O que alguns pensam sobre as mulheres

Humberto Dantas

02 Novembro 2015 | 08h10

Impressiona alguns dos argumentos utilizados por críticos dos conteúdos acerca da mulher no ENEM 2015, com destaque para o tema da redação. O debate, ou o contraponto são sempre válidos, mas as declarações de parlamentares mais conservadores são assombrosas e pouco razoáveis. Nesse caso, o que esperar de um deputado federal como Jair Bolsonaro (RJ) que se volta para uma colega e diz, mais de uma vez, que não a estupra porque ela ‘não merece’?

 

O caráter bizarro não se restringe ao Brasil, infelizmente. No final do ano passado o prefeito de Valladolid, Espanha, afirmou que tinha medo de ficar sozinho com uma mulher no elevador. Ela poderia tirar a roupa e sair gritando que foi estuprada por ele. A declaração foi dada em um programa de rádio, e logo as críticas atingiram o topo dos temas no Twitter nacional e cerca de 500 pessoas foram para frente da prefeitura e formaram uma corrente de sutiãs pedindo a renúncia daquele que é famoso por suas declarações sexistas – as informações são da BBC. A Espanha debate fortemente o tema e para a indignação das mulheres o teor de parte das reflexões tende a responsabilizar as vítimas como provocadoras. Na Itália, em 2013, a então vereadora de Pádua, Dolores Valandro, de um partido de direita, criticava um africano acusado de estuprar duas mulheres sugerindo que Cecile Kyenge, ministra da Integração, e primeira negra a ocupar um ministério no país, merecia ser igualmente estuprada: “assim ela entende como se sente o vítima de um crime atroz!” Bizarro! Assustador! Trágico!

 

Voltando ao Brasil, precisamos, urgentemente, defender um ambiente de respeito, tolerância e convivência entre gêneros. O arrefecimento de uma cultura machista é urgente. E quem não enxerga o Brasil como um país machista que procure urgentemente um profissional capaz de arrefecer miopias sociais – um psicólogo ou um analista social podem contribuir. Não vamos nos esquecer da infame declaração do ex-vereador paulistano (que bom poder escrever EX, que pena escrever VEREADOR) Agnaldo Timóteo sobre o turismo sexual que explora menores no Brasil. Segundo ele as meninas provocam, e o sujeito que contrata essas prostitutas não devia ser preso. O ex-prefeito paulistano, Paulo Maluf, por sua vez, foi dono da tradicional sentença: “estupra, mas não mata!”. Não devemos deixar de destacar também, em tom bem semelhante ao empregado pelo ex-parlamentar paulistano, a recente declaração de Helder Evangelista, vereador do PHS de Viçosa, Minas Gerais, que depois de ouvir os relatos, e assistir vídeos na web, sobre casos de violência contra mulheres ocorridos numa festa na cidade afirmou: “acho que ela queria realmente ser estuprada”. A fala revoltou alguns moradores, sobretudo de movimentos feministas. À reportagem do G1 o edil lamentou a proporção que tomou sua declaração e disse que apenas defendeu o gênero feminino. Quem tem um defensor desses não deve precisar de inimigos.

 

Mas ainda pior que as declarações deprimentes são as ações. Em 2010, o vereador de Palmas, Paraná, Vanderlei Roberto da Silva, eleito pelo PSDB, foi condenado por estupro realizado em 2008. O mesmo destino não teve Liquinha, ou Gilmar Chaves Sodré (PMN), vereador em Ilhéus-BA, absolvido em agosto desse ano da acusação de estupro no fim da década passada – o MP promete recorrer. Nesse ano, mais um caso envolvendo políticos: o vereador e professor Gilmar dos Santos Ramos (PT), de São Miguel do Guaporé (RO), foi detido por estupro envolvendo crianças e adolescentes.

 

O caso mais bizarro, no entanto, ocorreu na capital Porto Velho, onde em 2011 o ex-vereador Chico Caçula (PDT) foi condenado por seguidamente estuprar uma adolescente de 13 anos em seu sítio. Sua assessora, e TIA DA GAROTA, também foi detida por aliciar a sobrinha e forçar um aborto na vítima, por meio do uso de medicamento proibido. Na defesa, os advogados alegaram que a garota não era virgem, e por manter relações com outros rapazes sabia bem o que estava fazendo. A tia, inclusive, comemorou a consumação do estupro, por entender que a partir dali poderia “ganhar muito” com o estuprador. Esse país precisa ou não debater o que parte de seus “cidadãos” pensa sobre a mulher?

 

Esse texto dialoga fortemente com reflexão de meu companheiro de blog, Eder Brito, em texto da semana passada (aqui)