Propina de R$ 3 milhões de Bendine estava em ‘sacos plásticos’

Propina de R$ 3 milhões de Bendine estava em ‘sacos plásticos’

Taxista disse que foi pago por dono da Arcos Propaganda, preso como operador de ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil, para ir até apartamento em São Paulo receber 'encomendas': três pacotes com R$ 1 milhão em dinheiro vivo cada

Ricardo Brandt e Julia Affonso

10 Agosto 2017 | 05h00

Aldemir Bendine. Foto: Fabio Motta/Estadão

Em 17 de junho de 2015, dois dias antes do empresário Marcelo Bahia Odebrecht ser preso pela Polícia Federal, em sua mansão no Morumbi, em São Paulo, alvo da Operação Lava Jato, o taxista Marcelo Marques Casemiro foi contratado por um publicitário de Recife (PE) para ir até um edifício residencial no bairro Paraíso, em São Paulo, receber uma encomenda. Era um pacote com R$ 1 milhão em dinheiro vivo que a Odebrecht mandou entregar como primeira das três parcelas da propina do ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil Aldemir Bendine.

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Casemiro afirmou, em março de 2016, à Polícia Federal que foi pago pelos donos da Arcos Propaganda, Antonio Carlos Vieira da Silva Junior e André Gustavo Viera da Silva, para ir até o apartamento de número 43, do Edifício Option Paraíso em outras duas datas, 24 de junho e 1º de julho de 2015, com a mesma missão: receber “encomendas” de um pessoa.

Eram “sacos plásticos” que continham R$ 1 milhão em dinheiro vivo cada, destinados a Benine, preso na 42ª fase da Operação Lava Jato, no dia 27.

“Fez tudo isso para atender pedidos do senhor Antonio, o qual encontrava-se na cidade de Recife, e, por confiança depositada no declarante, o pedia para ir nesse endereço e receber encomendas que seriam lá entregues”, afirmou Casimiro, quando foi ouvido na Operação Xepa, que desmontou o departamento da propina da Odebrecht, em março de 2016.

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O nome de Casemiro, o endereço e senhas associadas ao codinome “Cobra” registradas nos arquivos das secretárias do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht – a máquina de fazer propinas do grupo, que movimentou US$ 3,3 bilhões entre 2006 e 2015 – e levaram a Lava Jato até os donos da Arcos e aos pagamentos de corrupção de Bendine.

O taxista, que prestava serviços para os donos da Arcos, disse à PF que não sabia que estava recebendo dinheiro. “Não sabia que se tratava de dinheiro, pois o que recebeu foram pacotes fechados de plástico.”

Segundo ele, quando prestava esses serviços para Antonio Carlos, deixava o taximetro do carro “rodando” e recebia os valores correspondentes ao serviço. A PF questionou que destino ele dava aos pacotes. “Limitava-se a receber as encomendas e deixava no interior do apartamento permanecendo a chave na portaria do prédio”.

O taxista confirmou ainda que quando foi contratado pelo dono da Arcos para receber as “encomendas” no prédio no bairro do Paraíoso, recebeu a orientação de dizer as senhas “Oceano, Rio e Lagoa” ao “entregador”, para receber os pacotes.

As senhas estão anotadas nos registros do setor de propinas da Odebrecht e foram confirmadas pelos delatores do Grupo, que fecharam acordo de colaboração com a Lava Jato, em dezembro de 2016.

O ex-presidente da Odebrecht Ambiental Fernando da Cunha Reis, de quem foi cobrado a propina de Bendine e manteve reuniões com os donos da Arcos e com o próprio ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil, detalhou em seus depoimentos os acertos e as entregas.

O depoimento de Casemiro ajudou a Lava Jato a comprovar o recebimento por Bendine de R$ 3 milhões de propinas da Odebrecht, já quando a empresa estava na mira das investigações. Dois dos pagamentos foram feitos com Marcelo preso – ele permanece encarcerado em Curitiba.

O apartamento onde foram feitas as entregas de dinheiro estava alugado pelo dono da Arcos. A PF encontrou nos arquivos de computador do investigado o contrato de locação do imóvel.

Antônio Carlos e André Gustavo, que são irmãos, foram presos na Operação Cobra junto com Bendine.

Segundo a Lava Jato, Bendine havia exigido, inicialmente, R$ 17 milhões. Nessa ocasião, junho de 2014, ele ainda ocupava a presidência do Banco do Brasil.

Seis meses depois, em dezembro de 2014 – Lava Jato a todo vapor – Odebrecht recusou-se a pagar o montante, equivalente a 1% do montante previsto em três processos de crédito que as empresas do grupo tinham junto ao banco – R$ 600 milhões para o Estaleiro Enseada Paraguaçu, € 150 milhões para financiar a aquisição da EGF (processo de privatização em Portugal) e R$ 2,9 bilhões de crédito para a Odebrecht Agro Industrial.

Em fevereiro de 2015, na véspera de assumir o comando da Petrobrás com a missão de estancar a corrução na estatal e a ela dar um novo modelo de governança, Bendine voltou à carga e exigiu R$ 3 milhões., via André Gustavo.

 

Os delatores relataram que Bendine se reuniu com Marcelo Odebrecht na casa de André Gustavo, em Brasília, para ajustar a forma de repasse da propina – as três parcelas de R$ 1 milhão recebidas em sacos plásticos pelo taxista.

Os valores foram providenciados pelo doleiro Alvaro José Galliez Novis, responsável pela conta ‘Paulistinha’, segundo a planilha de propinas da empreiteira.

A referência à casa foi encontrada entre os prints efetuados pelo próprio Bendine em diálogos mantidos com André no aplicativo Wickr. Uma mensagem se refere ao endereço do operador, ‘justamente o local de encontro na noite do dia 18 de maio de 2015’.

Em seu depoimento, Odebrecht relatou que na residência de André ‘a conversa com Aldemir Bendine ocorreu em uma varanda fechada’.

“Acertou-se o pagamento de propina para o presidente da Petrobrás no importe de R$ 3 milhões”, afirma o Ministério Público Federal, no pedido de prisão de Bendine.

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Em seu relato, Odebrecht disse que se curvou ao fato de Bendine ter chegado à Petrobrás por indicação direta da então presidente Dilma Rousseff.

Segundo o Ministério Público Federal, André Gustavo ‘assumiu que recebeu os valores relacionados a Aldemir Bendine, embora tenha adotado condutas para ocultar e dissimular a origem e a natureza criminosa dos valores auferidos’.

“A propina chegou às mãos de Aldemir Bendine de forma sub-reptícia por parte de André Gustavo e Antonio Carlos. De se ver que, após o pagamento da propina pela Odebrecht, André Gustavo e Aldemir Bendine, por, pelo menos, duas ocasiões, tiveram encontros presenciais. Além disso, parte dos valores foi repassada por meio de pagamentos de fornecedores de serviços, sem a identificação dos beneficiários, tudo com intuito de omitir a origem e natureza criminosa dos valores.”