus preços diariamente. Para ele, o ideal é que isso fosse feito apenas duas vezes por mês, para dar “previsibilidade”. “O que não pode é ter 11 reajustes em 15 dias.” Em fevereiro, em encontro com empresários do setor de construção, Alckmin chegou a dizer que “tudo” poderia ser privatizado na Petrobrás, caso fosse estabelecido um “bom” marco regulatório. 

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O peso dos tributos também foi o alvo escolhido pelo senador Alvaro Dias, do Podemos. “Preços dos combustíveis são elevados especialmente em razão da carga tributária. E notadamente dos Estados. A cobrança do ICMS, em alguns Estados, é uma alíquota muito elevada”, afirmou ele, que prometeu revogar, se eleito, a atual política de preços da Petrobrás.

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Congelamento. Como reação ao movimento dos caminhoneiros, o governo federal ofereceu a redução e o congelamento temporário do preço do diesel. A mudança no preço (de R$ 0,46 por litro por um período de 60 dias) viria da redução do PIS/Cofins e da eliminação da cobrança da Cide, contribuição sobre os combustíveis. Um desconto extra poderia sair da mudança do ICMS, mas governadores de seis Estados e do Distrito Federal já avisaram que não concordam com a mudança. A alíquota do imposto sobre o diesel varia de 12% a 25%, dependendo do Estado.

Neste sentido, a ex-ministra Marina Silva, da Rede, defende “medidas estruturais”, como proposta de emenda à Constituição em estudo no Senado que prevê um teto para o ICMS nos Estados, de forma que não elevem “na sanha de arrecadar de forma descontrolada”. 

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No caso específico dos preços da Petrobrás, Marina disse que “ninguém aumenta a tarifa de luz todo dia por conta da variação do dólar” e que o governo poderia ter agido antes. “O Banco Central, as autoridades econômicas têm informação bem antes que nós. Para isso que elas estão lá, para poder ver tendência de mercado.”

O pré-candidato do PSL, Jair Bolsonaro, começou criticando a greve. Mudou de lado e passou a usar as redes para declarar apoio aos caminhoneiros e questionar o uso da cotação do petróleo no exterior. Ele defendeu os grevistas, mas não falou diretamente sobre as exigências deles, aceitas pelo Planalto, de garantir subsídios e congelamento de preços.

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Privatização. As cobranças dos caminheiros, chanceladas por Bolsonaro, vão na contramão de declarações do homem que o pré-candidato anunciou como seu ministro da Fazenda ideal – o economista Paulo Guedes. Ele ganhou espaço no PSL com discurso pela privatização da Petrobrás e contra subsídios em geral. Para Guedes, os governos anteriores não tiveram coragem de acabar com resquícios do regime militar na economia como as políticas de subsídios e congelamento de preços.

A solução oferecida pelo programa de governo do pedetista Ciro Gomes – que defende a demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobrás – passa por balizar o preço dos combustíveis ao custo de produção e à margem de lucro, aliado a uma política de incentivos à produção da indústria nacional de insumos e equipamentos.

Dessa forma, afirma o economista FGV Nelson Marconi, o câmbio e o preço do petróleo não teriam tanta influência. “Pode ter uma oscilação muito grande, e esse é um insumo muito importante, não é como qualquer outra commodity, tipo café.” Por outro lado, ele discorda dos subsídios aplicados na gestão petista para segurar os preços. “É preciso resguardar a rentabilidade da instituição.”

Já o PT pede a saída de Parente e defende o modelo adotado nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, com reajustes de “forma espaçada e moderada”. Para Guilherme Boulos (PSOL), a política de preços atual é “desastrosa”, enquanto Manuela d’Ávila (PCdoB) fala em novos investimentos na Petrobrás e autonomia nacional. / MARIANNA HOLANDA, PEDRO VENCESLAU, LUIZ RAATZ, RICARDO GALHARDO, ADRIANA FERRAZ e LEONENCIO NOSSA

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