Troca no comando da PF no Rio vai entrar na mira de inquérito Moro X Bolsonaro

Troca no comando da PF no Rio vai entrar na mira de inquérito Moro X Bolsonaro

Em uma estratégia para se blindar de uma eventual medida contrária do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro deu posse ontem às pressas ao novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza; no mesmo dia, em uma das primeiras medidas no cargo, Souza mudou o comando da Superintendência da corporação no Rio de Janeiro - área de interesse de Bolsonaro e seus filhos.

Rafael Moraes Moura e Pepita Ortega

05 de maio de 2020 | 14h37

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro. Foto: Dida Sampaio / Estadão

A troca no comando da superintendência da Polícia Federal no Rio de Janeiro vai entrar na mira dos investigadores que apuram as acusações de interferência política na instituição feitas pelo ex-ministro Sérgio Moro contra o presidente Jair Bolsonaro. Um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) foi aberto por determinação do ministro Celso de Mello para analisar as declarações de Moro.

Uma fonte que acompanha o caso disse que não tem como fazer a investigação sobre possível interferência de Bolsonaro na PF sem perguntar sobre essa mudança na superintendência do Rio. No último sábado, Moro prestou depoimento, em que apresentou conversas, áudios e e-mails trocados com Bolsonaro durante o período que ocupou o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O ex-ministro acusa Bolsonaro de interferência política na PF para tentar obter acesso a relatórios sigiloso de inteligência.

Em uma estratégia para se blindar de uma eventual medida contrária do STF, Bolsonaro deu posse ontem às pressas ao novo diretor-geral da Polícia Federal, Rolando Alexandre de Souza. No mesmo dia, em uma das primeiras medidas no cargo, Souza mudou o comando da Superintendência da corporação no Rio de Janeiro – área de interesse de Bolsonaro e seus filhos.

A nomeação do novo diretor-geral da PF já entrou na mira da Justiça. O coordenador nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), Rubens Alberto Gatti Nunes, entrou com ação popular na Justiça Federal do DF pedindo a suspensão imediata da nomeação de Souza, sob a alegação de que Bolsonaro escolheu um nome “alinhado a seus interesses escusos”, como ficou evidenciado na troca de comando da PF no Rio.

A escolha de Rolando é vista como uma alternativa do presidente para manter a influência de Alexandre Ramagem, que é próximo à família Bolsonaro, na corporação. A nomeação de Ramagem foi suspensa por determinação do ministro Alexandre de Moraes na semana passada.

O presidente Jair Bolsonaro durante assinatura do Termo de Posse de Rolando Alexandre de Souza, Diretor-Geral da Polícia Federal. Foto: Isac Nóbrega/PR/Palácio do Planalto

Boca

Nesta terça-feira, Bolsonaro negou interferência na PF, mas não quis responder diretamente se pediu ou não a troca da superintendência da instituição no Rio de Janeiro. Ao ser indagado sobre o assunto por jornalistas, Bolsonaro ficou visivelmente alterado e mandou os profissionais calarem e boca diversas vezes.

“O atual superintendente do Rio de Janeiro, que o (ex-ministro Sérgio) Moro disse que eu quero trocar por questões familiares… Não tem nenhum parente meu investigado pela PF, nem eu, nem meus filhos. Zero. É uma mentira que a imprensa replica o tempo todo, dizer que meus filhos querem trocar o superintendente”, disse Bolsonaro.

Em seguida, questionado pela reportagem do Estadão/Broadcast se pediu a troca na superintendência do Rio, Bolsonaro reagiu mandando a profissional calar a boca. “Cala a boca, não perguntei nada”, gritou. Diante da insistência de outro repórter, ele voltou a mandar os jornalistas calarem a boca. “Não interferi em nada”, continuou.

A posse do novo diretor da PF foi realizada ontem em pequena cerimônia, que durou apenas 20 minutos, no gabinete de Bolsonaro no Palácio do Planalto, sem divulgação antecipada nem convidados. Ocorreu às 10h, cerca de meia hora depois de a nomeação ter sido publicada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU). Estiveram presentes sete ministros, entres eles André Luiz Mendonça, da Justiça e Segurança Pública.

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