Valeria Gonçalves/Estadão
Valeria Gonçalves/Estadão

Corrupção e crise fazem das mulheres maioria do não voto

Eleitorado feminino entre 35 e 44 anos representa 58% do total que declara voto nulo e em branco, como reação a escândalos políticos e incerteza sobre economia

Adriana Ferraz, Gilberto Amendola e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 15h48

O eleitorado feminino é hoje o responsável pela maioria dos votos brancos e nulos declarados em pesquisas de intenção de voto para presidente da República nas eleições 2018. Segundo recorte feito pelo Ibope a pedido do Estado, seis em cada dez eleitores dispostos a não votar nos pré-candidatos apresentados são mulheres na faixa etária dos 35 aos 44 anos, desiludidas com os recorrentes escândalos de corrupção envolvendo a classe política e preocupadas com o rumo da economia. 

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A mesma preponderância feminina é observada no grupo dos eleitores indecisos. Em ambos os casos, a participação de mulheres é superior se comparada ao número de votos que detêm no País. O detalhamento da última pesquisa CNI/Ibope para presidente mostra que, enquanto elas representam 52% do eleitorado nacional, são 58% na fatia dos que votam branco ou nulo e 55% entre os que não se decidiram. 

A indignação feminina diante da corrupção e as incertezas relacionadas à recuperação da economia brasileira, especialmente a retomada do emprego e o risco da inflação, explicam o fenômeno, segundo pesquisas qualitativas feitas pelo Ibope. Especialistas ouvidos pelo Estado ainda apontam mais dois motivos: o sentimento de que os atuais políticos não representam as mulheres – em 2014, elas preencheram apenas 10% das vagas na Câmara dos Deputados – e a indefinição em torno de quem será ou não candidato em outubro. 

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A vendedora Denise de Melo, 35 anos, faz parte dessa estatística. Ela diz que vai anular o voto porque não sente empatia por qualquer dos pré-candidatos. “A gente pesquisa, pesquisa, mas não encontra ninguém que possa nos representar com dignidade”, afirma. Para ela, o que mais influencia na sua vontade de não votar são “os casos de corrupção que aparecem a todo momento”.

Foi a desconfiança geral no mundo político que também levou a especialista em marketing Ana Paula Paura, de 36 anos, a optar pelo voto em branco. “Ninguém me empolga. Não existe um candidato que me mobilize. Tenho desconfiança nos políticos em geral e aquela sensação de que muitos estão envolvidos em corrupção”, diz.

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Nulo

O porcentual de eleitores dispostos a anular o voto é o que mais chama a atenção. No cenário sem a participação do  ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato, o índice de eleitores que declaram voto em branco ou nulo chega a 31%, contando mulheres e homens. Em 2014, de acordo com o Ibope, a taxa nessa mesma época do período eleitoral era de 16%.

Entre os eleitores que se dizem indecisos, ou seja, respondem não saber em quem votar na eleição de outubro, o porcentual se mantém em 8%. Apesar de se considerar também uma desiludida com a política, Iris Cristina dos Santos Liu, de 37 anos, diz querer “fugir” do voto branco ou nulo. Dona de um salão de beleza em São Paulo, ela afirma que, por enquanto, nenhum pré-candidato conquistou sua confiança. “Quero escolher um nome, como sempre fiz. Mas o voto em branco não está descartado”, diz. 

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Crise

Para a cientista política Vera Chaia, da PUC-SP, o não voto não significa necessariamente desinteresse. “A mulher critica, reivindica e participa mais hoje. Há muito mais cobrança, movimentos contra assédio, a favor da equiparação de salários e isso faz com que as mulheres tenham mais poder de decisão. Esse número de votos brancos e nulos é uma crítica ao atual momento da política e aos candidatos que não representam isso”, afirma.

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O resultado das pesquisas qualitativas do Ibope confirma essa percepção. Segundo o instituto, as mulheres deixam para decidir nos últimos dias da campanha, quase na véspera da eleição, justamente porque são mais críticas, avalia a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes.

A enfermeira Renata Lima Gonçalves, de 37 anos, se encaixa nesse perfil. Afirma que “quanto mais se informa sobre os candidatos, mais fica em dúvida sobre para quem irá o seu voto em outubro”, mas rejeita a hipótese de votar em branco ou nulo. “Acho que em cima da hora vou fazer a minha escolha.”

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Adriana Ferraz, Gilberto Amendola e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 15h28

A cientista política Lara Mesquita, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, considera que o início oficial da campanha, a partir de 16 de agosto, deve marcar uma inflexão no discurso dos pré-candidatos à Presidência – até agora sem preocupação específica de resgatar a confiança do eleitor que declara voto nulo ou em branco nessas eleições. “Esse discurso deve aparecer nas propagandas de TV. Daí, será preciso falar com todos os perfis de eleitor”, disse ela.

O senador Alvaro Dias, do Podemos, disse ao Estado que espera atingir os indecisos por meio de vídeos e postagens mais incisivas nas redes, destacando que é ficha limpa e que tem experiência administrativa – ele foi governador do Paraná. 

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A equipe do presidenciável do PSDB, Geraldo Alckmin, considera que o desencanto dos eleitores com a política no Brasil explica os altos índices de votos nulos e o porcentual de indecisos. Por ora, a ordem é continuar “percorrendo o País” e “dialogar com os eleitores, estejam eles indecisos ou não”. 

Nas últimas semanas, no entanto, Alckmin passou a aparecer mais ao lado da mulher, Lu Alckmin, em vídeos e fotos das redes sociais. Em um deles, lembra que são casados há 39 anos e em outro afirma que é “apaixonado” por ela.

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Presidente nacional do PSOL e coordenador da pré-campanha de Guilherme Boulos, Juliano Medeiros disse que o número de eleitores descrentes com o pleito pode ser creditado aos escândalos de corrupção e ao processo que levou à cassação de Dilma Rousseff. Segundo ele, a estratégia da sigla é se aproximar cada vez mais dos movimentos sociais. “A ideia é mostrar que o povo pode fazer política”, afirmou ele.

Já o presidente do PDT, Carlos Lupi, disse que Ciro Gomes, presidenciável do partido, assim como os demais, deve ter “humildade” para reconhecer as razões pelas quais tanta gente pensa em anular o voto. “Nos últimos anos, não foram poucas as notícias sobre escândalos, roubalheira e desvios”, disse ele, acrescentando que a solução continua “dentro da política”.

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‘Partidos perderam a liderança social’, diz filósofo

Professor da Unicamp aponta descrédito no voto como resultado da ‘queda cada vez mais célere da confiabilidade nas instituições de Estado'

Entrevista com

Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Unicamp

Adriana Ferraz e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 15h45

Na opinião de Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o País vive “uma espécie de liquefação dos partidos políticos”, o que se “reflete na incerteza do voto”. “Eles (os partidos) perderam o caráter de liderança social, política e institucional.” Segundo o filósofo, neste cenário de alienação do voto, são “as mulheres que sentem mais o peso da crise econômica, da crise política e da crise de segurança”. Leia os principais trechos da entrevista ao Estado

O que explica a expectativa de aumento nos votos brancos e nulos?

Esse aumento exponencial dos indecisos tem a ver com a queda cada vez mais célere da confiabilidade nas instituições de Estado e nos partidos políticos. Temos uma espécie de liquefação dos partidos políticos. Eles perderam o caráter de liderança social, política e institucional. Isso se reflete na incerteza do voto. Não há um programa de governo coerente, um programa de modificação do Estado ou de melhoria da sociedade. O que há é a guerra pelo voto em prol do voto. 

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Como esse cenário afeta o processo eleitoral? 

Serve para encobrir essa ausência programática e doutrinária. Temos uma espécie de Fla x Flu delineado para enganar justamente os que são mais politizados. De um lado, a extrema direita, representada pelo Jair Bolsonaro, e a esquerda, liderada por (Luiz Inácio) Lula (da Silva, condenado e preso pela Operação Lava Jato). Esse verniz ideológico vem para cobrir essa ausência de propostas ideológicas, programáticas e técnicas para os problemas brasileiros. 

O que explica a maior quantidade de mulheres optando por votar nulo, em branco e indecisas neste momento? 

Quem sente mais o peso da crise econômica, da crise política e da crise de segurança são as mulheres. Quando você tem o caso daquelas que trabalham, elas dividem as preocupações com o salário, que não aumenta, com a inflação, que volta, com os preços, que sobem e também com o desemprego familiar.

É toda uma situação de incerteza no amanhã. As mulheres têm que se preocupar com várias pautas ao mesmo tempo, com a pauta do marido desempregado, dela própria desempregada, dos filhos, da recessão batendo, dos alimentos aumentando, dos serviços como água e luz subindo. E elas não encontram em nenhum dos candidatos um discurso que faça proposições sobre essa realidade do cotidiano.

Elas encontram falas sobre a crise, sobre o déficit orçamentário, grandes falas e grandes temas, mas não há quem trate com acuidade e com capacidade comunicativa propostas para a população. Todos esses dramas são vividos de uma maneira pungente por essas mulheres. Dá para entender porque elas não estão confiando nas ações políticas, nos partidos e nas instituições. 

É possível reduzir ou quebrar esse ciclo de corrupção? 

É preciso questionar a estrutura do Estado brasileiro supercentralizado no Executivo federal, essa falta de isonomia dos poderes e a perda de capacidade de retorno dos impostos para os municípios. E aí nasce uma grande fonte de corrupção. Quando o presidente assume o poder, para se manter ele precisa criar uma base, que cobra o retorno de impostos para os municípios sob forma de emendas parlamentares.

Em uma verdadeira federação, os impostos devem sair do município, ir para o Estado e para o poder central, para depois retornar. Isso é o que não existe no Brasil. É preciso acabar com essa fábrica dos intermediários e essa política do 'é dando que se recebe'. 

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Márcia Cavallari Nunes*, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 15h48

A última pesquisa do Ibope Inteligência sobre as eleições presidenciais realizada a pedido da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 41% dos eleitores não mencionam nenhum candidato na pergunta estimulada, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não consta na lista de candidatos. Comparando este índice com o obtido em pesquisa realizada em 2014 no mesmo período, constata-se que ele é praticamente o dobro.

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Quatro anos atrás, havia 11 candidatos e, hoje, são 19 que dizem que vão concorrer à Presidência da República. É importante avaliar separadamente os eleitores que declaram que, se a eleição fosse hoje, votariam em branco/nulo (33%) dos que dizem que ainda não sabem em quem votar (8%). Em 2014, eram 13% e 8%, respectivamente, ou seja, o número de indecisos permanece o mesmo, mas o dos que declaram intenção de votar branco ou nulo aumenta significativamente.

A mesma tendência é observada quando se analisa a pergunta espontânea de voto, aquela onde não se apresenta os nomes dos candidatos, ou seja, o eleitor já declara que votará branco ou nulo, antes mesmo de saber quem concorrerá ao pleito. Em 2014, eram 16%, e hoje são 31%. Fazendo uma avaliação do perfil desse eleitor, observa-se que não há diferenças importantes quando se compara com as características do eleitorado como um todo, exceto pelas mulheres.

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Enquanto, no eleitorado, as mulheres representam 52%, entre os que declaram votar em branco ou nulo elas totalizam 58%. Há também um pequeno destaque para os eleitores com idade entre 35 e 44 anos. Nas demais variáveis demográficas, o perfil dos que preferem votar branco ou nulo são semelhantes ao do total de eleitores.

Por outro lado, os que ainda não sabem em quem votar são majoritariamente composto por mulheres, eleitores com idade acima de 55 anos, os que têm apenas o ensino fundamental, os residentes na região Sudeste do País e aqueles que não têm acesso à internet. 

Esses números mostram que a eleição está totalmente aberta e que há um grande espaço para que os candidatos conquistem eleitores. Entretanto, como a intenção de votar branco ou nulo é bastante expressiva, é necessário um monitoramento deste indicador ao longo da campanha eleitoral. 

*CEO DO IBOPE INTELIGÊNCIA

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