Os registros de pagamentos de propina a ‘Piloto’ e ‘Brigão’

Os registros de pagamentos de propina a ‘Piloto’ e ‘Brigão’

Setor de propinas guarda provas contra Beto Richa, ex-governador alvo de duas operações nesta terça-feira, revela laudo da PF de Curitiba

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

11 Setembro 2018 | 08h18

Um laudo pericial da Polícia Federal, em Curitiba, revela os registros de pagamentos de propinas da Odebrecht para o ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB), preso nesta terça-feira, 11, alvo de duas operações, uma do Ministério Público Estadual e outra da Operação Lava Jato.

Os pagamentos são dos anos de 2014, 2010, 2008 e estão identificados pelos codinomes “Piloto” e “Brigão”, usados pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, o departamento de propinas da empresa, para identificar Richa – atual candidato ao Senado pelo PSDB.

O laudo 1095/2018 da PF foi feito nas investigações que tem Richa como alvo. O ex-governador é o foco da nova fase da Lava Jato deflagrada nesta terça-feira, 11, a Operação Piloto – 53.ª fase. O ex-governador e candidato ao Senado pelo PSDB foi também alvo de uma operação do Ministério Público Estadual. Nesse caso, a Justiça do Estado decretou a prisão de “Piloto” e sua mulher.

Documento

Os pagamentos a Richa alvo da Operação Piloto são os de 2014, em que pelos menos R$ 3,5 milhões teriam sido destinado ao tucano, que concorreu naquele ano à reeleição no Estado. Segundo os delatores da Odebrecht, houve um acerto de R$ 4 milhões da empresa com o ex-governador pelo contrato de concessão da rodovia PR-323.

Segundo as delações e provas levantadas pela Lava Jato, foi revelado “pagamento de propinas pela empreiteira Odebrecht para obter favores ilegais relacionados à Parceria Público Privada (PPP) para exploração e duplicação da PR-323, entre os municípios de Francisco Alves e Maringá, durante o ano de 2014, cujo valor era de R$ 7,2 bilhões”.

Os delatores contaram que inicialmente, nos anos de 2008 e 2010, Richa era identificado nos documentos do setor de propinas da Odebrecht como “Brigão”. Mas em 2014, já era identificado como “Piloto” – uma referência ao seu gosto por pilotar carros de corrida.

Nos registros identificados no laudo da PF, a Odebrecht associa os pagamentos de 2014 ao contrato da “Rodovia PR 323”. Num deles, da liberação de R$ 500 mil efetuado em outubro de 2014, é acertada a entrega dos valores em um endereço de São Paulo para um operador e amigo de Richa, o empresário Jorge Atherino – identificado no setor de propinas como “Grego”.

Os pagamentos a “Piloto” em 2014 registrados nas planilhas, e-mails e documentos do setor de propinas periciado pela PF, mostram a liquidação dos R$ 2,5 milhões de propinas dos R$ 4 milhões prometidos, como revelaram os delatores da Odebrecht. Foram três pagamentos: um de R$ 500 mil e outros dois de R$ 1 milhão cada.

Há nos registros ainda o pagamento de R$ 100 mil para a campanha de prefeito de Richa em 2008, quando ele ainda era identificado como “Brigão”. E outros R$ 450 mil efetuados em 2010 para a campanha de governador, também no antigo codinome.

Rodovia. Na Operação Piloto, Richa é o principal alvo. O ex-diretor do Departamento de Estradas e Rodagem (DER) do Paraná Nelson Leal Júnior foi preso numa primeira etapa dessa investigação, em fevereiro. Ele fechou delação premiada com a Lava Jato e confessou um “esquema sistêmico de corrupção” no governo do PSDB.

COM A PALAVRA, BETO RICHA

Em nota divulgada anteriormente, Beto Richa nega irregularidades.

Nota de esclarecimento:

A defesa do ex-governador entende que as alegações do Ministério Público Federal não apresentam qualquer sustentação. O ex-governador sempre pautou suas ações baseado nos princípios legais.

A obra de duplicação da rodovia PR-323 nunca aconteceu. Também nenhum recurso público, de origem federal ou estadual, foi aportado na licitação. Não houve também qualquer direcionamento em licitação. Tanto é assim que a Corte Especial do STJ decidiu de forma unânime que tal investigação deva ocorrer na Justiça Eleitoral, na qual será comprovada, sem sombra de dúvidas, a lisura dos atos do ex-governador.

Infelizmente, tornou-se comum delatores apresentarem falsas afirmações na tentativa de se verem livres das penas que, certamente, serão condenados pelos graves crimes praticados.

Curitiba, 5 de setembro de 2018