Para Celso de Mello, inquérito contra Bolsonaro remete ao escândalo Watergate, que levou à renúncia de Nixon

Para Celso de Mello, inquérito contra Bolsonaro remete ao escândalo Watergate, que levou à renúncia de Nixon

Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que Richard Nixon entregasse gravações e conversas internas da Casa Branca em processo que derrubou o ex-presidente americano em 1974

Rayssa Motta

23 de maio de 2020 | 10h44

O ex-presidente americano, Richard Nixon, e o presidente Jair Bolsonaro. Fotos: Acervo Estadão e Fábio Motta/Estadão

Ao tornar pública a gravação da reunião ministerial do governo federal de 22 de abril, peça-chave no inquérito que apura se houve tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), citou o caso Watergate como precedente para levantar o sigilo total do vídeo.

Na decisão desta sexta, 22, proferida exatamente um mês depois do encontro da cúpula governista, o decano lembrou o veredito unânime da Suprema Corte Americana que determinou que o ex-presidente Richard Nixon entregasse gravações em fita e outros materiais de natureza probatória – incluindo conversas internas da Casa Branca – no contexto de uma investigação criminal que terminou com a renúncia do republicano, em 1974. Nixon era suspeito de ter mandado espionar a sede do Partido Democrata em Washington.

Caso Watergate marcou embate entre imprensa e Executivo nos EUA e derrubou Richard Nixon. Foto: Acervo Estadão

A decisão, nas palavras do ministro Celso de Mello, ‘deixou assentado que o Presidente não pode proteger-se contra a produção de prova em um processo criminal com fundamento na doutrina do privilégio executivo’. “Aquela alta Corte acentuou que o Chefe de Estado (tal como sucede no Brasil) não está acima da autoridade das leis da República”, escreveu o decano.

A resolução sobre a liberação da gravação era aguardada com expectativa pelo Planalto. O Advogado-Geral da União, José Levi Melo, havia pedido o levantamento do sigilo apenas das declarações do presidente, de modo que fossem preservadas referências a outros países e manifestações dos demais participantes. O primeiro pedido foi atendido por Celso de Mello, mas os ministros não foram poupados.

O decano entendeu que não havia ‘qualquer expectativa de privacidade’ por parte dos participantes da reunião ministerial, ‘destinada a examinar questões de interesse geral, como o Plano pró-Brasil’. O programa, desenhado pela Casa Civil e Ministério da Infraestrutura, prevê investimentos públicos para a recuperação econômica pós-pandemia e acabou provocando desentendimentos com o ministro da Economia, Paulo Guedes, na reunião.

Celso de Mello defendeu ainda ‘não haver, nos modelos políticos que consagram a democracia, espaço possível reservado ao mistério’. Para o ministro do Supremo Tribunal Federal, ‘a supressão do regime visível de governo – que tem na transparência a condição de legitimidade de seus próprios atos e resoluções – sempre coincide com os tempos sombrios em que declinam as liberdades e transgridem-se os direitos fundamentais dos cidadãos’, destacou.

Celso de Mello chamou atenção ainda para ‘a ausência de decoro, materializada em expressões insultuosas, ofensivas ao patrimônio moral de terceiros, e em pronunciamentos grosseiros impregnados de linguagem inadequada e imprópria’ de alguns participantes do encontro.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub, que chamou os integrantes do STF de ‘vagabundos’ e pediu sua prisão, teria incorrido em aparente ‘prática criminosa’, segundo Mello.

A reunião foi marcada por palavrões, briga de ministros, anúncio de distribuição de cargos para o Centrão e ameaça do presidente Jair Bolsonaro de demissão ‘generalizada’ a quem não adotasse a defesa das pautas do governo. Participaram do encontro ao menos 40 pessoas, entre ministros, presidentes de bancos públicos, assessores especiais, ajudantes de ordens, cinegrafista e fotógrafo.

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