José Patrício / Estadão
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Cenário: O caminho acidentado que levou ao isolamento de Jilmar Tatto nas eleições

A expectativa no PT, agora, é para saber quão empenhados Lula e Haddad estarão na campanha do candidato à Prefeitura de São Paulo

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

A candidatura de Jilmar Tatto à prefeitura de São Paulo pelo PT é consequência de um acordo firmado ainda em 2018 entre o candidato e o presidente estadual do partido, Luiz Marinho, para que o primeiro pudesse disputar o Senado e o segundo o governo de São Paulo. Marinho teve o pior desempenho do PT em eleições para o governo do estado (agora vai disputar a prefeitura de São Bernardo) e Tatto ficou apenas em sétimo lugar na corrida pelo Senado. Mesmo assim, o acordo deu origem a uma forte aliança interna que depois foi ampliada com a adesão do grupo à presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, para a definição dos integrantes da direção nacional do partido, na qual têm maioria absoluta.

Para muitos petistas, a escolha de Tatto reflete o momento atual do PT no qual a burocracia partidária e as disputas internas prevalecem até sobre os interesses eleitorais do partido. A força de Tatto vem do controle que ele construiu sobre a máquina partidária na Capital à base de filiações em massa, apesar de sua baixa densidade eleitoral. 

O preferido do PT na disputa era Fernando Haddad mas o ex-prefeito declinou diversas vezes e resistiu às pressões do partido. Haddad justificou a decisão alegando motivos pessoais, líderes do PT o apoiaram dizendo que ele deve ser poupado para a disputa presidencial de 2022, mas nos bastidores se comenta que o ex-prefeito temia não ter apoio real da direção partidária para a disputa. 

Com a resistência de Haddad, o PT ficou sem um nome natural. Várias opções surgiram como a refiliação de Marta Suplicy (que acabou sendo barrada e agora apoia a reeleição do prefeito Bruno Covas), a indicação de um nome novo (Ana Estela Haddad foi sondada) ou a escolha de um quadro mais conhecido como o deputado Alexandre Padilha (PT-SP) ou o vereador Eduardo Suplicy.

Em uma reunião preparatória para as eleições municipais realizada em junho do ano passado o Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT diagnosticou as dificuldades e cogitou pela primeira vez não ter candidato próprio na maior cidade do país. Na época, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda estava preso em Curitiba e não tinha dado a ordem para que o PT tivesse candidatos no maior número de grandes cidades possível e petistas admitiam a possibilidade de apoiar o PSOL ou PSB.

Além de diminuir as opções do PT, a desistência de Haddad abriu espaço para que o PSOL lançasse a candidatura de Guilherme Boulos e Luiza Erundina. Por outro lado, as novas regras eleitorais que impedem coligações proporcionais levaram à pulverização de candidaturas no campo da esquerda e deixaram o PT isolado. 

Já neste ano, ainda fragilizado politicamente depois de um ano e meio na cadeia, Lula decidiu não se envolver na escolha do candidato em São Paulo. Quando finalmente entrou no jogo, já na reta final do processo de prévias, dando aval para a articulação de uma frente interna em torno de Padilha e contra Tatto, já era tarde demais. 

Sinais de divisão surgiram ainda no início do processo. Vereadores ficaram incomodados com a forma como Tatto conduzia a pré-candidatura e as relações internas. Estes sinais se acentuaram quando a pandemia do novo coronavírus impediu a realização das prévias por voto direto. Um primeiro modelo de escolha do candidato, que reduziu o "eleitorado" a 46 pessoas foi amplamente rechaçado e chamado de "colégio eleitoral". Lideranças históricas como José Dirceu e José Genoino se manifestaram contra. O diretório municipal optou então por uma eleição com mais de 600 votantes. O resultado surpreendente foi de apenas 15 votos de vantagem de Tatto sobre Padilha. A margem pequena deu espaço a mais contestações. Correntes minoritárias tentaram reverter a decisão no diretório nacional, propondo um último apelo a Haddad, mas esbarraram na ampla maioria do grupo Tatto/Gleisi. 

O candidato ainda tentou uma recomposição chamando forças internas que não o apoiaram para integrar a coordenação da campanha. 

No final de junho a pré-candidatura de Tatto sofreu outro baque com o apoio de artistas, intelectuais e outras personalidades historicamente ligadas ao PT à candidatura de Boulos. Para piorar a situação, o candidato do PT tem apresentado resultado pífio nas pesquisas, atrás das chapas do PSOL e do PSB/PDT, formada por Marcio França e Luiz Neto. 

Embora o PT minimize as sondagens, o partido teme que os números levem a um esvaziamento ainda maior da candidatura de Tatto. A expectativa, agora, é sobre o quão empenhados Lula e Haddad estarão na campanha do candidato do PT.

O caminho acidentado que levou até a convenção deste sábado, 12, que homologou o nome de Tatto, se reflete na imagem do candidato isolado, acompanhado apenas de lideranças locais, em uma laje do Jardim São Luiz, Zona Sul, sem Lula e sem Gleisi.

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