CARLOS EZEQUIEL VANNONI/FOTOARENA
CARLOS EZEQUIEL VANNONI/FOTOARENA

'Plano A é registrar a candidatura, plano B é vencer a eleição', diz Marília Arraes

Vereadora do Recife, petista tenta se viabilizar como candidata à cadeira já ocupada pelo seu avô, Miguel Arraes, e por seu primo, Eduardo Campos; principal dificuldade está dentro do PT, que cogita apoio à reeleição do governador Paulo Câmara (PSB)

Kleber Nunes, O Estado de S.Paulo

06 Junho 2018 | 05h00

A vereadora do Recife Marília Arraes (PT) tenta se viabilizar como candidata à cadeira ocupada por duas vezes pelo seu avô, Miguel Arraes, e outras duas vezes por seu primo, Eduardo Campos. O surgimento de sua pré-candidatura movimentou o cenário político local, mas sua principal dificuldade ironicamente está dentro de seu próprio partido, que cogita apoio à reeleição do governador Paulo Câmara (PSB). Marília usa pesquisas internas que lhe colocam em posição competitiva na disputa como principal argumento para convencer o PT a lançar candidatura própria ao governo de Pernambuco. A seguir os principais trechos da entrevista:

No próximo domingo, 10, o PT deve definir se retoma aliança com o PSB ou aposta na candidatura própria ao governo do Estado, que deve ser a sua. Qual a sua expectativa?

Acho que deveriam resolver logo a nosso favor, mas essa pesquisa (encomendada pela executiva nacional do PT) vai mudar muita coisa nessa discussão. A expectativa é de que a gente vai ganhar na assembleia, porque na verdade essa decisão reflete o que a base do partido quer, que é a candidatura que representa mais de um ano de construção de debates. A gente não tem o direito de chegar, entrar num gabinete, fazer um acordo e deixar para trás, como se nada tivesse acontecido, a composição que foi feita com as bases, não só do PT, mas de fora dele também.

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Como nasceu a sua pré-candidatura ao governo?

Primeiro, no final de 2016, o partido definiu que teria um candidato próprio ao governo do Estado, pela inviabilidade de aliança com os dois palanques que estavam e continuam aí postos. Politicamente nada mudou de tão substancial para que possibilitasse uma aliança, por isso, que a gente mantém essa postura de defender a candidatura própria. Fui chamada, naquele ano, pelo senador Humberto Costa (PT) para conversar e ele falou dessa possibilidade e perguntou o que eu achava. Na época, isso (concorrer ao governo) nem passava pela minha cabeça, estava pensando em dispustar para deputada. Eu tinha acabado de assumir a liderança da oposição (na Câmara dos Vereadores do Recife) ao mesmo tempo precisamos rodar o Estado para conversar sobre as reformas trabalhista e da previdência com sindicatos e movimentos sociais. Foi durante esse trabalho que a própria militância, em cada encontro, levantava o nome da gente como candidata à governadora.

Caso e confirme a sua pré-candidatura quais os partidos a senhora quer no seu palanque?

Essa articulação tem que ser feita pelo PT, o presidente (Lula) que vai ter que fazer essas conversas. Existe um grupo de trabalho já escalado para fazer essa articulação, mas é claro que como pré-candidata a gente não deixa de ser procurada por diversas lideranças que estão só esperando a definição. Uns para compor uma chapa marjoritária, outros como prefeitos, vereadoes, ex-prefeitos e lideranças políticas apenas dispostos a dar apoio a nossa candidatura.

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Na sua opinião, há uma fragmentação da esquerda em Pernambuco? Quais partidos abraçariam o projeto do PT?

Já estamos em diálogo com os partidos de esquerda, mas não posso externar agora porque está no campo das conversas e esse movimento tem que ser feito respaldado pelo PT. Temos conversado bastante, não acho que a gente vá sair (para a campanha) fragmentado. Todos estão bastante conscientes de que é importante a união neste momento e a esquerda estará no nosso palanque.

O senador Humberto Costa (PT) foi o primeiro que lhe apresentou a proposta de disputar o governo pernambucano, mas agora está articulando a retirada da sua possível candidatura. O que mudou?

O PT não está vendo vantagens não e vai mostrar isso. O senador não fala pelo PT, quem fala pelo partido é o presidente do partido. Humberto e as lideranças que defendem essa aliança acho que podem esclarecer bem o porquê disso. Do meu ponto de vista, não tem justificativa política para ela, o PSB sequer está fazendo gestos significativos de autocrítica por ter votado pelo golpe. O próprio governador (de Pernambuco) foi contra o posicionamento do PSB nacional e se declarou a favor da reforma da Previdência. Também não estou vendo nenhum gesto de defesa de Lula, de denúncia da prisão política do ex-presidente, ou seja, nada que signifique que eles estão fazendo um caminho de volta para o nosso campo político.

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A senhora diz que o governo de Paulo Câmara (PSB) é 'ruim e altamente rejeitado' pelos pernambucanos. Onde foi que ele errou?

Errou na política. A gestão Paulo Câmara é um governo desgastado politicamente, ele não tem a liderança que um governador precisa. É como se ele tivesse no cargo e não tivesse se dado conta da dimensão e da importância que isso representa. Na verdade, ele foi eleito para ser governado e não para governar. Um Estado como Pernambuco, que independente da coloração partidária, do lado político, sempre teve governadores que eram reconhecidos por serem lideranças nacionais. Paulo Câmara passou quatro anos não mostrou a que veio. Parece que ele não gosta de estar ali e não se deu conta do que é estar ali.

E quais serão as suas propostas para fazer o que o governador não fez?

Definida a candidatura própria, vamos iniciar grupos de trabalho pelo Estado inteiro e setorizados para consolidar a formação do programa de governo, que será apresentado à população antes da convenção do PT, na primeira semana de agosto. Será um projeto que realmente represente o que Pernambuco quer e precisa, construído conversando com as pessoas e não dentro de um gabiente, mas andando todo Estado. Já têm várias pessoas se propondo a trabalhar em diversas áreas conosco, inclusive, na segurança. Conversei com o professor (José Luiz) Ratton, que foi quem idealizou o Pacto pela Vida.

No governo Paulo Câmara, o número de pessoas assassinadas cresceu. Em 2017 o Estado bateu o recorde com 5.427 vítimas. A senhora manteria o Pacto pela Vida?

Na verdade, o Pacto pela Vida foi desmontado, a partir do momento que a área preventiva foi sucateada. Hoje, por exemplo, a maior causa de homicídios são as drogas, mas os programas como Atitude e outras ações preventivas, que diminuem os danos desse problema, foram desmantelados para fazer proselitismo com a base política. O professor Ratton está disposto a elaborar com a gente uma retomada das rédias da segurança pública do Estado.

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Quais serão as suas principais ações para Pernambuco?

O Estado, principalmente o interior, sofre muito com a falta de abastecimento de água, que não chega nas torneiras das pessoas. A gente vê algumas obras não muitas, geralmente grandes adutoras e barragens. No caso da Zona da Mata Sul, por exmeplo, que nós deveríamos ter cinco barragens construídas, evitando a cheia na região e represarando água para levar aonde não tem, somente uma foi entregue. Duas tiveram os projetos reprovados por falhas e o dinheiro que já estava garantido teve que voltar para o governo federal. Há um descaso e uma falácia eterna em relação a esse problema. Muita vezes não chega água por falta de obras de apoio como manutenção da rede de distribuição, modernização dessa estrutura, têm redes que tem 60, 70 anos sem nenhuma manutenção. É como se o governo quisesse sucatear a gestão para icentivar a população a apoiar a privatização da Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento).

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