ED FERREIRA/ESTADÃO
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Auxiliar de Ciro Gomes: ‘Não vejo o DEM como partido de direita’

Mangabeira Unger afirma que candidatura de Ciro Gomes (PDT) em 2018 vai além da centro-esquerda e faz acenos ao DEM

Entrevista com

Roberto Mangabeira Unger, filósofo e professor na Universidade de Harvard

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 05h00

Um dos principais conselheiros do ex-ministro Ciro Gomes, pré-candidato do PDT ao Palácio do Planalto nas eleições 2018, o filósofo Mangabeira Unger, professor de direito na Universidade de Harvard, disse que o DEM deve ser visto como um parceiro prioritário na eleição presidencial. Ex-ministro de Luiz Inácio Lula da Silva – atualmente preso e condenado na Lava Jato – e da presidente cassada Dilma Rousseff, ele também cobrou, em entrevista ao Estado, o apoio do PT a Ciro Gomes em 2018.

Leia a entrevista completa:

Ciro Gomes se oferece como alternativa ao lulismo, mas busca um vice-presidente ligado ao setor produtivo da região Sudeste e conversa com partidos de centro-direita, como o DEM e o PP. A candidatura de Ciro Gomes em 2018 é, afinal, de centro-esquerda, de centro ou de centro-direita?

A candidatura do Ciro Gomes deve ter dois lados. De um lado, é uma candidatura de centro-esquerda, que prioriza as alianças com partidos desse campo, a começar pelo PSB e PCdoB. O outro lado: a candidatura de Ciro não deve ser vista apenas como de centro-esquerda. Ela deve se oferecer também como agente social mais importante do Brasil de hoje, que são os emergentes.

Quem são eles? Em primeiro lugar, é uma pequena burguesia empreendedora mestiça e morena que luta para abrir e manter pequenos negócios. Em segundo lugar, é uma massa de trabalhadores ainda pobres, mas que mantém dois ou três empregos. Em terceiro, é a multidão que é maioria pobre que já tem os olhos vidrados na vanguarda dos emergentes. Há determinados partidos que estão em diálogo com essa realidade social.

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Quais partidos?

Por exemplo, o DEM. Não vejo o Democratas como direita ou centro-direita. Eles são o partido dos empreendedores regionais. Têm raízes nessa estrutura produtiva descentralizada do País. Pelo contrário, o PSDB, que muitas vezes é visto como um partido à esquerda do Democratas, me parece estar à direita do DEM. Está comprometido com o receituário tradicional do chamado Consenso de Washington. Com uma política social meramente compensatória e um colonialismo mental e cosmopolita. Isso que é direita.

Não considero que uma aliança com o Democratas seja apenas um oportunismo tático. Vejo consistência em manter uma candidatura que tem esses dois lados, que não estão em contradição. Não podemos nos permitir abusar do sectarismo ideológico.

Ciro Gomes já afirmou que, se eleito, revogaria a reforma trabalhista, chamada por ele de ‘porcaria’. Um dos cotados para vice, Benjamin Steinbruch, é vice-presidente (licenciado) da Fiesp, que apoiou a reforma trabalhista. Não há uma contradição?

Precisamos construir uma candidatura que não seja apenas de centro-esquerda, mas seja também uma candidatura com um projeto produtivista que conquiste os emergentes. Uma candidatura desse tipo precisa incorporar os empreendedores graúdos, pequenos e médios. Não vejo nenhuma inconsistência nisso.

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É o caso de revogar a reforma?

A reforma como foi feita é um exemplo típico do formulário neoliberal. Não serve. Mas reconheço que a CLT é insuficiente para reger esse novo mundo de práticas produtivas.

Por que Ciro Gomes ainda assusta o mercado?

O que há de mais legítimo nas preocupações do mercado financeiro é o realismo fiscal. Ninguém que esteja atuando no primeiro plano da política brasileira demonstrou mais compromisso com o realismo fiscal que o Ciro.

Há uma tentativa de partidos do centro de unificar as candidaturas. Acredita que pode sair daí um nome competitivo?

Não sei se essas forças tradicionais vão ou não arrumar uma candidatura plausível. Por enquanto, não o fizeram. O que vejo é que temos uma grande obra de transformação institucional no País. A última grande obra institucional no Brasil é a de Getúlio Vargas, e nós ainda vivemos em meio aos destroços do corporativismo do Vargas.

Lula deu muitos benefícios ao povo brasileiro, mas não deixou um legado institucional. As candidaturas de Lula e Ciro não são dois cavalos andando na mesma direção. Tenho imenso respeito pelo presidente Lula, mas vejo que, se amanhã ele voltasse à Presidência, a tendência seria continuar o que fez antes: essa popularização do consumo com o mínimo de construção institucional. É uma forma de fazer política que privilegia apenas o consenso.

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Como a esquerda está fragmentada, acha que é importante para Ciro Gomes em 2018 buscar aliança com o PT?

Não vejo a esquerda tão fragmentada assim. Há uma tendência de uma aliança com PSB e PCdoB. E, do outro lado, uma abertura para os partidos do centro, especialmente o DEM. Quanto ao PT, espero que supere a tradição de hegemonismo e desempenhe sua responsabilidade histórica. E que nos ajude. Em muitas eleições essas mesmas forças se juntaram para apoiar o candidato do PT. Agora, estamos em outro momento. A conta foi invertida. Nós temos todo direito de pleitear que o PT se junte a nós no primeiro turno.

Crítico e aliado

Antes de assumir, em junho de 2007, a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, Roberto Mangabeira Unger havia acusado o governo do petista de ser o “mais corrupto da história”. Ao assumir o cargo na administração de Lula, porém, Mangabeira fez um discurso com elogios à “magnanimidade” do então presidente por nomeá-lo.

No governo Lula, Mangabeira Unger foi protagonista de outros momentos polêmicos, como quando propôs a construção de um aqueduto para levar água da Amazônia para o nordeste. Também se envolveu em vários embates com Marina Silva e Carlos Minc, que foram ministros do Meio Ambiente. Filiado ao PRB antes de ingressar no PDT, Mangabeira Unger também participou da gestão Dilma Rousseff.

 

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