Iander Porcella/Estadão
Iander Porcella/Estadão

Alckmin usa defesa de democracia para justificar aliança com Lula

Fundador do PSDB, ex-tucano tem histórico de divergências com o petista, mas, ao anunciar a decisão de ingressar no novo partido, afirmou que o momento exige 'grandeza política, espírito público e união'

Iander Porcella e Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2022 | 12h10
Atualizado 24 de março de 2022 | 10h38

BRASÍLIA - O ex-governador Geraldo Alckmin usou a defesa da democracia como argumento para justificar a aliança com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao se filiar, nesta quarta-feira, 23, ao PSB, após passar 33 anos no PSDB. Antigo adversário do PT, Alckmin vestiu o figurino de candidato a vice na chapa que disputará o Palácio do Planalto e disse que não se faz política olhando pelo retrovisor. Não foi só: definiu Lula como quem melhor representa a “esperança do povo brasileiro” nos dias de hoje.

O lançamento da chapa Lula-Alckmin deve ocorrer na segunda quinzena de abril. O PSB não vai compor uma federação com o PT por causa de divergências para a formação de palanques estaduais, como São Paulo, onde cada um tem candidato próprio ao Palácio dos Bandeirantes. Mesmo assim, os dois partidos decidiram se unir numa aliança nacional para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro (PL), que disputa o segundo mandato.

“Alguns podem estranhar. Eu disputei com o presidente Lula uma eleição em 2006, fomos para o segundo turno, mas nunca colocamos em risco a questão democrática. O debate era de outro nível, nunca se questionou a democracia”, afirmou Alckmin, na cerimônia de filiação, realizada na sede da Fundação João Mangabeira, em Brasília. Ao defender o apoio do PSB à candidatura de Lula, o ex-governador afirmou que o País vive um momento “excepcional” e se disse disposto a “somar”.

Sob o argumento de que Lula significa “esperança”, Alckmin foi além. “Aliás, ele representa a própria democracia, porque é fruto da democracia. Ele não chegaria lá (à Presidência), do berço humilde que sempre foi, se não fosse o processo democrático”, emendou. 

Foi nesse momento que o ex-governador também fez críticas a Bolsonaro, embora sem citá-lo nominalmente. “Aqueles que ameaçam o Parlamento estão ameaçando a democracia; os que agridem o Supremo Tribunal Federal estão agredindo a democracia”, destacou.

Zé ninguém

O discurso de Alckmin deu o mote da campanha: a união entre diferentes em defesa da democracia. Muitos falaram ali no clima de “diretas já”. O próprio Lula tem dito que, se for eleito, precisará de “um mutirão” para governar o País. “Padre Lebret dizia que nós devemos ser na política um ‘zé ninguém’ a serviço de uma grande causa”, resumiu o ex-governador.

A cerimônia reuniu a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, líderes do partido na Câmara e no Senado, dirigentes e governadores do PSB, como Paulo Câmara (Pernambuco), Flávio Dino (Maranhão) e Renato Casagrande (Espírito Santo).  

Divergências políticas e visões opostas sobre privatização de estatais, reforma trabalhista e parlamentarismo, por exemplo, foram deixadas de lado. Mas Alckmin deu um recado: “Apoiar não significa deixar de emitir discordâncias. E não podemos confundir discordância com ultimato nem lealdade com subserviência.”

Questionado depois, em entrevista, sobre as críticas que sempre fez a Lula, dizendo até mesmo que no governo do petista havia “uma sofisticada organização criminosa” – numa referência ao escândalo do mensalão –, o ex-governador minimizou os ataques.

“Em eleição, é evidente que tem embate político. Agora, você pode olhar as divergências e pode olhar também as convergências”, desconversou ele. “A política não pode ser feita olhando no retrovisor.”

Gleisi, por sua vez, considerou “natural” o ataque da chamada “esquerda petista” a Alckmin. “Fomos oposição por muitos anos, tivemos muitas disputas. Na época da aliança com o José Alencar (empresário que foi vice de Lula), o debate foi muito maior”, lembrou ela.

A articulação da chapa Lula-Alckmin foi capitaneada pelo ex-governador Márcio França (PSB) e pelo ex-prefeito Fernando Haddad (PT), ambos pré-candidatos ao Bandeirantes. Alckmin anunciou a saída do PSDB em dezembro. Estava insatisfeito no partido desde as eleições de 2018, quando não conseguiu nem 5% dos votos na disputa presidencial, e se sentia traído por João Doria, hoje governador e pré-candidato à Presidência. Doria se elegeu naquele ano  colando sua imagem à de Bolsonaro, embora Alckmin tenha sido seu padrinho político.

Polarização

O PT e o PSDB polarizaram quase todas as eleições ao Planalto desde a redemocratização. Os tucanos governaram o País por oito anos, de 1995 a 2002, com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC). Os petistas estiveram no poder de 2003 até 2016, quando houve o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Em 2006, quando Lula conquistou a reeleição, Alckmin foi seu adversário nas urnas. Na eleição de 2018, porém, o segundo turno foi entre Haddad e Bolsonaro.

Em 19 de dezembro, Lula e Alckmin estiveram em um jantar organizado pelo grupo de advogados Prerrogativas, em São Paulo, e posaram juntos para foto. Foi o primeiro sinal público da aliança. Chamada de "Jantar pela Democracia", a confraternização reuniu mais de 500 convidados.

Um mês depois, em 19 de janeiro, o petista disse que não teria "nenhum problema" em construir uma chapa com Alckmin, apesar do histórico de antagonismo entre os dois. "Governar significa que você tem que adquirir possibilidade muito grande de conversar com as pessoas", afirmou Lula, que lidera as pesquisas de intenção de voto.

Em um aceno a Alckmin, a cúpula do PT divulgou carta, no fim de janeiro, na qual pregou a construção de pontes com quem “já esteve do outro lado”. Conhecido como “picolé de chuchu”, por seu estilo insosso, Alckmin assumiu o apelido nas redes sociais, numa tentativa de aumentar o engajamento virtual. “E também me chamam de chuchu”, dizia um vídeo publicado no perfil do ex-governador no Twitter, em 11 de fevereiro.

Além de Alckmin, filiaram-se nesta quarta-feira, 23, ao PSB o vice-governador do Maranhão, Carlos Brandão, que deixou o PSDB, o senador Dario Berger (SC), egresso do MDB, e o advogado Augusto de Arruda Botelho, crítico da operação Lava Jato.

Durante o ato político, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, também engrossou o coro dos ataques a Bolsonaro. "Temos que reconhecer que essa figura nefasta que governa o nosso País é resultado da falência do sistema político", assinalou Siqueira. "Esta anomalia política só será encerrada se nós tivermos a grandeza e a capacidade de alargar os nossos horizontes.

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