Parque do Anhangabaú (in memoriam) – final

Parque do Anhangabaú (in memoriam) – final

Júlio Moreno*

18 de agosto de 2020 | 08h00

Júlio Moreno. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Este artigo complementa o primeiro, publicado nesta segunda-feira, 17.

O concurso público de projeto para a a definição das novas feição e função do Vale do Anhangabaú, realizado nos anos 80 do século passado, foi um dos maiores do gênero no Brasil. Depois que a Prefeitura aceitou a ideia, o ponto de partida foi dado em 23 de fevereiro de 1981, quando foram abertas as inscrições para o certame, patrocinado pela Emurb (Empresa Municipal de Urbanização) e realizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Inscreveram-se 155 profissionais, dos quais 93 efetivamente apresentaram propostas. Entre 31 de março e 3 de abril, eles participaram de seminário onde ouviram opiniões de vários segmentos da sociedade. No início de maio foi anunciado o júri do concurso: Eduardo Corona, Jon Adonis Maitrejean e Fernando Chacel, de São Paulo; Carlos Maximiliano Fayet, do Rio Grande do Sul; e Edgar Graeff de Brasília. E finalmente em 9 de junho de 1981, em cerimônia que lotou o auditório da Prefeitura, foi anunciado o projeto vencedor.

Ocupando meia página, o JT estampou na capa um esboço do concorrente . 17 com o título “Anhangabaú vira Parque”. Sua prancha lembrava premonitoriamente uma frase de George Bernard Shaw: “Você olha o que existe e se pergunta por quê? Eu imagino o que não existe e me pergunto por que não?

Capa do ‘JT’ de 10 junho de 1981, dia do anúncio do projeto vencedor do concurso

Em duas páginas internas o jornal detalhava o projeto. Em síntese, ele previa o rebaixamento das pistas de tráfego do vale entre os viadutos do Chá e Santa Efigênia, com a construção de dois túneis, sobre os quais seria construída uma laje para sustentar um parque de 7,7 hectares de área. “Nada de automóveis e pedestres brigando pelo espaço; nada de barulho de escapamentos interrompendo as conversas; nada de enchentes de verão. “Em vez disso, muito espaço para circulação de pessoas a pé, muitas árvores, bancos, jardins, um anfiteatro, creches…. “.. A nova paisagem do vale, diziam os autores, devolveria ao Anhangabaú a sua urbanidade.

Jorge Wilheim e Rosa Kliass já tinham feito diversos projetos em conjunto.  Ele, falecido em 2014, foi um urbanista de mão cheia, fez o primeiro plano diretor para uma cidade brasileira (Curitiba) e chegou a ser secretário-executivo da ONU-Habitat. Ela tem trabalhos consagrados em todo país e segue recebendo diversas condecorações como “grande dama” da arquitetura da paisagem no Brasil, a última dela o “Colar de Ouro” do IAB, no ano passado.  Da equipe faziam parte ainda os arquitetos Carmen Lydia Nogueira Rocha e Silva, Jamil José Kfouri, Jonas Birger, Marcelo Botter Martinez, Maria Lucinda Meirelles Aguiar e Michel Todel Gorski.  Além disso, houve diversos consultores.

Jorge Wilheim e Rosa Kliass

Em 1982, Reynaldo de Barros desincompatibilizou-se do cargo para concorrer a vice-governador na chapa, derrotada, de Paulo Maluf, seu padrinho político. Apesar de ter dito em 9 de junho de 1981 que tocaria a obra do Parque “o mais rápido possível”, saiu antes de propor projeto de lei para garantir a execução da proposta vencedora, o que evitaria a repetição da novela de planos que nunca saíram do papel. Seu sucessor, Antonio Salim Curiati (1982-1983), prometeu dar início à obras, mas voltou atrás, o que me levou a escrever em 14 de junho de 1982: “Tudo o que se discutiu sobre o Anhangabaú foi em vão? Todas as pessoas que se empenharam, de uma maneira ou outra, para solucionar os problemas dessa região, fizeram papel de idiotas?”

Ainda com a paisagem antiga, em 16 de abril de 1984 o vale abrigou uma das maiores manifestações da campanha “Diretas Já” reunindo mais de um milhão de pessoas. A passarela sob o Viaduto do Chá serviu de palco.

Não tivemos eleição direta para Presidente da República, mas dois anos depois a população de São Paulo voltou a escolher seu prefeito. E foi Jânio Quadros (1986-1988) que, enfim, deu início às obras do Parque Anhangabaú em 1988. Alguns dizem que uma de suas motivações foi acabar com o túnel “Buraco do Adhemar”, na confluência da avenida São João, ponto crítico de enchentes, construído pelo inimigo político Adhemar de Barros.

Foto do parque na época de sua inauguração, em 1991

Coube a Luiza Erundina (1989-1993), sua sucessora, inaugurar o Parque em dezembro de 1991, quando eu já trabalhava na Agência Estado.

O Jornal da Tarde circulou entre 1966 e 2012. Não chegou a cobrir a administração Fernando Haddad (2013-2016), que iniciou o novo processo da renovação do vale a ser entregue por Bruno Covas (no cargo desde 2018).

R.I.P. Parque do Anhangabaú (*1991 /+2020).

*Júlio Moreno, 70 anos, é jornalista desde 1966. E-mail julio_moreno@outlook.com

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