DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
Gabriel dos Santos, 22 anos, participa de uma live do pré-candidato a vereador Matheus Hector em sua casa na Vila Mariana em São Paulo. DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Pré-candidatos usam 'live' e aula de dança para atrair eleitores

Na quarentena, eventos virtuais são forma para postulantes se apresentarem e buscarem voluntários

Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 05h00

Na quarentena, jovens que querem concorrer ao cargo de vereador têm apostado na organização de “encontros virtuais” para que possam se apresentar a potenciais eleitores. As reuniões acontecem em pequenos grupos, por meio de plataformas como o Zoom, e cumprem também o papel de angariar voluntários para a campanha. Nesse cenário, até clubes do livro viraram palco do debate político, e algumas reuniões chegam a propor aulas de dança para quebrar o gelo e motivar a discussão. 

“A impressão que todo mundo tem é de que essa é a campanha mais estranha da face da Terra”, disse o pré-candidato a vereador em São Paulo Matheus Hector (Novo). “Com a pandemia, o Zoom surgiu meio no desespero, e vem da decadência das lives (transmissões ao vivo) do Instagram”, afirmou ele, que tem trabalhado semanalmente na organização desses encontros virtuais. 

“É uma reunião em que o pré-candidato dá a cara a tapa e fala o que pensa e o que quer para a cidade”, relatou o estudante Gabriel dos Santos, um dos convidados para o encontro da última quinta-feira. Estudante de Administração Pública, Santos é entusiasta do formato, que considera ser capaz de abrir espaço para a participação dos cidadãos no processo eleitoral. “Como eu tenho um conhecimento do ponto de vista de renda que meus amigos não têm, falo coisas diferentes, então sinto a importância de eu estar nesse processo.”

Para a cientista política e pesquisadora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Carolina de Paula, esse tipo de encontro “funciona como aquele velho trabalho de corpo a corpo, tão forte nas campanhas municipais”. “As campanhas locais têm essa proximidade, que o Zoom tenta trazer. Você pode até realizar, por exemplo, reuniões com temas específicos”, afirmou Carolina. 

Pré-candidato a vereador em Maceió, Anísio Lima (PSDB) tem lançado mão dessa estratégia. “Eu falo para meus amigos que sou pré-candidato e que gostaria de me apresentar para amigos deles”, disse. “No início, para ficar mais rápido, a gente também segmentava essas reuniões: ‘Hoje vou conversar com o pessoal da empresa júnior, hoje com gente de projetos sociais, hoje com jovens de movimento estudantil e da igreja’, e assim a gente vai fazendo.”

Além da segmentação, ganham força outras estratégias de diálogo com o eleitorado. Caso da pré-campanha de Vivian Mendes (PT), que quer concorrer à Câmara Municipal de São Paulo. Vivian tem organizado um “clube do livro feminista” virtual, no qual cerca de 40 mulheres se encontram semanalmente para discutir a leitura de uma obra – o livro Presas que Menstruam, de Nana Queiroz, por exemplo, pautou alguns dos encontros, que também possibilitam que a pré-candidata apresente suas bandeiras. 

“Tem bastante gente que acabou entrando na nossa pré-campanha por conta do clube, gente que participou e se interessou”, disse ela. “A eleição, principalmente de vereador, tem uma relação de muita proximidade. A gente tem que usar este momento, que as pessoas estão antenadas com a política, para formatar espaços que depois possam ter continuidade.”

Aproximação

Colega de partido de Vivian, a pré-candidata a vereador em São Paulo Luna Brandão tem buscado formas de dialogar com uma parcela mais ampla da população, e chegou a propor aulas de dança em encontros que organizou. Para ela, “atividades lúdicas e culturais” aproximam as pessoas do debate. “Você traz uma quebra para o ambiente da política, que é muito engessado.”

O repertório musical inclui faixas da cantora Ludmilla e de outros artistas. Só dança e aparece na tela quem se sentir à vontade, afirmou o militante petista Marco Aurélio Purini, um dos que organizam os encontros. A atividade, disse, ajuda a “quebrar o gelo, debater preconceitos contra o corpo e ter um tema gerador para organizar o debate”.

Para especialistas, iniciativas como essas estão de acordo com o que prevê a legislação eleitoral. “Não vejo qualquer violação nessas iniciativas”, afirmou o advogado e presidente da comissão de Direito Eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp), Fernando Neisser. Segundo ele, além das restrições típicas da campanha, o que o político não pode fazer, na pré-campanha, é pedir voto expressamente ou arrecadar doações que não venham por meio das vaquinhas virtuais, já regulamentadas pela Justiça. 

Secretária-geral da Comissão de Direito Eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP), Maíra Recchia concorda. “Não vejo muita diferença disso em relação ao que eram os encontros privados nas residências, por exemplo, em pequenas reuniões.”

Maíra ressaltou ainda que, com o curto tempo de propaganda eleitoral permitido – 45 dias –, iniciativas como essas são importantes para que pré-candidaturas “sejam minimamente conhecidas pela sociedade”. “Senão, você gera uma disparidade muito grande entre os concorrentes, com uma grande vantagem para aqueles que já estão no poder, que têm uma visibilidade natural do cargo que ocupam.”

 

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Desgaste da política expõe relevância do voto ‘consciente’

Para analistas, acirramento das disputas eleitorais deu mais força à escolha por impulso, o que gera consequências individuais e coletivas

Bianca Gomes e Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 05h00

Morador do Jardim Capela, na zona sul de São Paulo, o aposentado Sebastião Paulo da Silva, de 72 anos, nunca deixou de votar. Nem em 1989, quando estava internado no dia em que os brasileiros iriam escolher o presidente da República pela primeira vez após a ditadura militar. “Conversei com o médico, assinei um termo de compromisso e fui votar.” Silva disse ter se arrependido de algumas escolhas que fez nas urnas, mas nega que isso tire seu interesse pela próxima eleição municipal. Ele continua buscando informações sobre os candidatos e acompanhando as decisões de quem ajudou a eleger.

A história de Silva, no entanto, não é a regra. Em geral, os eleitores não sabem como funciona o sistema político nem pesquisam sobre os candidatos, segundo a pesquisadora Joyce Luz, do Núcleo de Instituições Políticas e Eleições do Cebrap. “Os cidadãos não entendem que possuem um papel ativo na política e que a escolha de representantes traz consequências não só individuais, mas coletivas”, afirmou Joyce.

Na média, o brasileiro vota por impulso e não com base em uma escolha racional, avaliou a professora de Teoria da Democracia da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará Raquel Ramos Machado. “Isso faz com que a política se torne um espaço de mais manipulação e menos realização dos anseios da sociedade.”

A proximidade das eleições municipais, os altos índices de desconfiança na política registrados em pesquisas de opinião e a possibilidade de que muitas pessoas evitem ir às sessões eleitorais em novembro por causa da pandemia do novo coronavírus reforçam a discussão sobre a importância do voto consciente. O termo diz respeito a uma situação em que o eleitor escolhe seu candidato de forma responsável, ciente de quem está ajudando a eleger e disposto a acompanhar o mandato e cobrar o cumprimento dos compromissos de campanha.

Embora existam iniciativas para incentivar o chamado voto bem informado, elas ainda não foram capazes de mudar a imagem que o brasileiro tem da política. Pesquisa do Instituto Locomotiva/Ideia Big Data feita em 2018 mostrou que 96% dos cidadãos não se sentem representados pelos políticos em exercício e 94% acreditam que os parlamentares estão mais preocupados em se manter no poder do que em governar.

“As pessoas pensam que só o voto delas não adianta nada e que, mesmo quando elas votam, acabam elegendo um político que não faz nada por elas. Então, votar seria um esforço que não vale a pena”, disse Raquel. 

Educação política

O analista de sistemas Adriano Sales, de 33 anos, era um dos que achavam que seu papel no sistema eleitoral era simplesmente apertar os números na urna eletrônica. Sua visão começou a mudar após fazer um curso de educação política na empresa onde trabalha. “Percebi que meu papel não é só no período de eleição, mas todos os dias dentro da empresa, da minha casa, com meus amigos. E é acompanhar o que o candidato que escolhi está fazendo, se está cumprindo suas promessas.”

Ele afirmou que vai se aplicar mais na hora de escolher candidatos. “Pesquiso mais sobre o político, tento entender a trajetória, saber quais foram os pontos positivos e negativos.”

Com isso, o analista de sistemas disse ter deixado para trás “uma visão de torcida de futebol” que tinha do sistema político. A falta de conhecimento sobre os candidatos leva o eleitor a enxergar as disputas eleitorais apenas como um jogo entre vencedores e perdedores e não como uma arena de debate público, segundo analistas. Isso faz com que as pessoas se posicionem contra uma ideia, em vez de votarem a favor de um projeto, e ajuda a explicar a polarização, inclusive com episódios de violência, vivenciada de alguns anos para cá.

Outro efeito da descrença em partidos e do desinteresse na política é a alta taxa de abstenção. Na eleição presidencial de 2018, o índice atingiu o maior nível em 20 anos – 30 milhões de eleitores não compareceram às urnas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Dois anos antes, a soma dos eleitores paulistanos que não foram votar ou escolheram nulo ou branco foi maior do que o número de votos recebidos pelo candidato eleito, João Doria (PSDB), atual governador de São Paulo.

Participação

Mas, se depender da escritora Eunice Tomé, de 73 anos, a taxa de abstenção não vai subir este ano, mesmo com a pandemia. Embora o voto seja facultativo em sua idade, ela pretende participar das eleições. “É na cidade que a gente mora, compra, dorme, estuda, trabalha e tem amigos. As eleições municipais são até mais importantes do que as federais, porque estão diretamente ligadas a quem vive no local”, disse.

Com a aproximação do pleito, a escritora resolveu participar de um curso de formação política da Escola do Legislativo e da Cidadania de Santos. Durante três dias aprendeu sobre temas como história da democracia, constituições brasileiras e papel do parlamento. 

Segundo o presidente da Escola do Parlamento da Câmara Municipal de São Paulo, Alexsandro Santos, iniciativas como essa existem em casas legislativas de todo o Brasil e servem para ensinar sobre o funcionamento da política, não para fazer campanha. Até empresas têm buscado parcerias com cientistas políticos ou fundações para oferecer esse tipo de formação a seus funcionários. “Essas aulas contribuem para o letramento político da população”, afirmou Santos. 

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Projetos e redes podem ajudar na escolha bem informada

Jovens eleitores relatam aprendizado sobre o mecanismo da política em escolas legislativas e canais no YouTube

Bianca Gomes e Fernanda Boldrin, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 05h00

O interesse pela política pode começar na infância. A estudante Aline Priscila Postai, de 17 anos, começou a aprender sobre o funcionamento do Legislativo aos 11 anos, quando foi a representante da sua escola no Projeto Vereador Mirim, em Florianópolis, onde vive.

“Fizemos sessões na Câmara, apresentando nossos projetos para melhoria dos colégios, e viajamos para a Assembleia de Santa Catarina para conhecer os deputados”, disse a jovem, que, neste ano, decidiu participar de um curso de formação política oferecido pela sua escola. A motivação, segundo ela, foi o fato de mulheres serem pouco valorizadas na política. 

“Ao votar, posso eleger pessoas que se importam com a gente. O voto é um direito e uma conquista nossa que demorou anos para ser concretizado”, afirmou Aline.

Já a estudante Marina Giannini, de 16 anos, começou a se interessar por política ao assistir a uma série de vídeos sobre o tema no YouTube. Marina, que vai às urnas pela primeira vez em 2020, disse acreditar que o ato de votar funciona como uma porta para que os cidadãos se envolvam mais com a política. “Só fui pesquisar o que cada cargo faz por conta deste momento de eleições”, afirmou a jovem.

Embora possam ajudar o eleitor a levantar informações sobre candidatos, as redes sociais precisam ser acessadas com responsabilidade, segundo Cláudio Ferraz, professor de Economia Política da University of British Columbia, no Canadá, e também da PUC-Rio. “Propaganda (eleitoral) por Facebook, por exemplo, pode ajudar candidatos novos e com menos recursos partidários. Por outro lado, permite que os próprios candidatos digam coisas que podem não ser verdade, e é difícil controlar isso”, disse o professor.

Segundo ele, o voto bem informado pode ajudar até no combate à corrupção. “Temos bastante evidência empírica de que informação ajuda eleitores a votar melhor. Informação sobre corrupção, por exemplo, ajuda eleitores a punirem nas urnas políticos corruptos”, afirmou Ferraz, que tem pesquisas sobre o assunto publicadas em plataformas acadêmicas. 

Enquanto alguns eleitores vão às urnas pela primeira vez, outros podem querer distância das aglomerações do dia da votação. A pandemia do novo coronavírus deve elevar as abstenções nas eleições deste ano, especialmente entre os idosos, observou o cientista político Humberto Dantas. 

“Pode haver anistia por parte da Justiça Eleitoral aos faltosos, mas o voto foi mantido compulsório. O que pode haver é uma ausência recorde de idosos, sobretudo acima dos 70 anos”, disse o cientista político.

 

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