Tomaz Silva/Agência Estado e Marcos de Paula/Estadão
Tomaz Silva/Agência Estado e Marcos de Paula/Estadão

'Pedofilia', 'pai da mentira', 'kit gay', 'trairagem': a disputa do segundo turno no Rio

Campanha predominantemente morna que levou Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) à disputa final deu lugar a troca de acusações entre os dois candidatos

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2020 | 10h01

RIO - De um lado, fake news requentadas da campanha de 2018, com suposto apelo a "moral e bons costumes"; de outro, ataques pessoais que têm a base religiosa do adversário como prioridade. Este turno não vai ser igual àquele que passou nas eleições para prefeito do Rio de 2020. A campanha predominantemente morna que levou Eduardo Paes (DEM) e Marcelo Crivella (Republicanos) à disputa final ficou para trás. Desde a semana passada, o ex-prefeito e o prefeito candidato à reeleição trocam ataques duros. O objetivo é o mesmo: desconstruir o adversário.

Com desvantagem de cerca de 40 pontos nas pesquisas de intenção de votos válidos, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) apelou para diferentes formas de tentar desgastar a imagem de Paes. O ex-prefeito tem cerca de 70% dos votos válidos nos levantamentos Ibope e Datafolha. Esperando reduzir esse porcentual, Crivella tenta associar o adversário ao PSOL - partido de esquerda, praticamente antípoda do DEM de Paes. Também tenta ligar o demista a um suposto "kit gay" e até à pedofilia.

Em uma dessas tentativas, Crivella aparece em vídeo ao lado do deputado federal bolsonarista Otoni de Paula (PSC-RJ). Até o início da campanha, o parlamentar era crítico ao prefeito. Tentou ser candidato ao Executivo, mas não teve forças dentro do partido. Na peça, porém, os dois aparecem unidos. Com expressões compungidas, afirmam que Paes teria um acordo com o PSOL. Pelo acerto, a legenda de esquerda assumiria a Secretaria de Educação. Alegam que, com isso, haveria "pedofilia nas escolas".

A afirmação sem nenhuma base em fatos - ninguém defendeu a pedofilia durante a campanha - irritou a campanha de Paes e os psolistas, que estão fora do segundo turno. Além da acusação que denunciam como caluniosa e absurda, o ex-prefeito e o partido não têm nenhum  acordo político em troca de cargos no futuro governo. O PSOL, assim como o PT, só declarou voto contra Crivella no Rio, mas sem apoiar o candidato do DEM.

Postado nas redes sociais, o vídeo informal do prefeito com Otoni de Paula marcou o início do que seria apresentado na propaganda oficial dali em diante. Na televisão, Crivella veiculou imagens que pintam Paes como um candidato que, além de apoiar o "kit gay", defende a "ideologia de gênero"e a legalização das drogas. 

Nenhum desses pontos - todos presentes na campanha de 2018 - consta do programa, nem do discurso do ex-prefeito. Muito agitada na última corrida presidencial, inclusive pelo presidente Jair Bolsonaro, a fake news do "kit gay" deturpa informações sobre materiais didáticos de educação sexual produzidos quando o PT estava na Presidência. Eram dirigidos a professores, não aos estudantes. Bolsonaro chegou a portar na televisão um livreto usado na rede de educação pública portuguesa, com figuras aludindo a sexo. Afirmou ter sido feito pelo governo federal petista.

No último fim de semana, outro episódio tornou ainda mais explícita a estratégia de Crivella. Cabos eleitorais do prefeito distribuíam materiais com os seguintes dizeres: "Eduardo Paes e seus amigos defendem legalização do aborto, liberação das drogas, kit gay nas escolas". Ao lado do ex-prefeito, na montagem, aparece o deputado federal Marcelo Freixo. Abaixo, as fotos de Crivella e de sua vice, Andrea Firmo, colocando-os como contraponto.

"O Crivella praticamente declarou a derrota. Não é uma estratégia de tudo ou nada, é uma estratégia de desespero. Me parece que não é nem uma forma de desconstruir o adversário, e sim de se posicionar como oposição a partir do dia 29 de novembro", aponta o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, os ataques não devem surtir efeitos significativos. O motivo é que Crivella é rejeitado por mais de 60% da população, que considera seu governo ruim ou péssimo.

Apelo religioso

Em meio aos ataques, o ex-prefeito também passou a direcionar críticas diretamente ao adversário, com  um toque de apelo religioso. Até então, Paes se limitava a criticar Crivella como gestor, chamando-o de incompetente e de pior prefeito da história do Rio. Agora, tem apontado o mandatário - que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus - como "o pai da mentira", um dos apelidos do diabo. A expressão foi usada logo no primeiro bloco do debate da Band, na quinta-feira, 19. Vem sendo martelada pelo ex-prefeito nas redes, por meio da hashtag #CrivellaPaiDaMentira.

A avaliação, durante o primeiro turno, era a de que Paes poderia "jogar parado" se a disputa no segundo fosse contra Crivella. A postura do atual prefeito, contudo, praticamente o obrigou a mudar de postura. Paes precisou inserir críticas duras a Crivella em meio ao debate sobre questões da cidade. Os ataques visam a única faixa do eleitorado onde o prefeito ainda demonstra muita força: o público evangélico.

"Ao insistir no discurso de que o adversário é o pai da mentira, ele cria uma maneira de neutralizar qualquer fala do Crivella", opina Baía.

A campanha de Paes também passou a enumerar os "sete pecados" de Crivella. Seriam eles:  incompetência, omissão,  falsidade, fraqueza, hipocrisia, "trairagem" (Crivella teria traído os ex-presidentes Luiz  Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e agora se diz bolsonarista) e a mentira. Nesse quadro, o ex-prefeito literalmente demoniza o adversário. Usa fundo vermelho e caricatas letras de filmes de horror do passado.

O debate na Band gerou outras manifestações de repúdio a Crivella. Considerado aliado do prefeito, o presidente da Câmara Municipal, Jorge Felippe (DEM), comentou nas redes sociais que estava "horrorizado" com as "mentiras deslavadas" do prefeito. Isso porque o mandatário afirmou que Paes teria pedido ao vereador que não botasse em votação o projeto do Executivo que buscava reduzir o IPTU na cidade.

A medida é considerada inadequada por economistas e contradiz o discurso do próprio prefeito. Ele passou o primeiro turno atribuindo as deficiências de seu governo à falta de dinheiro na prefeitura, que, segundo ele, foi provocada por Paes. O ex-prefeito, diz Crivella, teria deixado dívidas bilionárias e obras superfaturadas, que teriam gerado propinas milionárias.

“O prefeito Crivella me cita e faz comentários falsos. Prefeito, esteja certo que o povo não respeita e não aprova quem mente”, escreveu Jorge Felippe.

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