Reprodução/TV Band
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No primeiro debate do Rio, Crivella é alvo e fala em 'kit gay'

Prefeito tentou levar discussão para campo ideológico e foi criticado por ignorar os problemas da cidade; Paes também foi atacado

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 01h47
Atualizado 02 de outubro de 2020 | 19h25

RIO - O primeiro debate dos candidatos à Prefeitura do Rio de Janeiro foi marcado por ataques ao prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) e o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), candidatos que lideram as pesquisas de intenção de voto. Os ataques ao atual prefeito se concentraram mais na sua impopular gestão do que nos escândalos que marcaram os últimos meses, como o ‘QG da Propina’ e o grupo ‘Guardiões do Crivella’. A denúncia que tornou Paes réu por suposto caixa 2 em 2012 e o governo do presidente Jair Bolsonaro foram ignorados pelos debatedores. 

Logo no primeiro minuto, Paes já deixou claro o caminho que quer seguir ao longo da campanha: uma comparação entre a gestão Crivella e os seus mandatos. Nesse contexto, rebateu a alegação do atual prefeito de que o Rio teria sido referência no combate ao coronavírus. “Ao contrário do que disse o prefeito aqui, o índice de mortalidade do Rio foi o dobro do de São Paulo. As clínicas da família sem funcionar, o BRT… Dobrou o índice do desemprego. O carioca tem na memória que na nossa gestão as coisas eram muito melhores”, disse. 

Crivella buscou, a todo momento, alegar que herdou dívidas e uma “corrupção anômica” da gestão Paes. Atrelou a isso os problemas do seu mandato e disse que agora a cidade “está saindo da crise”. Por outro lado, buscou a única saída possível para driblar sua impopularidade: ideologizar o debate por meio de temas morais e sem relação com a Prefeitura. Na primeira oportunidade que teve de formular uma pergunta, escolheu Renata Souza (PSOL) e perguntou sobre a suposta “ideologia de gênero” nas escolas. 

“Se o Psol ganhar a eleição, as escolas vão ter o que as crianças deveriam ter em casa: orientação sexual. Vai ter kit gay nas escolas e a liberação das drogas”, afirmou, antes de receber críticas da deputada estadual por ignorar problemas graves da cidade. Após o debate, apresentada à Justiça Eleitoral uma interpelação para que o prefeito seja convocado para provar o que disse. 

“É a mesma mentira usada por Bolsonaro para atacar o PSOL. Crivella tem que se explicar na Justiça. Ele deveria estar preocupado em debater propostas para lidar com a pandemia e recuperar o Rio. Com mais de 10 mil mortos na cidade, ele gasta o tempo do debate com fake news”, diz Renata.

Quase todos os participantes atacaram a administração Crivella - que tem mais de 70% de rejeição nas pesquisas. Ele conta com a tentativa de associação ao bolsonarismo e com as máquinas pública e da Igreja Universal para tentar se reeleger. 

Paes protagonizou embates com a deputada estadual Martha Rocha (PDT). Em determinado momento, ela apontou o fato de o ex-prefeito ter comandado a cidade numa época de grandes eventos, como a Olimpíada, e desperdiçado a oportunidade de transformá-la em “referência em Saúde e Educação”. Após Paes ironizar o fato de a candidata ter citado um suposto rombo de R$ 320 bilhões nos cofres cariocas, Martha atacou outro aspecto do ex-prefeito: sua personalidade. “Esse jeito malandro de ser, debochado e desrespeitoso, o carioca não aguenta mais. O carioca quer andar de cabeça erguida. Esse filme o carioca não quer de novo. O teu filme não vale a pena ver de novo.” 

Os dois voltaram a se enfrentar no bloco seguinte, quando foi a vez de Paes partir para um duelo mais incisivo. Citou números da Polícia Civil durante o período em que Martha comandou a corporação para alegar que havia sido uma má gestão. Falou, entre os dados, sobre o aumento nos registros de estupros.Também destacou o fato de a deputada nunca ter ocupado cargos na Prefeitura. "A senhora não conhece a Prefeitura do Rio, nunca esteve perto da gestão municipal. Respeito seu mandato, seu trabalho como deputada, mas nós precisamos nesse momento delicado da cidade alguém com experiência."

Martha respondeu lembrando do episódio em que Paes foi acusado de machismo ao dizer que uma mulher negra iria “transar muito” após receber sua casa própria. “Quero dizer para o senhor que a violência contra a mulher e o respeito às mulheres sempre foram uma missão e uma promessa da minha vida”, disse. “Esse aumento (de estupros) foi porque se uniu num único crime o atentado violento ao pudor e o estupro.” Em outro momento, voltou a emplacar uma frase de efeito: “Existe vida depois de Eduardo Paes.” 

Outro embate que marcou a noite se deu entre Crivella e Luiz Lima (PSL), os dois nomes que se apresentam como os candidatos do presidente Jair Bolsonaro - que não deve declarar apoio a ninguém no Rio no primeiro turno. Lima citou o episódio conhecido como ‘Guardiões’ para criticar o prefeito, em referência à reportagem da TV Globo que revelou o esquema de cerceamento ao trabalho da imprensa na porta de hospitais. Foi quando Crivella tentou associar o adversário à Globo e usou um dos principais bordões dos bolsonaristas. 

“Eu sei da sua ligação com a Rede Globo de Televisão. Ela é inimiga jurada do meu governo”, disse, sem dar detalhes de que ligação seria essa. “Luiz, você foi eleito com o Bolsonaro. Meu conselho para você: se separe da Rede Globo de Televisão."

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