‘Sombra’ exigiu R$ 5 milhões para evitar ‘o mal maior’, diz investigação sobre fraudes na limpeza de São Paulo

‘Sombra’ exigiu R$ 5 milhões para evitar ‘o mal maior’, diz investigação sobre fraudes na limpeza de São Paulo

Operação 'Chorume', fase 7 da Operação Descarte, que rastreia crimes em contratos da limpeza urbana da capital paulista, indica que Alfredo de Almeida Barros, o 'Shadow', dizia que poderia atuar para barrar a comunicação de fiscalização da Receita para o Ministério Público

Pedro Prata

07 de fevereiro de 2020 | 13h41

Apontado como engrenagem fundamental no esquema de emissão de notas fiscais frias e entrega de dinheiro para o Consórcio Soma, que era responsável pelos serviços de limpeza urbana de São Paulo, o escritório Claro Advogados tentou travar investigações. Luiz Carlos da Fonseca Claro e Gabriel Silveira da Fonseca Claro, pai e filho, relataram no âmbito de delação premiada como abordaram quem pudesse ‘intervir’ dentro da Receita Federal.

O esquema é alvo da Polícia Federal. Na terça, 4, foi deflagrada a Operação Chorume, 7.ª fase da Operação Descarte, por ordem da juíza Silvia Maria Rocha, da 2.ª Vara Criminal Federal de São Paulo. A PF pediu a prisão de sete investigados, mas a magistrada não autorizou.

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Os delatores Claro revelaram ao Ministério Público Federal detalhes sobre vendas fictícias de mercadorias para o consórcio de limpeza urbana Soma – criado em 2011 -, segundo eles, com o objetivo de formação de caixa 2 para partidos em campanhas eleitorais e propinas a servidores públicos e a políticos.

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Segundo os delatores, Antonio Kanji Hoshikawa, conhecido como ‘Tião’, foi quem procurou o Claro Advogados para ‘obtenção de recursos em espécie’ a favor das empresas do Soma – Estre, CGR, Corpus, Cavo e Recontrol.

‘Tião’ seria assessor direto de Wilson Quintella Filho, executivo ligado ao grupo Estre.

Trecho da delação do clã Claro, no qual relatam reunião com ‘Sombra’. Foto: Reprodução

O avanço da fiscalização da Receita sobre as empresas do Grupo Estre preocupavam ‘Tião’, apontado pelos investigadores como o ‘assessor’ do grupo Estre Ambiental, principal empresa do consórcio.

Ele externou sua preocupação ao clã Claro que, por sua vez, pediu ajuda a Marco Antonio Puig da Silva Reis, o ‘Mister M.’

‘Mister M.’ já foi preso na Operação Déjà Vu, deflagrada pela PF em 2008 para apurar crimes dentro dos Correios.

Naquela ocasião, a Justiça sustentou assim o decreto de prisão de ‘Mister M.’ “Há fortes indícios de que seja o articulador de esquemas fraudulentos em diversos órgãos públicos, mediante tráfico de influência e corrupção ativa.”

Marco Puig atendeu ao pedido do clã Claro, e indicou Alfredo Almeida Barros para o serviço.

Barros, por sua vez, era funcionário do Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados).

Segundo os autos da Operação ‘Chorume’, ele foi indiciado pela PF em 2017 por ter supostamente ‘fornecido certidão de regularidade fiscal falsificada para que a empresa Servilimpe pudesse ser contratada pelo setor público’.

Apresentado como um ‘alto funcionário da Receita’, Alfredo se encontrou com Gabriel e Luiz Carlos Claro em restaurantes de São Paulo.

Conversa de um dos advogados da Claro com Luiz Carlos sobre ‘Shadow’. Foto: Reprodução

Segundo o depoimento dos delatores, ‘para demonstrar sua influência, ele lhes apresentou notificações e intimações de empresas do Grupo Estre realizadas pela Receita Federal do Brasil, o que, em tese, apenas servidores da Receita teriam acesso, como também mencionou os nomes dos auditores fiscais que estariam a frente da fiscalização, o que demonstra que teve acesso a dados sigilosos da Receita Federal’.

Desde o início, os envolvidos no esquema deram a Alfredo Almeida Barros a alcunha de ‘Shadow’ para dificultar o reconhecimento de sua identidade.

Tabela de pagamentos a ‘Mister M.’. Foto: Reprodução

Ainda segundo os delatores, ‘Shadow’ teria dito que ‘tinha poucos mecanismos para intervir junto à fiscalização’. Contudo, poderia atuar quando os procedimentos de fiscalização chegassem a Brasília, ‘com vistas a evitar o mal maior que seria a comunicação para o Ministério Público’.

Ele primeiro teria exigido contrapartida de R$ 5 milhões, mas acabou baixando a pedida para R$ 3 milhões. Metade deveria ser paga antes e a outra metade após sua intervenção.

Essa proposta teve a autorização de Wilson Quintella, executivo da Estre Ambiental, segundo os investigadores.

Dessa forma, foi realizado o pagamento de R$ 1,5 milhão para ‘Shadow’ em espécie em várias etapas de R$ 100 mil cada, em média, entregues por Luiz Carlos Claro.

Uma quantia de cerca de R$ 180 mil teria sido paga a ‘Mister M.’ pela indicação de ‘Shadow’.

Tabela de pagamentos a ‘Mister M.’ e ‘Kung’, identificado pelos investigadores como sendo ‘Tião’. Foto: Reprodução

Apesar disso, ‘Shadow’ não apresentou atuação satisfatória ao esquema, motivo pelo qual os integrantes do esquema interromperam a relação com ele.

Os investigadores apreenderam planilha intitulada ‘Controle Cash – A’ na sede da Claro Advogados que continha o registro dos pagamentos feitos a Shadow.

Entre janeiro e julho de 2017, o escritório pagou um total de R$ 620 mil, em 13 pagamentos nunca superiores a R$ 100 mil por ser o valor que o banco deve obrigatoriamente informar para órgãos de controle como o antigo Coaf.

Os pagamentos a ‘Shadow’ nunca ultrapassavam R$ 100 mil, valor que os bancos são obrigados a informar ao Coaf. Foto: Reprodução

Outras planilhas dão conta de pagamentos de R$ 5,7 milhões a ‘Kung’, apelido de Antonio Kanji, e R$ 150 mil a ‘Mister M’, ou Marco Puig.

Já na planilha ‘Japan’ há o registro do pagamento de R$ 500 mil entre outubro de 2015 e março de 2017 a ‘Shadow’, além de R$ 150 mil para ‘Mister M’ de novembro de 2016 a fevereiro de 2017.

COM A PALAVRA, O GRUPO SOMA

Na terça, 4, quando a Operação Chorume foi deflagrada, o Grupo Soma divulgou a nota abaixo.

“A Cavo, líder do extinto consórcio Soma, informa que não tem conhecimento sobre a operação da Polícia Federal executada nesta terça-feira. Nenhum escritório da empresa foi alvo da ação.”

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