Milton Ribeiro tentou emplacar pastor Arilton no Ministério da Educação

Milton Ribeiro tentou emplacar pastor Arilton no Ministério da Educação

Em relato à CGU, atual ministro da Educação, Victor Godoy Veiga, disse que o religioso não gostou da remuneração

Julia Affonso, Pepita Ortega, Rayssa Motta e Fausto Macedo

27 de junho de 2022 | 15h39

Reunião do ministro da Educação Milton Ribeiro com prefeitos em Brasília, com a presença dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura na organização. Foto: Instagram Milton Ribeiro – 13/01/2021

BRASÍLIA – Relatório da Controladoria-Geral da União (CGU) aponta que o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro tentou emplacar o pastor Arilton Moura em seu gabinete. A informação foi relatada ao órgão pelo atual comandante do MEC, Victor Godoy Veiga. O “gabinete paralelo” instalado no MEC foi revelado pelo Estadão em março.

Segundo o parecer, Veiga contou que a “intenção inicial” de Ribeiro “era nomear o próprio pastor Arilton Moura para um cargo no MEC”. Como não havia disponibilidade no gabinete do ministro, Veiga – à época secretário-executivo do ministério – disse que ofereceu um outro cargo.

O documento destaca que Arilton Moura chegou a ser entrevistado pelo secretário-executivo adjunto do MEC, José de Castro Barreto Júnior. A vaga disponível era para ser assessor, com um salário de R$ 10.373,30, em uma das quatro diretorias da secretaria-executiva.

“O pastor Arilton mostrou-se descontente com a remuneração do cargo”, relata a CGU. “Teria externado sua insatisfação, inclusive, na frente de outros servidores da pasta, em reuniões do MEC que contaram com a presença do ministro Milton Ribeiro e requereu que lhe fosse disponibilizado outro com melhor vencimento.”

A nomeação foi  barrada pela Casa Civil. De acordo com a CGU, o ministério disse ao MEC que “os resultados das pesquisas de informações a respeito do postulante ao cargo não foram favoráveis à nomeação”.

A solução encontrada foi a nomeação do advogado Luciano de Freitas Musse. Segundo o chefe de gabinete do ministro no MEC, Djaci Vieira de Sousa, contou que já se sabia internamente que Musse tinha feito parte da comitiva dos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos.

No relator, o ministro da Educação, Victor Godoy Veiga, ainda relatou que tentou demover Milton Ribeiro da ideia de usar os pastores como intermediários dos encontros com prefeitos, “afirmando ser desnecessária essa mediação”. Segundo Veiga, ele “não obteve sucesso com essas considerações”.

Antes de ocupar o cargo no MEC, Musse acompanhava os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura em agendas no gabinete de Milton Ribeiro. No dia 6 de janeiro de 2021, os registros oficiais da pasta mostram uma “visita de cortesia” de Arilton em que ele estava acompanhado pelo advogado. O solicitante do encontro foi o pastor. Em ao menos outras quatro agendas oficiais, a presença de Musse como integrante da comitiva dos pastores também é registrada.

Luciano Musse foi alvo de um mandado de prisão domiciliar na semana passada, na Operação Acesso Pago. O advogado, os pastores, Milton Ribeiro e Helder Bartolomeu – genro de Arilton Moura – foram soltos por ordem do desembargador Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).

O juiz Renato Borelli, da 15.ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, mandou a Polícia Federal apreender o computador usado pelo advogado Luciano Musse na Secretaria Executiva do Ministério da Educação. A PF havia pedido a captura do equipamento para a “realização de perícia técnica no “HD” com o fim de encontrar conteúdo ou dados que possam indicar a prática de crime e individualizar outros envolvidos”.

A defesa do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro sustenta que nem o aliado do presidente Jair Bolsonaro, ‘nem ninguém tinha e ou tem poder para favorecer pessoas, cidades ou Estados’ dentro do MEC. A alegação se choca com a Operação Acesso Fácil, da Polícia Federal, que indica que Ribeiro deu “prestígio” à atuação dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura. Segundo prefeitos, os religiosos pediam propina em dinheiro, bíblia e até em barra de ouro para liberar verbas da pasta – como revelou o Estadão.

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