Divulgação / Daesp
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Internacionalização de aeroporto é tema tradicional nas eleições de Ribeirão Preto

Benefícios econômicos e preocupação com moradores das redondezas do local entram na discussão de duas décadas sem se tornar realidade

Everton Sylvestre, especial para o ‘Estadão’‘, Ribeirão Preto

12 de novembro de 2020 | 18h17

RIBEIRÃO PRETO – A internacionalização do aeroporto é uma novela que o ribeirão-pretano já assistiu em eleições passadas. No papel, o aeroporto por onde passam 930 mil passageiros por ano é internacional desde 2001, mas precisa de adequações. Pelo tamanho atual da pista, só poderia receber poucos tipos das aeronaves usadas em voos internacionais. A cidade – um pólo regional no nordeste paulista, intitulada capital do agronegócio – vê se repetir a cada eleição.

Candidatos a deputado e à prefeitura capitalizam votos em cima do assunto. Em 2012, a “implantação efetiva do Aeroporto Internacional Leite Lopes em parceria com o Governo do Estado” foi uma das ações que Dárcy Vera, na ocasião reeleita pela PSD, fincou em seu programa de governo. Em 2016, pelo menos dois candidatos faziam promessas sobre o aeroporto internacional e “resolver de forma definitiva a questão do Leite Lopes” era uma das “20 grandes metas” de Ricardo Silva, que perdeu para Nogueira no segundo turno e agora apóia Suely Vilela (PSB).

Se eleita, a candidata do PSB pretende, em uma frente de prefeitos com interesse comum, pressionar o Estado para a internacionalização do Leite Lopes. “Base fundamental para fortalecer o desenvolvimento econômico regional”, afirma. Para Fernando Chiarelli (Patriota), basta uma canetada para resolver. Ele defende que há falta de interesse dos governantes no progresso da cidade como estratégia para se manterem no poder.

Para além da fama de ‘Califórnia Brasileira’, coronel Usai (PRTB) quer gerar renda “transformando Ribeirão Preto em uma Las Vegas”: colorida e referência em turismo. Ele deseja a internacionalização do aeroporto, mas defende planejamento para que seja uma fonte de renda e não de prejuízo. Cris Bezerra (MDB) considera o aeroporto internacional de "fundamental importância" e um sonho de Ribeirão. “Faremos todo empenho para tornar realidade sem onerar o município” afirma.

Duarte Nogueira (PSDB) – que tenta a reeleição – afirma que fez tudo o que cabia ao município, elencando obras concluídas e em andamento em vias do entorno, e empurra a responsabilidade para seu correligionário João Dória. Já a Secretaria de Transportes do Governo do Estado diz que o Leite Lopes está no pacote de desestatização dos 22 aeroportos do Departamento Aeroviário do Estado de São Paulo (Daesp). “Após os efeitos sofridos pelo setor em razão da pandemia, o governo paulista estuda o melhor momento para publicar o edital”, afirma nota da secretaria. A previsão é publicar em dezembro com investimentos, pelo capital privado no Leite Lopes, estimados em R$ 119 milhões.

Alberto Machado (PT), Emilson Roveri (Rede) e Mauro Inácio (Psol) são favoráveis a um aeroporto internacional desde que construído em local mais afastado da cidade. Vanderley Caixe (PCdoB) também quer discutir com a população essa possibilidade. “Onde o aeroporto está a pista não pode ser ampliada”, afirma Machado. Como promotor do Ministério Público da área de habitação, ele entrou com ações para barrar ampliações que considerou irregulares, sem que moradias do entorno fossem desapropriadas.

Embora a internacionalização do aeroporto possa ter relação com a busca por aumentar a receita do município, comprometida em 95% com despesas correntes, Marco Antônio Teixeira, professor de administração pública da FGV, observa que é preciso ver se os benefícios da internacionalização são consequências seguras, especialmente, levando em conta efeitos da pandemia. “A pauta não tem efeito imediato para o cidadão, que prioriza saúde, limpeza, educação – itens que afetam o seu dia a dia”, reforça.

Agronegócio

Representantes do agronegócio enxergam benefícios econômicos para a região. “Facilitaria para recebermos clientes de outros países e nas exportações e importações – para receber remessa de peças de reposição, teríamos uma logística muito melhor”, afirma Artur Monassi, proprietário de indústrias de máquinas agrícolas na região.

Mônika Bergamaschi, ex-secretária da agricultura do Estado e atual presidente do Conselho da Associação Brasileira do Agronegócios (ABAG/RP), considera que, embora as cargas maiores sejam transportadas por navio, deve potencializar o turismo de negócios, facilitando trânsito de autoridades internacionais e cientistas. “Extraordinário para produtos de mais alto valor agregado como componentes e acessórios e deve fomentar o desenvolvimento de empresas de alta tecnologia, de componentes minúsculos e caros”, aponta.

Marcos Fava Neves, professor da Faculdade de Administração da USP em Ribeirão Preto, defende que há espaço para ampliar a pista. “Poderia ter ao seu redor uma verdadeira cidade aeroportuária, com valorização do entorno para empresas de logística, de eventos, centros comerciais”, aponta. Para Neves, a internacionalização do aeroporto e seu fluxo de cargas e passageiros beneficiariam todos os setores exportadores de produtos de valor agregado e importadores em um raio de pelo menos 300 km. “Polos calçadistas, de alimentos in natura (frutas) e processados (doces, e outros), de equipamentos médicos e odontológicos, de genética”, afirma.

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