‘Provei que o delator mentiu’, reage Haddad à condenação

‘Provei que o delator mentiu’, reage Haddad à condenação

Ex-prefeito de São Paulo, em entrevista ao Estadão, sustenta que 'por aquilo que foi acusado, foi absolvido'

Luiz Vassallo

20 de agosto de 2019 | 19h36

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad. Foto: Nilton Fukuda/Estadão

O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) reagiu enfaticamente à condenação imposta a ele de 4 anos e 6 meses em regime inicial semiaberto por suposto caixa 2 nas eleições de 2012. “Provei que o delator mentiu”, afirma Haddad, em entrevista ao Estadão. Ele pode recorrer. Na mesma sentença, foi absolvido por falsificação de notas fiscais, quadrilha, corrupção passiva, improbidade e lavagem.

Segundo a denúncia, o ex-prefeito teria recebido R$ 2,6 milhões em caixa dois da empreiteira UTC Engenharia.

Ao sentenciar Haddad, o juiz da 1.ª Zona Eleitoral da Capital, Francisco Shintate, afirmou que ‘Fernando Haddad, mediante um documento (prestação de contas) veiculou 258 declarações ideologicamente falsas (258 operações de prestação de serviços simuladas), com a finalidade eleitoral’.

O ex-prefeito questiona. “Isso não foi objeto sequer da acusação. Por aquilo que fui acusado, eu fui absolvido. Agora, a pergunta que não quer calar é: por que alguém declara uma nota fiscal de um serviço não prestado? A segunda pergunta é: por que essa pessoa mandaria fazer 200 notas de valores pequenos? qual é o sentido disso? não teria nem racionalidade uma coisa dessas. Nem por mal.”

“Quatro anos atrás, eu fui acusado de ter recebido uma doação da UTC para o pagamento de uma gráfica que não teria sido contabilizado na minha prestação de contas. Passados 4 anos, eu provei que o delator mentiu. Eu disse isso o tempo inteiro. Eu não recebi esse dinheiro, a gráfica não prestou esse volume de recursos para mim”, afirma.

LEIA A ENTREVISTA DE FERNANDO HADDAD AO ESTADÃO

Estadão: Como o sr recebe a decisão que o condenou?

Fernando Haddad: Quatro anos atrás, eu fui acusado de ter recebido uma doação da UTC para o pagamento de uma gráfica que não teria sido contabilizado na minha prestação de contas. Passados 4 anos, eu provei que o delator mentiu. Eu disse isso o tempo inteiro. Eu não recebi esse dinheiro, a gráfica não prestou esse volume de recursos para mim.

Esses serviços foram prestados para outras campanhas, não para mim. Então, durante quatro anos, eu defendi exatamente a mesma tese, de que o delator tinha mentido, e provei isso, porque o juiz afastou a delação.

E, agora, ele me condena por ter prestado contas para a Justiça de serviços supostamente não prestados em uma acusação que jamais foi feita ao longo dos últimos quatro anos.

Estadão: A denúncia foi por caixa dois da UTC Engenharia. Isso ocorreu?

Fernando Haddad: Esse assunto é matéria há quatro anos de jornal. Convido a resgatar todas as matérias. A acusação é de que eu tinha recebido recursos da UTC e não declarados. Eu disse: é mentira, e provei a mentira. A condenação, agora, é o inverso disso. É de que as notas fiscais que eu informei da gráfica não tiveram o serviço prestado correspondente. Se alguém que por algum motivo que desconheço quisesse colocar uma nota fria de 200 mil reais, ia mandar expedir 200 notas? Qual é o sentido de fazer uma coisa dessas? Eram serviços pequenos, feitos do dia para o outro, quebrados, inclusive, e que foram prestados durante a campanha. Mas eram pequenos. Por isso, ele afastou a delação da UTC. Conseguimos mostrar que ele estava mentindo. A condenação é sobre uma coisa da qual eu nunca respondi.

Estadão: Francisco Carlos e Ronaldo Cândido, das gráficas, admitiram receber o dinheiro da empreiteira. Eles dizem que não foi para a sua campanha, e sim para a de outros candidatos do partido. Esse dinheiro não foi para a sua campanha? Esta é a versão do executivo da UTC.

Fernando Haddad: Isso o juiz reconheceu que não foi só o cara da gráfica. Todas as testemunhas atestaram, e o Ricardo Pessoa estava mentindo. Ele pagou a gráfica, mas ela não prestou serviços para mim.  Só que a condenação não tem nada a ver com essa acusação pela qual eu respondi durante quatro anos. esse é o ponto. Esse mesmo juiz de hoje que sentenciou afastou tudo: corrupção, improbidade, lavagem. Tudo, inclusive, a delação. E a condenação versa sobre um tema estranho ao próprio inquérito. Eu não fui perguntado sobre isso em nenhuma circunstância.

Estadão: Isso não era objeto da denúncia?

Fernando Haddad: Isso não foi objeto sequer da acusação. Por aquilo que fui acusado, eu fui absolvido. Agora, a pergunta que não quer calar é: por que alguém declara uma nota fiscal de um serviço não prestado? a segunda pergunta é: por que essa pessoa mandaria fazer 200 notas de valores pequenos? qual é o sentido disso? Não teria nem racionalidade uma coisa dessas. Nem por mal.

Tendências: