Portas fechadas e e-mails sem resposta: PF levou duas semanas para agendar depoimento de Eduardo Bolsonaro

Portas fechadas e e-mails sem resposta: PF levou duas semanas para agendar depoimento de Eduardo Bolsonaro

Dificuldades enfrentadas pela Polícia Federal em intimar o deputado adiaram os planos dos investigadores de agendar depoimento para o início do mês - a oitiva só foi realizada nesta terça, 22; Defesa afirmou que 'agenda' de Eduardo é comprometida'

Paulo Roberto Netto, Rayssa Motta, Pepita Ortega, Fausto Macedo/SÃO PAULO e Breno Pires/BRASÍLIA

23 de setembro de 2020 | 05h00

O deputado federal Eduardo Bolsonaro. Foto: Adriano Machado / Reuters

Entre portas de gabinete fechadas e diversos e-mails sem resposta, a Polícia Federal levou quase duas semanas para agendar o depoimento do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no inquérito que apura a organização e financiamento de atos antidemocráticos. A oitiva foi realizada na tarde desta terça, 22, porém a janela inicial dos investigadores era ouvir o filho do presidente no início do mês, entre os dias 5 e 12 de setembro.

O Estadão obteve cópias de e-mails e ofícios redigidos pela delegada Denisse Dias Rosas Ribeiro e um ofício da Divisão de Assuntos Parlamentares da PF sobre tentativas de intimar Eduardo Bolsonaro e sua defesa para agendar o depoimento. As sucessivas dificuldades enfrentadas pelos investigadores levaram a PF a marcar o depoimento unilateralmente ‘considerando que quedaram frustradas as tentativas de agendamento de data, hora e local’ com a defesa do parlamentar.

O primeiro contato foi feito por telefone com Eduardo Oliveira, assessor de Eduardo Bolsonaro, e registrado em e-mail enviado no dia 1º de setembro ao gabinete do parlamentar. A delegada Denisse pedia ‘a gentileza de indicar data e horário, entre 5 e 12 de setembro, em que terá disponibilidade para prestar declarações de interesse do inquérito’.

“Considerando a estrutura do órgão policial, pede também análise da viabilidade de o ato se realizar na Superintendência Regional da Polícia Federal no Distrito Federal”, apontou a delegada, pedindo confirmação do recebimento da mensagem e sua resposta.

No dia seguinte, 2 de setembro, a delegada reforça o pedido: “Conforme contato telefônico com Dr. Eduardo Oliveira, advogado de Vossa Excelência, realizado na data de 01/09/2020, pede-se a gentileza da resposta”.

E-mails semelhantes se seguiram nos dias 3 e 4 de setembro, registrando que dois novos contatos foram feitos com a defesa de Eduardo, por telefone, mas que não havia recebido resposta formal sobre a data para a oitiva.

A delegada Denisse então enviou ofício a Eduardo Bolsonaro. Ela escreve que, conforme solicitado por Eduardo Oliveira em ligações telefônicas nos dias 1º, 2 e 3 de setembro, é solicitada novamente ‘a gentileza de indicar data e horário’ para a oitiva. As novas datas sugeridas agora eram entre 8 a 12 de setembro, com exceção do dia 10.

No mesmo dia, a delegada pediu ao Chefe de Divisão de Assuntos Parlamentares da PF que levasse uma cópia do ofício ao gabinete do deputado, que também foi enviado por e-mail.



Com o fim de semana prologado devido ao feriado de Sete de Setembro, a PF foi ao gabinete de Eduardo na terça, 8. Pela manhã, às 10h08 e 11h19, os servidores encontraram o gabinete fechado. Somente às 11h51 os agentes localizaram Eduardo Oliveira, assessor parlamentar e advogado do filho do presidente.

Segundo os agentes escreveram em ofício, ele pediu ‘para retornarmos no período da tarde’. Assim a PF fez, mas encontrou as portas fechadas nas visitas feitas às 14h30, 16h48, 17h29 e 18h18.


Somente na quarta, 9, encontraram o gabinete aberto. Segundo a PF, o assessor de Eduardo ‘informou que o parlamentar não se encontrava e se recusou a receber o expediente, pois teria que primeiramente conversar com o deputado’. Eduardo Oliveira ressaltou aos agentes que já havia recebido e-mails a respeito do tema e ‘iria informar o parlamentar acerca da intimação’.

“Informamos ainda que as tratativas foram cordiais, com troca de cartões e número de telefone para fins de contato, todavia não foi possível lograr a intimação do parlamentar”, apontou a PF.


À época, a delegada Denisse Ribeiro já havia enviado novo e-mail ao gabinete e à defesa de Eduardo Bolsonaro informando que foi fornecida a cópia do inquérito policial aos advogados. Em resposta no dia 08 de setembro, o assessor da advogada Karina Kufa, Pedro Arthur, agradeceu o envio das cópias do inquérito e disse que ‘tão logo os arquivos sejam analisados, restabeleceremos contato para tratar da oitiva do sr. Eduardo Nantes Bolsonaro’.

Quase uma semana depois, na segunda, 14, a delegada Denisse Ribeiro decidiu agendar a oitiva unilateralmente ‘considerando que quedaram frustradas as tentativas de agendamento de data, hora e local’ para o depoimento com a defesa.

“Considerando que quedaram frustradas as tentativas de agendamento de data, hora e local para oitiva de seu cliente, Deputado Federal Eduardo Nantes Bolsonaro, e considerando a necessidade de prosseguimento da atividade de investigação, informo que será buscada a intimação pessoal do referido parlamentar com indicação de data, hora e local feita por esta autoridade policial”, afirmou. O depoimento foi agendado inicialmente para às 13h de quarta, 23, na sede da Superintendência da PF em Brasília.

Após o agendamento unilateral da delegada, a defesa de Eduardo respondeu com o pedido para que a oitiva fosse realizada no gabinete do parlamentar, ao invés da sede da PF, e nesta terça, 22, ao invés da quarta, 23. A PF acatou a solicitação.

Em nota, a advogada Karina Kufa, que representa Eduardo Bolsonaro, afirmou que ‘foram mantidos contatos telefônicos frequentes com a delegacia até acertar uma data que fosse viável. Nada fora do normal’. Segundo ela, a ‘agenda do deputado é comprometida’.

Atos antidemocráticos. Eduardo Bolsonaro foi intimado na condição de testemunha, e é o segundo filho do presidente a prestar depoimento no inquérito. A investigação mira a suposta existência de organização voltada para o financiamento e organização de atos antidemocráticos que pedem o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal e a instauração de um regime militar.

O nome de Eduardo apareceu na oitiva do pastor RR Soares, que disse à PF ter sido procurado pelo filho do presidente no primeiro semestre deste ano para tratar do aluguel de uma rádio em São Paulo. Segundo o líder religioso, o deputado pediu ajuda para encontrar uma rádio disponível para locação e disse que o interessado era um ‘amigo’, sem revelar detalhes ou sua identidade.

O pastor contou ainda que procurou pessoas do ramo para levantar valores e rádios disponíveis no mercado, mas que os executivos não demonstraram interesse no negócio. Um deles chegou a informar faturamento mensal de R$1 milhão, preço considerado inacessível por Eduardo, segundo o depoimento.

“Eduardo Bolsonaro disse que só tinha interesse na locação de uma rádio e não tinha esse valor para negociar a locação”, disse o pastor.

Em outro depoimento, o youtuber Adilson Nelseu Dini, do canal Ravox Brasil, afirmou que Eduardo participava de ‘encontros’ na residência de Allan dos Santos, um dos investigados no inquérito. Segundo oitivas obtidas pelo Estadão, o blogueiro mantinha um grupo no WhatsApp com deputados bolsonaristas e teria trocado mensagens com um assessor do presidente sugerindo a ‘necessidade de uma intervenção militar’.

“Os encontros, muitas vezes de confraternização, envolvendo amigos e pessoas que comungam a ideia de apoiamento ao presidente Jair Bolsonaro, que já ocorreram na casa de Allan, situada no Lago Sul em Brasília, onde algumas vezes participou Eduardo Bolsonaro, não é conhecido, e nem pode ser chamado, de ‘Gabinete do Ódio’”, afirmou Dini à PF, em junho deste ano.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO EDUARDO BOLSONARO
Foram mantidos contatos telefônicos frequentes com a delegacia até acertar uma data que fosse viável. Nada fora do normal. A agenda do deputado é comprometida e escolhemos a data de hoje para o depoimento.

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