‘Você esqueceu que ela só mandou metade?’

‘Você esqueceu que ela só mandou metade?’

Ministério Público Federal aponta ‘possível propina’ em diálogo interceptado pela PF entre o deputado Marcos Abrahão (Avante) e sua assessora Alcione Chaffin; testemunha diz que entregou dinheiro à assessora do parlamentar em um edifício em frente ao Tribunal de Justiça do Rio

Julia Affonso e Roberta Pennafort/RIO

09 Novembro 2018 | 05h00

Foto: Reprodução

O deputado estadual do Rio Marcos Abrahão (Avante), preso nesta quinta-feira, 8, na Operação Furna da Onça, caiu no grampo da Polícia Federal, durante uma conversa com sua chefe de gabinete Alcione Chaffin, também capturada. Na conversa, segundo o Ministério Público Federal, o parlamentar e sua assessora tratavam de ‘possível propina’.

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Marcos Abrahão foi reeleito para uma das 70 cadeiras da Assembleia Legislativa do Rio. Ele recebeu 24.261 votos nas eleições 2018.

O alvo do grampo era Alcione. O deputado ligou para sua chefe de gabinete às 19h44 de 10 de setembro. Durante a conversa, o parlamentar perguntou a ela. “Você esqueceu que ela só mandou metade, Alci?”

A chefe de gabinete disse que ‘não’. “Eu não tô sabendo.”

“Ué, meu amor. Lembra?”, questionou Marcos Abrahão.

“Eu acho que vocês se encontraram por aí”, respondeu Alcione.

“Não meu amor, não meu amor. Eu não. Quem foi buscar da última vez?”, quis saber o deputado.

“Não fui eu não. Stella não. Foi o Léo”, disse a assessora.

“Então liga pra ele, porque veio só pela metade”, ordenou o parlamentar.

“Tá. Vou ligar pra ela e vou falar com Léo”, afirmou Alcione.

Segundo a PF, depois de desligar com o chefe, a assessora telefonou para ‘Léo’. Os investigadores afirmam que ‘possivelmente’ se trata de Leonardo Mendonça Andrade, também preso pela Furna da Onça.

Os investigadores afirmam que Leonardo Andrade é assessor parlamentar de Marcos Abrahão e primo da mulher do deputado. Um dos grampos da PF indicou que Leonardo Andrade ‘também é motorista de Uber e Cabify’. Na avaliação do Ministério Público Federal, ‘é possível que ele seja utilizado como ‘laranja’ de Marcos Abrahão’.

Às 19h46, Alcione fala com ‘Léo’. “Mas não foi você que foi pegar?”, questionou.

“Cara, eu só pego”, respondeu o interlocutor.

No mesmo relatório que registrou os grampos, o Ministério Público Federal destacou um trecho do depoimento de um entregador de dinheiro que trabalhava para dois doleiros. Luiz Carlos Linhares Ferreira declarou ‘ter entregue dinheiro a Alcione’ em um edifício em frente ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro.

“Possivelmente, é onde funciona o comitê de campanha do deputado estadual”, aponta a Procuradoria da República.

Furna da Onça faz referência a uma sala anexa ao plenário da Assembleia Legislativa do Rio, onde deputados se reúnem para conversas reservadas. Ali, os parlamentares fecham combinações secretas que resultam em decisões individuais antes das votações, momento conhecido no Legislativo fluminense como a hora da ‘onça beber água’.

Os dez deputados são investigados por uso da Assembleia Legislativa do Rio a serviço do esquema atribuído ao ex-governador do Estado Sérgio Cabral (MDB). Segundo o Ministério Público Federal, os parlamentares recebiam propina mensal (‘mensalinho’) durante o segundo mandato do emedebista (2011-14). A Furna da Onça aponta que a propina resultava do sobrepreço de contratos estaduais e federais.

Além de Marcos Abrahão foram presos os deputados André Correa (DEM), Edson Albertassi (MDB, nova ordem de prisão, mas já estava custodiado em Bangu), Chiquinho da Mangueira (PSC), Coronel Jairo (MDB), Jorge Picciani (MDB, nova prisão, continuando em domiciliar), Luiz Martins (PDT), Marcelo Simão (PP), Marcus Vinícius “Neskau” (PTB) e Paulo Melo (MDB, nova prisão, mas já estava custodiado em Bangu).

O secretário de Governo, Affonso Monnerat, foi preso pela PF. O presidente do Detran/RJ, Leonardo Silva Jacob, e seu antecessor Vinícius Farah, recém-eleito deputado federal pelo MDB, ainda não foram localizados.

Também foram presos seis assessores da Assembleia: Alcione Chaffin Andrade Fabri (ligada a Marcos Abrahão), Daniel Marcos Barbiratto de Almeida (ligado a Luiz Martins), Jorge Luis de Oliveira Fernandes (ligado ao Coronel Jairo), José Antonio Wermelinger Machado (ligado a André Correa), Leonardo Mendonça Andrade (ligado a Marcos Abrahão) e Magno Cezar Motta (ligado a Paulo Melo).

A PF capturou ainda a diretora de Registros do Detran Carla Adriana Pereira, a atual subsecretária na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, Shirlei Aparecida Martins da Silva (ligada a Edson Albertassi), e Jennifer Souza da Silva (ligada a Paulo Melo).

A Furna da Onça é um desdobramento da Operação Cadeia Velha – deflagrada em novembro de 2017.

“As investigações contam uma história: a de como o ex-governador neutralizou, com propina e outras vantagens ilícitas, o controle que os deputados estaduais deveriam exercer sobre o Executivo, e, com isso, a organização criminosa se espalhou por vários órgãos e entidades do estado, provocando o sucateamento dos serviços prestados à população”, afirmam os procuradores Andréa Bayão, Carlos Aguiar e José Augusto Vagos (MPF/2ª Região) e Leandro Mitidieri e Renata Ribeiro Baptista (MPF/RJ), autores da petição e que também pediram o afastamento dos deputados de seus cargos.

A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto manifestação.

“Mensalinhos” e “prêmios” pagos na Alerj, segundo o Ministério Público Federal

– André Correa (DEM): R$ 100 mil/mês
– Edson Albertassi (MDB): R$ 80 mil/mês + R$ 1 milhão
– Chiquinho da Mangueira (PSC): mais de R$ 3 milhões
– Coronel Jairo (SD): R$ 50 mil/mês + prêmio
– Jorge Picciani (MDB): R$ 400 mil/mês + prêmio
– Luiz Martins (PDT): R$ 80 mil/mês + R$ 1,2 milhão
– Marcelo Simão (PP): R$ 20 mil/mês
– Marcos Abrahão (Avante): R$ 80 mil/mês + R$ 1,5 milhão
– Marcus Vinicius “Neskau” (PTB): R$ 50 mil/mês
– Paulo Melo (MDB): R$ 900 mil/mês + prêmio

COM A PALAVRA, O DETRAN

O Detran-RJ está à disposição das autoridades para qualquer esclarecimento.

COM A PALAVRA, JORGE PICCIANI

“O Ministério Público, mais uma vez, tenta criar um fato sem provas para me envolver num enredo do qual não sou personagem. Basta folhear as páginas da denúncia para ver as contradições ali constantes. O delator Carlos Miranda, por exemplo, deixou claro que durante minha presidência da Alerj no primeiro mandato do governador Sergio Cabral não houve nenhum pagamento para mim nem qualquer irregularidade. Na segunda gestão de Cabral eu não exercia mandato. A peça hoje apresentada pelo Ministério Público não prova meu envolvimento em nenhuma das supostas irregularidades apontadas, até porque não participei. A única justificativa para o MP envolver meu nome nessa tramoia é que meus advogados estão concluindo as alegações finais que irão comprovar minha inocência.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO MARCIO DELAMBERT MIRANDA FERREIRA, QUE DEFENDE EDSON ALBERTASSI

“O deputado nunca participou de qualquer ato criminoso durante seus mandatos e reafirma sua inocência.”

COM A PALAVRA, CHIQUINHO DA MANGUEIRA

“O deputado Chiquinho da Mangueira, através de sua assessoria, declara que todas as acusações imputadas a ele através da operação “Furna da Onça”, realizada pela Polícia Federal, que o levou a prisão temporária no dia de hoje, são infundadas e totalmente inverídicas. Segundo o advogado Pablo Andrade, da equipe jurídica de Chiquinho da Mangueira, a medida foi completamente desarrazoada e ficará demonstrado que não houve qualquer ato ilícito praticado pelo deputado.”

COM A PALAVRA, O GOVERNO DO RIO

O governador Luiz Fernando Pezão aceitou o pedido de exoneração do secretário de Governo, Affonso Monnerat, e determinou a exoneração dos demais servidores citados na operação hoje realizada, Carla Adriana Pereira, Shirley Aparecida Martins da Silva e o presidente do Detran, Leonardo Jacob. O governador reitera que não tem conhecimento dos fatos e tampouco do teor das acusações imputadas a esses servidores. O governador reafirma sua confiança na inocência do ex-secretário Affonso Monnerat.

COM A PALAVRA, MARCUS VINICIUS NESKAU

“A assessoria de comunicação do deputado Marcus Vinícius Neskau (PTB) afirma que o parlamentar recebeu a ordem de prisão temporária com muita indignação e estranheza, justo em um período de articulações políticas sobre a votação para a próxima composição da Presidência da Alerj – onde o deputado já havia se manifestado pelo voto a favor do deputado André Corrêa. No entanto, o parlamentar segue seu compromisso com a população de dar transparência a seu mandato, afirmando sua inocência e colaborando com todas as investigações, prestando todos os esclarecimentos à Polícia Federal, Ministério Público e Justiça.”