‘O Estado é um bolo dividido em fatias’, diz assessora de deputado preso no Rio

‘O Estado é um bolo dividido em fatias’, diz assessora de deputado preso no Rio

Alcione Chaffin caiu no grampo da Operação Furna da Onça no dia 14 de setembro e foi presa nesta quinta, 8, com o parlamentar Marcos Abrahão (Avante)

Julia Affonso e Roberta Pennafort/RIO

08 Novembro 2018 | 17h30

A chefe de gabinete do deputado Marcos Abrahão (Avante), preso na Operação Furna da Onça, nesta quinta-feira, 8, foi alvo de interceptação telefônica da Polícia Federal. Em uma conversa no dia 14 de setembro com um homem identificado como ‘Salvador’, a assessora Alcione Chaffin ‘detalha as áreas de ingerência do parlamentar e como a divisão do Estado entre os parlamentares funciona como um bolo dividido em fatias’. A chefe de gabinete também foi presa na investigação que mira um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e mão de obra terceirizada em órgãos da administração estadual.

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Furna da Onça faz referência a uma sala anexa ao plenário da Assembleia Legislativa do Rio, onde deputados se reúnem para conversas reservadas. Ali, os parlamentares fecham combinações secretas que resultam em decisões individuais antes das votações, momento conhecido no Legislativo fluminense como a hora da ‘onça beber água’.

O diálogo alvo da PF, que pegou a assessora Alcione Chaffin durou 17 minutos e começou às 13h21 do dia 14 de setembro. Cinco minutos após o início, Alcione falou ao interlocutor sobre ‘emprego’.

“Ele pode te arrumar emprego se você quiser trabalhar em Itaboraí, Rio Bonito, Cachoeira de Macacu, é, Tanguá, Silva Jardim ou Casimiro de Abreu. Escolhe o município que ele te arruma”, afirma.

‘Salvador’ responde. “Por quê? Aqui no Rio (de Janeiro) ele não tem legitimação, não?”

“Não, meu amor. Não. Ele não tem ingerência aqui no Rio. Aqui no Rio ele não tem nada. Você sabe que. Explica pro Mauro. Explica pro Mauro. Um dia eu vou ter a oportunidade de te explicar que o Estado é um bolo. Ele é dividido em fatias. Cada um tem uma fatia e a fatia dele não é aqui. Ele não é daqui. Entendeu? Ele indica pessoas em Itaboraí, Rio Bonito, é, Silva Jardim, Casimiro de Abreu. Ele indica. Ele dá emprego pra caramba. Ele arruma emprego pra um monte de gente, mas nessas áreas. Aqui no Rio não é área dele”, explica a chefe de gabinete.

Os dez deputados são investigados por uso da Assembleia Legislativa do Rio a serviço do esquema atribuído ao ex-governador do Estado Sérgio Cabral (MDB). Segundo o Ministério Público Federal, os parlamentares recebiam propina mensal (‘mensalinho’) durante o segundo mandato do emedebista (2011-14). A Furna da Onça aponta que a propina resultava do sobrepreço de contratos estaduais e federais.

Além de Marcos Abrahão foram presos os deputados André Correa (DEM), Edson Albertassi (MDB, nova ordem de prisão, mas já estava custodiado em Bangu), Chiquinho da Mangueira (PSC), Coronel Jairo (MDB), Jorge Picciani (MDB, nova prisão, continuando em domiciliar), Luiz Martins (PDT), Marcelo Simão (PP), Marcus Vinícius “Neskau” (PTB) e Paulo Melo (MDB, nova prisão, mas já estava custodiado em Bangu).

O secretário de Governo, Affonso Monnerat, foi preso pela PF. O presidente do Detran/RJ, Leonardo Silva Jacob, e seu antecessor Vinícius Farah, recém-eleito deputado federal pelo MDB, ainda não foram localizados.

Também foram presos seis assessores da Assembleia: Alcione Chaffin Andrade Fabri (ligada a Marcos Abrahão), Daniel Marcos Barbiratto de Almeida (ligado a Luiz Martins), Jorge Luis de Oliveira Fernandes (ligado ao Coronel Jairo), José Antonio Wermelinger Machado (ligado a André Correa), Leonardo Mendonça Andrade (ligado a Marcos Abrahão) e Magno Cezar Motta (ligado a Paulo Melo).

A PF capturou ainda a diretora de Registros do Detran Carla Adriana Pereira, a atual subsecretária na Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social, Shirlei Aparecida Martins da Silva (ligada a Edson Albertassi), e Jennifer Souza da Silva (ligada a Paulo Melo).

A Furna da Onça é um desdobramento da Operação Cadeia Velha – deflagrada em novembro de 2017.

“As investigações contam uma história: a de como o ex-governador neutralizou, com propina e outras vantagens ilícitas, o controle que os deputados estaduais deveriam exercer sobre o Executivo, e, com isso, a organização criminosa se espalhou por vários órgãos e entidades do estado, provocando o sucateamento dos serviços prestados à população”, afirmam os procuradores Andréa Bayão, Carlos Aguiar e José Augusto Vagos (MPF/2ª Região) e Leandro Mitidieri e Renata Ribeiro Baptista (MPF/RJ), autores da petição e que também pediram o afastamento dos deputados de seus cargos.

O nome Furna da Onça faz referência a uma sala ao lado do plenário da Alerj, onde deputados se reúnem para ter conversas reservadas, destinada às combinações secretas que resultam em decisões individuais antes das votações, momento conhecido como a hora da “onça beber água”.

A reportagem está tentando contato com os citados. O espaço está aberto manifestação.

“Mensalinhos” e “prêmios” pagos na Alerj, segundo o Ministério Público Federal

– André Correa (DEM): R$ 100 mil/mês
– Edson Albertassi (MDB): R$ 80 mil/mês + R$ 1 milhão
– Chiquinho da Mangueira (PSC): mais de R$ 3 milhões
– Coronel Jairo (SD): R$ 50 mil/mês + prêmio
– Jorge Picciani (MDB): R$ 400 mil/mês + prêmio
– Luiz Martins (PDT): R$ 80 mil/mês + R$ 1,2 milhão
– Marcelo Simão (PP): R$ 20 mil/mês
– Marcos Abrahão (Avante): R$ 80 mil/mês + R$ 1,5 milhão
– Marcus Vinicius “Neskau” (PTB): R$ 50 mil/mês
– Paulo Melo (MDB): R$ 900 mil/mês + prêmio

COM A PALAVRA, O DETRAN

O Detran-RJ está à disposição das autoridades para qualquer esclarecimento. O presidente Leonardo Jacob esclarece que se apresentará hoje à polícia, de acordo com os procedimentos legais.

COM A PALAVRA, JORGE PICCIANI

“O Ministério Público, mais uma vez, tenta criar um fato sem provas para me envolver num enredo do qual não sou personagem. Basta folhear as páginas da denúncia para ver as contradições ali constantes. O delator Carlos Miranda, por exemplo, deixou claro que durante minha presidência da Alerj no primeiro mandato do governador Sergio Cabral não houve nenhum pagamento para mim nem qualquer irregularidade. Na segunda gestão de Cabral eu não exercia mandato. A peça hoje apresentada pelo Ministério Público não prova meu envolvimento em nenhuma das supostas irregularidades apontadas, até porque não participei. A única justificativa para o MP envolver meu nome nessa tramoia é que meus advogados estão concluindo as alegações finais que irão comprovar minha inocência.”

COM A PALAVRA, O ADVOGADO MARCIO DELAMBERT MIRANDA FERREIRA, QUE DEFENDE EDSON ALBERTASSI

“O deputado nunca participou de qualquer ato criminoso durante seus mandatos e reafirma sua inocência.”

COM A PALAVRA, CHIQUINHO DA MANGUEIRA

“O deputado Chiquinho da Mangueira, através de sua assessoria, declara que todas as acusações imputadas a ele através da operação “Furna da Onça”, realizada pela Polícia Federal, que o levou a prisão temporária no dia de hoje, são infundadas e totalmente inverídicas. Segundo o advogado Pablo Andrade, da equipe jurídica de Chiquinho da Mangueira, a medida foi completamente desarrazoada e ficará demonstrado que não houve qualquer ato ilícito praticado pelo deputado.”

COM A PALAVRA, MARCUS VINÍCIUS NESKAU

A assessoria de comunicação do deputado Marcus Vinícius Neskau (PTB) afirma que o parlamentar recebeu a ordem de prisão temporária com muita indignação e estranheza, justo em um período de articulações políticas sobre a votação para a próxima composição da Presidência da Alerj – onde o deputado já havia se manifestado pelo voto a favor do deputado André Corrêa. No entanto, o parlamentar segue seu compromisso com a população de dar transparência a seu mandato, afirmando sua inocência e colaborando com todas as investigações, prestando todos os esclarecimentos à Polícia Federal, Ministério Público e Justiça.

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