TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
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Maçons e ativistas na 'guerrilha' Bolsonaro

Rede de apoio ao presidenciável do PSL em São Paulo reúne eleitores com bandeiras conflitantes

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2018 | 05h00

Instalado em um conjunto apertado de três salas conjugadas na zona norte da capital, o diretório paulista do PSL conta com uma verba de R$ 15 mil mensais do Fundo Partidário para pagar a manutenção da sigla. 

Sem presença política no maior colégio eleitoral brasileiro e quase nenhum dinheiro em caixa, a pequena legenda do deputado e pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro (RJ) encontrou em um mosaico de grupos de direita a rede de apoio para tentar estruturar o partido nas 645 cidades paulistas.

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São núcleos de motociclistas, atiradores, maçons, policiais militares e grupos de direita que ajudaram a organizar as manifestações pelo impeachment da presidente cassada Dilma Rousseff, como o “Avança Brasil” e “Nas Ruas”, que formam a base operacional do PSL.

Os números das últimas pesquisas de intenção de voto, que mostram Bolsonaro empatado com o ex-governador tucano Geraldo Alckmin na primeira colocação em São Paulo (com 14% no cenário sem Luiz Inácio Lula da Silva), facilitam a missão. 

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Essas correntes têm em comum forte atuação nas redes sociais, mas segundo o presidente do PSL paulista, deputado Major Olímpio, não tem sido fácil administrar as pretensões e bandeiras dos “bolsonaristas”. 

“Quando assumi a presidência do PSL em São Paulo, em abril, peguei terra arrasada. Para organizar o partido, tenho de administrar muita encrenca com ativistas de toda ordem, que nem sempre estão irmanados entre si. Sou o algodão entre cristais”, disse o dirigente.

O embate interno mais acalorado entre os influenciadores digitais e políticos começou no último dia 7 de maio após um jantar promovido pela jornalista Joice Hasselmann, pré-candidata do PSL ao Senado, em um restaurante em São Paulo. 

Reunido no mesmo local com aliados, o ex-prefeito João Doria, pré-candidato a governador pelo PSDB, fez uma saudação à jornalista, que o elogiou publicamente e disse que o apoiaria. Os núcleos político e policial do PSL paulista consideraram a manifestação de Joice imprópria. Abriu-se um debate que por pouco não terminou em racha. 

Debate. A pedido do Estado, algumas das principais lideranças do PSL paulista se reuniram na sede do partido para debater quais devem ser as principais bandeiras do partido na campanha eleitoral.

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Um dos temas abordados foi a questão da intervenção militar. Durante a greve dos caminhoneiros, o nome do pré-candidato surgiu em grupos de WhatsApp de grevistas com mensagens de apoio à volta dos militares ao poder. No final da Marcha para Jesus, na quinta-feira, o próprio Bolsonaro fez questão de marcar distância do grupo ao dizer que nunca encampou essa proposta. 

“A gente tem claramente a percepção de que a esquerda está começando a fazer um movimento de ativistas virtuais para fazer desvirtuar essa questão”, disse Carla Zambelli, líder do movimento NasRuas. “O Jair nunca defendeu a intervenção. O que ele defende é o regime militar e seus valores”, interrompeu o influenciador digital Gil Diniz, que se apresenta nas redes como Carteiro Reaça. 

Ninguém no grupo acredita que o regime militar brasileiro tenha recorrido a torturas. “Tortura? Qual tortura?”, perguntou o coronel da PM Reinaldo Vieira. “Se houve toda essa tortura e repressão durante o governo militar, como o Aloysio Nunes e a Dilma Rousseff chegaram ao poder?”, disse a empresária Letícia Catel.

Foi ela quem abordou outro tema sensível ao pré-candidato do PSL: a relação com o movimento feminista. Em uma palestra em 2017, Bolsonaro afirmou que teve cinco filhos, sendo quatro homens. “Na quinta dei uma fraquejada e veio uma mulher.” O deputado também foi denunciado no Supremo Tribunal Federal pelo crime de racismo contra quilombolas, indígenas, refugiados, mulheres e LGBTs.

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“Não foi exatamente isso que ele quis dizer. Tiram as frases dele do contexto para chamá-lo de misógino. É a esquerda que vitimiza as mulheres”, disse Letícia. O youtuber Clovis Jr, conhecido nas redes como Smith Hays, se antecipou ao próximo tópico. “Sou gay e posso falar sobre essa questão LGBT.” Ele culpa a mídia e acredita que as falas de Bolsonaro são constantemente editadas para prejudicá-lo.

Os ativistas falaram sobre o “preconceito” que sentem por defender Bolsonaro. A dona de casa Clau de Luca disse ter ouvido relatos de eleitores de Bolsonaro que não assumem publicamente o seu voto porque a mídia “demoniza” o presidenciável do PSL.

“Vejam o que aconteceu com (Donald) Trump (presidente dos EUA). Aqui vai ser a mesma coisa”, afirmou Clovis Jr.

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