Secom nega financiar sites antidemocráticos e critica imprensa por noticiar investigação da PF

Secom nega financiar sites antidemocráticos e critica imprensa por noticiar investigação da PF

Relatório parcial da Polícia Federal indica que inquérito busca identificar se governo federal agiu deliberadamente, com base em critérios ideológicos, ou por omissão no financiamento de páginas investigadas por difundir mensagens antidemocráticas

Paulo Roberto Netto, Rayssa Motta, Pepita Ortega, Fausto Macedo/SÃO PAULO e Breno Pires/BRASÍLIA

19 de setembro de 2020 | 12h12

A Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) do governo Jair Bolsonaro negou neste sábado, 19, que financie sites investigados no inquérito dos atos antidemocráticos. A nota foi enviada após relatório parcial da Polícia Federal apontar que agentes buscam descobrir se a pasta agiu deliberadamente ou por omissão no financiamento das páginas.

É a primeira vez que o Planalto foi implicado no inquérito. A linha de investigação tem como base relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, que identificou informações sobre anúncios da Secom em sites e páginas ligadas aos investigados.

Os anúncios haviam sido incluídos por meio do Google AdSense, ferramenta do Google na qual o usuário define parâmetros sobre qual público-alvo quer alcançar com o anúncio. Apesar de não haver um controle direto sobre quais sites as peças são exibidas, o governo tem a opção de bloquear a sua presença em determinadas páginas ou adicionar filtros que impeçam sua divulgação em sites considerados inadequados.

“A investigação tem o objetivo de checar se essa ocorrência se deu por culpa ou por ação ou omissão deliberada de permitir a adesão da publicidade do governo federal, e a consequente monetização, ao conteúdo propagado. Outro ponto a ser elucidado (e que complementarão a análise do material já em curso) é se essa conduta ocorreu por vínculos pessoais/ideológicos entre agentes públicos e os produtores de conteúdo ou mesmo por articulação entre ambos”, apontou a PF.

Em nota, a Secom afirmou que a distribuição de verbas publicitárias ‘segue os critérios constitucionais de impessoalidade, legalidade, moralidade, publicidade e eficiência’ e que a distribuição da publicidade digital oficial do governo ‘é de responsabilidade do Google Ads’.

A pasta também criticou a imprensa por divulgar o andamento do inquérito, que já fechou o cerco a deputados, youtubers, blogueiros e aliados do Planalto. Recentemente, os filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro, foram intimados a depor.

“A Secom respeita a Liberdade de Imprensa, assim como a Liberdade de Expressão de todo cidadão brasileiro e dos veículos de comunicação, mas condena esse tipo de campanha que não ajuda ao país e nem a democracia”, disse.

O secretário de comunicação Fabio Wajngarten. Foto: Gabriela Biló / Estadão

Damares. Em outro ponto, a Secom afirma que a divulgação do relatório pela imprensa busca atingir ‘ministros’ do governo. O documento da PF aponta que os investigadores miram os ‘vínculos’ entre a extremista Sara Giromini, o blogueiro Oswaldo Eustáquio e o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de Damares Alves.

Segundo a PF, ‘há vínculos, ainda não totalmente esclarecidos’ sobre a contratação de Sara Giromini no ministério de Damares. Até outubro do ano passado, a extremista ocupou cargo na Coordenação-Geral da Atenção Integral à Gestante no Departamento de Promoção da Dignidade da Mulher.

Caso semelhante é analisado pela PF envolvendo Oswaldo Eustáquio. A esposa e sócia do blogueiro, Sandra Mara Volf Pedro Eustáquio, tem cargo na Secretaria Nacional de Políticas de Promoção de Igualdade Racial, no mesmo ministério.

“A natureza e a origem desses vínculos e as relações entre essas pessoas e agentes públicos com atuação nessa pasta merece aprofundamento, para corroborar ou eliminar a asserção feita no corpo da hipótese criminal de que tais contratações seriam também uma forma de distribuir fundos aos propagadores/operadores”, apontou a Polícia Federal.

Em nota, o Ministério da Mulher informou que ‘todos os membros deste Ministério estão tranquilos para prestar qualquer informação que se fizer necessária para que os fatos sejam elucidados’.

LEIA A ÍNTEGRA DA NOTA DA SECOM:

A Secretaria Especial de Comunicação Social do Ministério das Comunicações esclarece:

1. A política de comunicação da Secom na distribuição de verbas publicitárias é estritamente técnica e segue os critérios constitucionais de impessoalidade, legalidade, moralidade, publicidade e eficiência.

2 – Como já reiterado por diversas vezes pela Secom, a distribuição da publicidade digital oficial do governo federal é de responsabilidade do Google Ads, que utiliza inteligência artificial e distribui as peças de forma automatizada.

3. O interesse e o destaque dado à informação na cobertura da investigação é consequência da campanha de alguns veículos contra a política de Comunicação Social do governo.

4. O que se pretende é criar narrativas falsas, bem distantes da boa prática jornalística e atacar diariamente o Governo e seus ministros, com o objetivo de tentar desgastar a sua imagem.

5. A Secom respeita a Liberdade de Imprensa, assim como a Liberdade de Expressão de todo cidadão brasileiro e dos veículos de comunicação, mas condena esse tipo de campanha que não ajuda ao país e nem a democracia.

6. A Secom continuará com seu trabalho técnico, cumprindo sua obrigação de informar a população das ações do governo federal, sempre respeitando os critérios constitucionais já elencados.

Secretaria Especial de Comunicação Social
Ministério das Comunicações

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