ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Ala tucana busca maioria para contestar decisão das prévias e barrar candidatura de Doria

Grupo de caciques do partido que apoiaram Eduardo Leite cobra que Doria mostre viabilidade eleitoral e busca apoio interno na sigla para impedir registro de candidatura até o prazo final do TSE

Lauriberto Pompeu, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2022 | 12h49

Correções: 11/02/2022 | 23h11

BRASÍLIA - Reunidos em uma chácara localizada na fronteira do Distrito Federal com Goiás, caciques do PSDB debateram estratégias para evitar que o governador de São Paulo, João Doria, seja o candidato do partido ao Palácio do Planalto. Segundo relatos de participantes ouvidos pelo Estadão, a ideia é ampliar o diálogo com o resto da legenda e, se Doria não demonstrar crescimento nas pesquisas, até articular uma maioria para que o nome dele seja rejeitado na convenção partidária, que acontecerá entre julho e agosto e que vai definir a posição oficial do partido na disputa presidencial.

Estiveram presentes no encontro o deputado Aécio Neves (MG), o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-senador José Aníbal (SP). O anfitrião do jantar foi Pimenta da Veiga, ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-presidente do partido. Todos eles apoiaram Leite nas prévias que deram vitória a Doria. Tasso também se apresentou à disputa, mas desistiu de formalizar sua candidatura e se uniu ao governador gaúcho. 

A conversa foi feita em um local afastado e longe dos holofotes, em uma região que abriga sítios e condomínios residenciais fechados no Distrito Federal. É a primeira vez que o grupo se reúne desde a derrota de Leite nas prévias do PSDB. A ideia é que a ala continue articulada e tente encontrar alternativas para o partido na eleição presidencial. Apesar do consenso de que o governador de São Paulo tem pouca viabilidade, ainda não há uma questão fechada sobre a opção a seguir. 

Tasso e Aníbal têm defendido o nome da senadora Simone Tebet (MS), que é pré-candidata a presidente pelo MDB. O senador cearense, inclusive, chegou a debater o assunto com o ex-presidente Michel Temer (MDB) e com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Nas conversas, Tasso tem dito que Simone tem espaço para crescer e que tem baixa rejeição.

Já Aécio tem dito a aliados que é necessário fazer, primeiro, uma discussão interna no PSDB, antes de debater apoio a candidaturas de outros partidos. O mineiro ainda vê Eduardo Leite como opção da legenda. Em outra frente, o governador gaúcho foi sondado pelo presidente do PSD, Gilberto Kassab, para ser candidato ao Planalto pela sigla, mas Leite ainda não tomou uma posição sobre o assunto. Além disso, quadros históricos do partido, como o próprio Tasso e o ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira, têm sido procurados pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para conversas que constrangem o projeto eleitoral do paulista.

A ala anti-Doria do PSDB quer cobrar um plano que mostre que o projeto presidencial de Doria pode decolar. A ideia é levar o debate até o limite, chegando ao prazo para o partido registrar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a candidatura. Em entrevista à Rádio Eldorado, o paulista classificou o encontro como "jantar de derrotados". Aliados do governador também se mobilizaram nas redes para defender que o resultado das prévias seja respeitado. Em relação à viabilidade da candidatura, Doria afirmou que poderá se dedicar mais às eleições quando sair do cargo em abril e começar a viajar pelo País.

Outro cenário que preocupa essa parte do PSDB é a eleição para a Câmara. O partido tem se desidratado na Casa Legislativa. Antes de 2018, a sigla costumava ficar entre as três maiores bancadas, sempre com mais de 50 deputados, mas hoje tem apenas 32, na sétima posição. Após a janela partidária, que acontece em março, a tendência é que o partido emagreça ainda mais, com uma perda de seis a dez parlamentares. A disputa por dinheiro do fundo eleitoral também impacta nesse processo, como mostrou o Estadão. Não lançar candidatura própria à Presidência significa liberar mais recursos para as eleições para deputado federal.

Participantes do jantar de ontem negam que venham a se desfiliar. No entanto, José Aníbal comentou que entende haver risco para uma possível debandada de deputados. "O duro é o seguinte: como você propõe a um parlamentar uma candidatura que está patinando? E se ela continuar patinando, como ele vai fazer? Olhe pelo lado prático", disse. 

Em entrevista ao Estadão em dezembro, Aécio mostrou preocupação com um eventual prejuízo para a bancada tucana. "Se nós formos para o isolamento, e eu espero que esse não seja nosso caminho, isso reflete inclusive na nossa presença nas assembleias, na nossa presença congressual. Mesmo que o PSDB não vença essas eleições, nós temos de sobreviver enquanto um partido sólido no Congresso", afirmou.

Depois de vencer as prévias, Doria fez acenos para a ala do partido que apoiou Eduardo Leite. Com aval do governador paulista, a bancada do PSDB na Câmara elegeu Adolfo Viana (BA) como líder. O deputado endossou a candidatura de Leite no processo interno, mas agora tem trabalhado para auxiliar Doria. Outra tentativa de unir o partido foi escolher o presidente do PSDB, Bruno Araújo, como coordenador da campanha. Mesmo tendo chegado ao comando da legenda apadrinhado por Doria, o dirigente também mantém proximidade com Leite e Aécio.

Apesar do clima de guerra e ataques mútuos entre Doria e Aécio, há aliados em comum entre os dois. O ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia (sem partido-RJ) é um deles. Futuro coordenador do programa de governo do paulista, o deputado esteve há três semanas com Aécio. Ao Estadão, Maia afirmou que não falou sobre Doria com o mineiro e disse que apenas debateu a "conjuntura nacional" com um "amigo".

Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira, 9, mostra que Doria está no pelotão de baixo dos presidenciáveis. Em diferentes cenários da pesquisa estimulada, Lula (PT) aparece com 45% a 47%, seguido por Jair Bolsonaro (PL), que tem 23% a 26%. Moro e Ciro registraram 7% a 9% das intenções de voto. André Janones (Avante) e João Doria (PSDB) registraram 2% a 3%. Simone Tebet (MDB), 1%. Rodrigo Pacheco (PSD) e Felipe d’Avila (Novo) não pontuaram.

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Os pratos do jantar tucano foram divulgados em uma rede social por Anna Paola Frade Pimenta da Veiga, mulher do anfitrião. Os tucanos foram servidos com filé e sofioli recheado com mussarela de búfala e queijo gorgonzola, mas o prato principal foi mesmo o projeto presidencial de Doria.

 

Correções
11/02/2022 | 23h11

Diferentemente do que foi publicado na primeira versão desse texto, Pimenta da Veiga é ex-prefeito de Belo Horizonte.

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