PF monitorou cunhada de tesoureiro do PT

Marice Correa de Lima, cunhada de João Vaccari, foi vigiada pela Lava Jato, que temia fuga do País

Redação

20 de novembro de 2014 | 04h30

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba,

Mateus Coutinho,

Fausto Macedo

A Operação Lava Jato rastreou as viagens ao exterior da cunhada do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, Marice Correa de Lima, e também de executivos das construtoras acusadas de formarem cartel nas obras da Petrobrás. Marice é suspeita de ser a recebedora de uma entrega de R$ 110 mil solicitada por um executivo da OAS, em dezembro de 2013, ao doleiro Alberto Youssef, alvo central da investigação da Polícia Federal.

Os registros de monitoramento estão na lista do “Fluxo Migratório da Juízo Final”, sétima fase da Lava Jato.

A Juízo Final foi deflagrada na sexta-feira, 14, e levou para a cadeia executivos das maiores construtoras do País – Camargo Corrêa, OAS, Mendes Júnior, Engevix, UTC Galvão Engenharia, Queiroz Galvão – e o ex-diretor de Serviços e Engenharia da Petrobrás, Renato Duque, ligado ao PT. Também foi decretada a prisão do suposto operador do PMDB no esquema, Fernando Antônio Falcão Soares, o Fernando Baiano.

Veja também:

PF mira relações de empreiteira com Vaccari

PF admite erro ao relacionar Cosenza a pagamento de propina

Poupado até agora, auxiliar de doleiro negocia delação

O “Fluxo Migratgório” foi preparado para monitorar 27 executivos das construtoras investigadas. Sete nomes da OAS, quatro da Camargo Corrêa, quatro da Mendes Júnior, três da UTC/Constran, três da Engevix, dois da Queiróz Galvão, dois da Iesa e dois da Odebrecht – que não teve ninguém preso – estão na tabela.

A cunhada de Vaccari é a única da lista que não integra o grupo empresarial da Lava Jato. Marice fez três entradas e saídas do País nos últimos três anos, uma delas para Amsterdã, na Holanda. Ela embarcou no dia 16 de maio deste ano, após a operação Lava Jato ser deflagrada em 17 de março, e voltou ao Brasil no dia 25.

O monitoramento do fluxo de viagens dos investigados foi montado para comprovar que havia risco de deixarem o País, um dos fundamentos para justiçar a prisão cautelar dos alvos da Lava Jato.

Ao monitorar Marice, uma ex-funcionária do PT que já foi investigada no Mensalão por movimentar dinheiro a pedido do então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, a Lava Jato mirava indiretamente Vaccari.

O tesoureiro do PT foi apontado pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef – delatores da Lava Jato – como operador do esquema de propina para o partido na estatal. Ele atuava na Diretoria de Serviços e Engenharia, via o ex-diretor Renato Duque, segundo os delatores.

Indicado pelo ex-ministro José Dirceu, segundo três delatores do processo declararam nos autos da Lava Jato, Renato Duque foi um dos presos nessa sétima etapa da operação e teve sua prisão convertida em preventiva na terça-feira.

O executivo da OAS José Ricardo Nogueira Breghirolli, que havia sido preso temporariamente na sexta-feira, e agora vai ficar detido preventivamente, é apontado como o responsável por indicar um pagamento para a cunhada de Vaccari, em dezembro de 2013.

O Ministério Público Federal pediu a prisão de Marice Correa de Lima, mas o juiz federal Sergio Moro decidiu que ela deveria ser conduzida pelos policiais federal para depor.

A cunhada é suspeita de ter recebido R$ 110 mil do doleiro Alberto Youssef por indicação dos executivos da OAS.

Breghirolli consta de um organograma montado pela PF para demonstrar o caminho do dinheiro em que aparecem também Vaccari e Marice. O empresário também foi monitorado em suas viagens, como a que fez à Alemanha em setembro de 2014, quando os delatores já haviam confessado os crimes.

“Segundo as mensagens, José Ricardo orienta Youssef a efetuar uma entrega aos cuidados de sra. Marice, no dia 03/12/2013, às 14h30min, no endereço Rua Doutor Penaforte Mendes, 157, AP 22, Bela Vista”, diz relatório da PF.

Os policiais da Lava Jato assinalam que a destinatária daquela quantia era a cunhada de Vaccari. “Marice Correa de Lima é figura conhecida na época do mensalão, coordenadora administrativa do PT, que, na época, teria efetuado um pagamento de um milhão, em espécie a uma empresa”, registrou a PF no pedido de prisão da cunhada do tesoureiro do PT.

Vaccari tem negado reiteradamente envolvimento em esquemas de propina. Ele afirma que todas as doações para o partido são legais.