Moraes mantém delegada da PF que quis abortar operação contra bolsonaristas no comando de investigação sobre atos antidemocráticos

Moraes mantém delegada da PF que quis abortar operação contra bolsonaristas no comando de investigação sobre atos antidemocráticos

Pedido de afastamento da delegada, feito pela Procuradoria-Geral da República, não será aceito pelo ministro

Breno Pires/BRASÍLIA

19 de junho de 2020 | 22h06

A delegada da Polícia Federal Denisse Dias Rosas Ribeiro, que solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão ou o adiamento de uma operação contra aliados do presidente Jair Bolsonaro, seguirá no comando da investigação sobre a organização de atos antidemocráticos. O Estadão apurou que um pedido de afastamento da delegada, feito pela Procuradoria-Geral da República (PGR), não será aceito pelo ministro relator, Alexandre de Moraes.

A controvérsia começou quando Denisse Ribeiro enviou a Moraes, no último dia 4, um ofício no qual pedia mais tempo para se manifestar sobre quais diligências deveriam ser feitas no caso. A delegada alegou, na ocasião, que o cumprimento das ordens representaria “risco desnecessário para as vítimas em potencial e para a própria estabilidade das instituições”. Moraes não aceitou, mas a delegada da PF ganhou mais dez dias para realizar a operação.

A manifestação da PF causou estranheza na Procuradoria-Geral da República e foi vista como o motivo do atraso na realização da operação, que, apesar de autorizada em 27 de maio, só foi realizada na terça-feira, 16.

O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) e outros 20 apoiadores bolsonaristas foram alvos de busca e apreensão. YouTube, Facebook e Instagram foram solicitados a enviar um relatório sobre o financiamento de páginas mantidas pelos alvos da operação. Além disso, dez deputados, incluindo Silveira, Carla Zambelli (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF), e um senador tiveram sigilo bancário e telemático quebrado.

Os deputados federais Daniel Silveira (PSL-RJ), Junio do Amaral (PSL-MG), Otoni de Paula (PSC-RJ), Caroline de Toni (PSL-SC), Carla Zambelli (PSL-SP), Alessandra da Silva Ribeiro (PSL-MG), Beatriz Kicis (PSL-DF), General Girão (PSL-RN), José Guilherme Negrão Peixoto (PSL-SP) e Aline Sleutjes (PSL-PR) tiveram sigilos fiscais quebrados por Alexandre de Moraes. Fotos: Reprodução/Câmara dos Deputados

Alguns dos investigados estavam morando em acampamentos situados na Esplanada dos Ministérios que foram desmantelados no sábado, 13, pelo governo do Distrito Federal. Com o adiamento da operação, portanto, a Polícia Federal não pôde devassar o local onde alguns alvos estavam originalmente acampados.

Em seu primeiro pedido após o episódio, a delegada solicitou nesta sexta-feira, 19, a renovação por mais cinco dias da prisão temporária da extremista de direita Sara Giromini e de mais quatro integrantes do grupo ‘300 do Brasil’, que reivindica intervenção militar e fechamento do Supremo e do Congresso. A PGR concordou e o ministro Alexandre de Moraes autorizou a prorrogação.

Segundo Denisse Ribeiro, ainda não foi concluída a análise dos materiais apreendidos, podem ser necessários depoimentos e a soltura, neste momento, poderia permitir que os investigados combinassem versões sobre os fatos. Além disso, a delegada frisou que os cinco detidos vinham promovendo constrangimento de instituições. Um sexto alvo de mandado de prisão está foragido e, por isso, no caso dele, ainda não foi pedida a prorrogação.

 Sem troca. Denisse integra um grupo de quatro delegados que auxiliam os trabalhos de Alexandre de Moraes nessa investigação e no inquérito sobre ameaças, ofensas e fake news disparadas contra integrantes do STF e seus familiares. As investigações são conduzidas por Igor Romário de Paula, que fez parte da Lava Jato em Curitiba e é tido como um aliado do ex-ministro Sérgio Moro. Depois que Moro acusou Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF, Alexandre de Moraes decidiu blindar a equipe e impedir que os delegados fossem trocados em meio à substituição no comando da corporação.

O presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Edvandir Paiva, defendeu Denisse Ribeiro. “A pergunta crucial para mim é: a delegada agiu politicamente para evitar uma investigação? Eu tenho certeza absoluta que não agiu. Tanto pelo histórico da delegada, como pela absoluta pertinência técnica da manifestação dela ao Juízo. Ela só quis fazer uma investigação organizada e técnica”, disse Paiva ao Estadão.

Em nota, Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) demonstrou “preocupação com a notícia do atraso no cumprimento de diligências determinadas pelo Supremo Tribunal Federal”.

“A justificativa aparentemente presentada para postergação das diligências, baseada na necessidade de formulação de hipóteses criminais e elementos de interesse, não encontra amparo no ordenamento jurídico vigente e impõe dificuldades inéditas para a realização de exames pela perícia oficial, fatos que podem trazer prejuízo a um processo penal eficiente e técnico”, disse Marcos Camargo, presidente da APCF.

A reportagem pediu à assessoria de imprensa da Polícia Federal um comentário da instituição e da delegada sobre o pedido da PGR, mas nenhuma manifestação foi enviada. O Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria-Geral da República também não comentaram o assunto.

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