PF recolhe câmera usada para gravar reunião ministerial e vai fazer perícia

PF recolhe câmera usada para gravar reunião ministerial e vai fazer perícia

Análise visa detectar se houve qualquer tipo de edição no vídeo da reunião ministerial antes da entrega da gravação ao Supremo Tribunal Federal

Paulo Roberto Netto e Fausto Macedo

25 de maio de 2020 | 19h21

A Polícia Federal recolheu nesta segunda, 25, a câmera digital utilizada pela Secretaria de Comunicação da Presidência para gravar a reunião ministerial do dia 22 de abril, divulgada na última sexta-feira, 22, por ordem do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal.

O equipamento será enviado para perícia com objetivo de detectar se houve qualquer tipo de edição do vídeo antes da entrega da gravação, no início de maio, pela Advocacia-Geral da União (AGU).

De acordo com despacho da Polícia Federal, a mídia original onde o vídeo foi registrado, como cartão ou dispositivo de memória externo, devem ser entregues junto com informações sobre o histórico da mídia, ou seja, se foi reutilizada, formatada ou se passou por qualquer tipo de procedimento. Em caso positivo, o governo deverá informar detalhadamente o que foi feito.

O presidente Jair Bolsonaro na reunião ministerial de 22 de abril. Foto: Marcos Corrêa/PR

A íntegra da gravação foi tornada pública pelo ministro Celso de Mello na sexta, 22, atendendo pedido do ex-ministro Sérgio Moro. A gravação é considerada peça-chave no inquérito que apura as acusações de interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal.

Entre palavões e ameaças, as imagens mostram o presidente cobrando mudanças no governo e fazendo pressão sobre Moro e os demais auxiliares sob a alegação de que não vai esperar ‘foder a minha família toda’.

“Mas é a putaria o tempo todo pra me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”, disse Bolsonaro.

O Planalto alega que, neste momento, o presidente se referia à sua segurança pessoal no Rio de Janeiro, a cargo do Gabinete de Segurança Institucional, sob comando do ministro Augusto Heleno. Ele não faz nenhum apontamento sobre a declaração durante a reunião. Moro, por sua vez, acusa o presidente de ameaçar demiti-lo caso não aceitasse a saída de Maurício Valeixo da direção-geral da PF e a substituição do comando da corporação no Rio de Janeiro, foco de interesse da família presidencial.

Bolsonaro também reclamou que não poderia ‘ser surpreendido com notícias’ e questionou relatórios que recebia dos órgãos de inteligência. “Pô, eu tenho a PF que não me dá informações”, reclamou.

“A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção”, disse Bolsonaro. “E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma … urna extrapolação da minha parte. É uma verdade”, afirmou Bolsonaro, olhando para o lado onde estava Moro.

Sistema particular. Durante a reunião, Bolsonaro afirmou que tem um ‘sistema de informação particular’, mas não deu detalhes sobre como funciona esta organização que o mantém municiado.

“Sistemas de informações, o meu funciona. O meu particular funciona. Os que têm oficialmente, desinforma. E voltando ao tema prefiro não ter informação a ser desinformado em cima de informações que eu tenho”, reclamou Bolsonaro na reunião.

Após a liberação do vídeo da reunião, Bolsonaro foi questionado sobre o sistema de informação e disse que se trata de um grupo com ‘uma pessoa da imprensa, policiais e militares’.

“É um colega de vocês da imprensa que com certeza eu tenho, é um sargento no Batalhão de Operações Especiais no Rio, um capitão do Exército de um grupo de artilharia em Nioaque, um policial civil em Manaus. É um amigo que eu fiz em um determinado local faz anos, que liga pra mim e mantém contado pelo zap (WhatsApp). São essas informações que eu tenho pessoal minha. Descubro muitas coisas, que lamentavelmente não descubro via inteligência oficial, que é a PF, Marinha, Aeronáutica e Abin”, disse.

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