Parque do Anhangabaú (in memoriam)

Parque do Anhangabaú (in memoriam)

Júlio Moreno*

17 de agosto de 2020 | 08h00

Júlio Moreno. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Várzea de córrego, chácara de chá, “boulevard”, eixo central da ligação Norte-Sul, palco de manifestações pelas “Diretas Já”, o Vale do Anhangabaú sofreu sucessivas mudanças de paisagem e função no decorrer da história de São Paulo. No ano de 1991 tornou-se o maior espaço livre da cidade, concepção do arquiteto e urbanista Jorge Wilheim e da arquiteta paisagista Rosa Kliass e colaboradores, vencedores de concurso público de projeto dez anos antes. Como “repórter de cidades” do Jornal da Tarde nos anos 1970 e 1980, acompanhei de perto e tive participação incidental nesta mudança. Deixo aqui uma memória a respeito, às vésperas de a Prefeitura liberar o novo “cartão postal da cidade”, objeto de polêmica.

Naquela época, São Paulo passava por uma série de transformações como a construção do metrô, as reurbanizações, a atualização de seus instrumentos de planejamento e as novas tentativas de despoluição dos rios Tietê e Pinheiros. O Jornal da Tarde dedicava páginas inteiras para estes acontecimentos. O JT dava voz a entidades técnicas e comunitárias, promovia campanhas, enquetes e debates, enfim tinha um importante protagonismo como “jornal da cidade”.

As passarelas. FOTO: REPRODUÇÃO

Em 1980, a travessia de pedestres entre o “centro velho” e o “centro novo” da cidade, separados pelo Vale do Anhangabaú, se restringia ao Viaduto do Chá. O vale, em si, era território exclusivo dos automóveis e palco de muitos atropelamentos.  Para minimizar o problema, a Emurb (Empresa Municipal de Urbanização) divulgou em 16 de setembro proposta para a construção de seis passarelas sobre o vale, “com o objetivo de costurar o centro novo ao centro velho, unindo seus calçadões e facilitando a travessia de pedestres pela região”.

Logo no dia seguinte surgiram as primeiras críticas em debate realizado entre arquitetos e técnicos da empresa na sede paulista do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil), na época presidido por Cesar Bergstrom Lourenço. Muitos temiam a desfiguração do vale pelas seis passarelas, a ponto de alguém dizer, com sarcasmo, que elas pareciam “cadarços de sapato” como se o vale fosse um calçado. Outro foi mais sagaz: “a Prefeitura está tratando o vale não como um espaço público, mas como um espaço de uma empresa pública” – no caso a Emurb. A ideia de se promover um concurso público de projetos foi levantada pela primeira vez mas a entidade não fechou posição a respeito.

Edição do ‘JT’ de 13 de novembro de 1980

O arquiteto Luis Fingerman, manifestando-se na época, disse que seus colegas estavam, de uma forma bastante clara, se posicionando diametralmente opostos entre “planejadores” e os “planejados”. “E isto não é culpa dos profissionais: todos são vítimas do mesmo processo onde se tenta dar uma resposta burocrática e disciplinadora toda vez que a população usa seu direito e se apropria de um espaço, transformando-o em um lugar, coisas totalmente diferentes”.

Algumas pessoas cogitaram entrar na Justiça para impedir a concretização do projeto. Nesse clima, nos dias 2 e 3 de outubro, em reportagem de Raquel Melamet, o JT propôs uma discussão pública sobre as mudanças antes do fato consumado, ao contrário do que ocorrera com a reforma da praça da Sé. Outros veículos da imprensa seguiram o mesmo caminho. Simulando um debate público, a Emurb expôs o projeto na Galeria Prestes Maia distribuindo um “questionário” com perguntas dirigidas do tipo “Você prefere rampas suaves, escadas ou ambas como acesso às passarelas?”. Na verdade, soube-se depois, as obras de três passarelas já estavam decididas e acertadas, sem concorrência pública, com uma grande construtora, em troca de outro empreendimento suspenso pela administração.

O País vivia sob a ditadura e a população paulistana não podia eleger seu prefeito, ele era escolhido pelo governador, o que levou à criação da expressão “prefeito biônico”. Esse era o caso do engenheiro Reynaldo de Barros (1979-1982), nomeado pelo então governador Paulo Maluf. No início da noite do dia 13 de novembro, o prefeito me recebeu para uma entrevista em seu gabinete no Parque do Ibirapuera.

Edição do ‘JT’ de 14 de novembro de 1980

Eu já o havia abordado, em outras ocasiões, sobre as críticas a proposta para o Anhangabaú e a sugestão de um debate maior, mas ele sempre fincava pé na construção das passarelas. Naquele dia eu disse a ele que o abordaria pela última vez sobre o tema, recomendando que lesse artigo do arquiteto e historiador da cidade Benedito Lima de Toledo (falecido em 2019) que o Jornal da Tarde publicaria no dia seguinte.

No artigo “Por que não discutir?”, o arquiteto dizia que a ideia de encher o vale de passarelas mais parecia “guerra de serpentinas” entre os “dois centros” e não uma solução global para a região. “No espaço urbano, ocorre o princípio de vasos comunicantes. Tudo deve ser avaliado”.

“Será que não chegou a hora de se promover um belo concurso entre arquitetos (digo arquitetos, não empresas)?”, indagou Benedito Lima de Toledo. “A classe dos arquitetos está ávida em colaborar na solução dos problemas urbanísticos. Por que não lhes dar uma oportunidade?”, completou, lembrando que o IAB já dispunha de um corpo de normas que disciplinam iniciativas dessa natureza. “Todos sairiam ganhando, principalmente o povo, que poderia ver, aferir e opinar sobre a produção dos arquitetos”.

Artigo Benedito Lima de Toledo, de 14 de novembro de 1981

Reynaldo de Barros, para minha surpresa, não quis nem esperar pela leitura do jornal do dia seguinte: “Ótimo. Nota dez. Vou fazer isso”. Minutos depois, ligou para o presidente da Emurb, Octávio Speranzini, ordenando a suspensão do projeto das passarelas e a marcação de um encontro de ambos com o arquiteto.

Este artigo finaliza nesta terça-feira, 18.

*Júlio Moreno, 70 anos, é jornalista desde 1966. E-mail julio_moreno@outlook.com

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