AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
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Especialistas sugerem compliance para tornar campanhas mais éticas

Analistas alertam não só para o risco de caixa dois como também o da disseminação de notícias falsas

Adriana Ferraz, Marianna Holanda e Ana Carolina Neira, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2018 | 11h26

Contratar consultorias que assegurem o cumprimento de normas legais e regulamentares ao longo de campanhas políticas pode fazer com que elas se tornem mais éticas e mais baratas. Essa foi uma das sugestões levantadas ao longo do primeiro painel do Fórum Estadão-Faap Campanha Eleitoral e Fake News, realizado na manhã desta segunda-feira, 11, em São Paulo.

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Para o publicitário Lula Guimarães, atual coordenador de campanha eleitoral de Geraldo Alckmin (PSDB) à Presidência da República, é possível sim fazer uma campanha com ética e sem os recursos disponíveis nos últimos anos, mas, para isso, ele sugere a contratação pelos candidatos, partidos ou menos escritórios de marketing de consultorias que chequem a origem do dinheiro.

“A última campanha que fiz foi para João Doria, que disputava a Prefeitura de São Paulo, em 2016. Nesta campanha, nosso escritório contratou uma consultoria da Abraecom (Associação Brasileira de Integridade, Ética e Compliance) para que tivéssemos a tranquilidade da origem de todos os recursos”, disse Lula, um dos entrevistados do primeiro painel do evento: “Como fazer campanha com mais ética e menos dinheiro”.

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Segundo o presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, “mecanismos de integridade”, como ferramentas de compliance, são necessários sim para fazer a gestão das campanhas. Magri cita dados de uma pesquisa realizada pelo Ethos juntamente com a Ibracem (Instituto Brasileiro de Certificação e Monitoramento) para comprovar que é preciso fiscalizar de forma mais eficaz os recursos empregados nas campanhas políticas, especialmente nesta eleição, que será custeada por dinheiro público dos fundos eleitoral e partidário – cerca de R$ 2,6 bilhões no total.

“Aplicamos nove certidões de conformidade legal aos 3 mil fornecedores das últimas eleições, como agências de publicidade, consultorias, postos de gasolina. O mínimo exigido para qualquer um vender para o setor público. E encontramos 92% de não conformidade”, afirmou. Para ilustrar a importância desse debate, Magri citou o custo do voto no Brasil. “Em 2002, para vencer a eleição, Lula gastou R$ 2,50 por voto. Em 2014, esse custo para Dilma foi de R$ 25.”

O cientista político Rafael Cortez, da Consultoria Tendências, chamou a atenção não apenas para a necessidade de se propor formas de checagem do uso do dinheiro público para evitar caixa dois, por exemplo, mas para o risco das fake news. “Há notícias falsas que viram realidade, se espalham e ganha vida própria. E aí não se trata apenas de saber se o debate é verdadeiro, pois nem sempre é fácil fazer essa avaliação”, disse. O painel foi moderado pela jornalista Vera Magalhães, colunista do Estadão.

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Para o professor de Marketing Político da Faap Celso Matsuda, levará vantagem nesta eleição quem usar a internet não para repassar fake news, fazer panfletagem online, mas para disseminar conteúdo de qualidade na rede. “O eleitor não compra o candidato. Ele compra as ideias desse candidato”, disse, e completou: “A rádio e a TV continuarão tendo muito peso nas propagandas políticas, ainda que com tempo reduzido de exposição.”

Descrença

O painel também debateu a descrença do eleitorado com a política brasileira e as chances dos atuais candidatos, seja nas candidaturas majoritárias ou proporcionais. “As regras do jogo foram reiteradas por aqueles que querem se manter no jogo”, disse Magri, em relação aos parlamentares que buscam a reeleição. “Há a necessidade, portanto, de os partidos perceberem a insatisfação popular, sendo capazes de dialogar com a sociedade para reversão deste quadro.”

Rafael Cortez ressaltou que a busca por um candidato único do centro passa por uma necessidade urgente: a de convencer os eleitores que declaram seu voto como branco ou nulo a mudarem de ideia. Para Matsuda, a maior moeda nesta eleição é a atenção, chamar a atenção do eleitor. “E isso é apresentar conteúdo.”

Lula explicou que as alterações feitas nas regras desta eleição, que, entre outras coisas, reduziram em dez dias o tempo das campanhas da TV e no rádio, dificultaram a formação da imagem dos políticos, estratégia que requer tempo. Ele considera que apenas quando começar o horário eleitoral na internet é que as pessoas vão de fato se interessar pela eleição e passar a comparar os candidatos.

Marqueteiro de Alckmin, afirmou que o tucano já é muito conhecido em São Paulo, onde foi governador por mais de 13 anos não consecutivos, mas no Brasil, apesar de ter disputado já a Presidência da República, em 2006, ele seria ainda desconhecido por boa parte do eleitorado. “Há necessidade de se fazer ainda um conhecimento de quem ele é, mas a gente sabe que os partidos todos tiveram um enorme desgaste, todos eles, também o PSDB, então há de superar também os desgastes políticos dos partidos”, afirmou.

Ao finalizar o painel, Magri se disse “otimista, mas preocupado” em relação à eleição deste ano. “Estamos em um processo de mudança, mas é preciso participar dela de maneira efetiva, para darmos o rumo que esperamos e já antes do momento do voto.”

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