Operação contra ‘QG da propina’ faz buscas na casa de Crivella e na Prefeitura

Operação contra ‘QG da propina’ faz buscas na casa de Crivella e na Prefeitura

Mandados são desdobramento de operação deflagrada em março que atingiu aliados do prefeito; investigação apura corrupção e organização criminosa

Caio Sartori, Wilson Tosta e Daniela Amorim/RIO

10 de setembro de 2020 | 08h13

Atualizado às 17h52*

Marcelo Crivella, prefeito do Rio. Foto: Fabio Motta/ Estadão

O Ministério Público e a Polícia Civil do Rio cumprem na manhã desta quinta-feira, 10, mandados de busca e apreensão na casa do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), e em duas sedes da Prefeitura: o Palácio da Cidade, na zona sul, e o prédio administrativo conhecido como ‘Piranhão’, na região central. A investigação apura suposto esquema de corrupção e organização criminosa no Executivo carioca.

Os mandados de hoje são um desdobramento da Operação Hades, deflagrada em março deste ano contra supostos envolvidos no que ficou conhecido como ‘QG da propina’. Naquela ocasião, foram cumpridos 17 buscas e apreensões. Nesta manhã, mais pessoas foram atingidas: 22.

A investigação teve como ponto de partida a delação premiada do doleiro Sérgio Mizrahy, preso no âmbito da operação Câmbio Desligo, um dos desdobramentos da Lava Jato fluminense. Veio dele a expressão ‘QG da Propina’ para se referir ao esquema, que teria como operador Rafael Alves, homem forte da Prefeitura apesar de não ter cargo oficial. Ele é irmão do ex-presidente da Riotur, Marcelo Alves – os dois foram os principais alvos dos mandados de março, e Marcelo foi exonerado logo depois.

O suposto QG funcionaria assim, de acordo com o delator: empresas interessadas em trabalhar para o Executivo carioca entregavam cheques a Rafael, que faria a ponte com a Prefeitura para encaminhar os contratos. O esquema também funcionaria no caso de empresas com as quais o município tinha dívidas – aqui, o operador mediaria o pagamento.

As diligências de hoje ocorrem em endereços ligados a agentes públicos municipais e empresários na capital (nos bairros da Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Tijuca e Flamengo), além dos municípios de Itaipava, na região serrana, e Nilópolis, na Baixada Fluminense. Entre os atingidos, além de Crivella, estão o próprio Alves, o ex-senador Eduardo Lopes, o ex-tesoureiro do prefeito, Mauro Macedo, e o marqueteiro Marcello Faulhaber, que atualmente trabalha para Paes.

Crivella não se pronunciou até aqui. Nesta semana, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), outro candidato à Prefeitura, também foi alvo de operação – por suposto caixa 2 na eleição de 2012. Ele negou irregularidades e protestou contra a ação, que atribuiu a motivos políticos. Os dois devem protagonizar a eleição deste ano no Rio.

Além da operação de hoje, Crivella se vê envolvido em outro escândalo: o dos ‘Guardiões’, caso revelado pela TV Globo. Servidores da Prefeitura eram pagos para fazer “plantões” na porta dos hospitais e impedir que a população denunciasse as más condições da Saúde em entrevistas para a emissora de televisão.

A ação desta manhã foi deflagrada pela Subprocuradoria-Geral de Assuntos Criminais do MP e pelo Grupo de Atribuição Originária Criminal da Procuradoria-Geral de Justiça (Gaocrim). Também participam policiais civis da Coordenadoria de Investigações de Agentes com Foro.

Logo após a operação, Crivella foi cumprir agenda com o presidente Jair Bolsonaro, que estava no Rio. Eles participaram de uma cerimônia de formatura da Marinha.

COM A PALAVRA, MARCELO CRIVELLA

“Semana passada, o meu advogado, o Dr. Alberto Sampaio, esteve com o sub-procurador do Ministério Público Estadual, o Dr. Ricardo Martins, colocando à disposição os meus sigilos bancário, telefônico e fiscal por conta de denúncias publicadas na imprensa. Portanto, foi estranha a operação realizada hoje na minha casa, considerando ainda que estamos em período eleitoral. No entanto, quero registrar que vi respeito e integridade no procurador, no delegado e no oficial de justiça. A ação durou cerca de uma hora e nada foi encontrado. Considero essa ação injustificada, já que sequer existe denúncia formal e eu não sou réu nesta ou em qualquer outra ação. A investigação, que ainda nem se transformou em ação, se motiva em uma matéria do jornal O Globo, inimigo jurado do nosso governo, que alega existir na Prefeitura uma central de propinas, e a prova que apresenta é o pagamento devido pela administração anterior a uma empresa chamada Locanty. Vocês podem conferir no site de transparência da Prefeitura que nunca durante o meu governo foi feito qualquer pagamento a essa empresa. Lamento também que a Rede Globo de Televisão tenha chegado na minha casa antes dos oficiais. Como ela sabia se havia sigilo? Um mandado de busca e apreensão precisa vir acompanhado da motivação e os oficiais encarregados não apresentaram. Portanto, quero dizer que, apesar disso, do fundo do meu coração, confesso que prefiro o Ministério Público voluntarioso, mesmo com alguns excessos, do que aquele omisso, que permitiu ocorrer no Rio de Janeiro, em gestões passadas, o maior volume de corrupção já visto no mundo, que tantos prejuízos trouxeram e ainda trazem ao nosso povo. Uma conta amarga que tivemos que pagar de obras olímpicas superfaturadas. Vamos em frente e que Deus nos abençoe.”

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