Justiça bloqueia R$ 2,1 milhões de médico que acorrentou homem negro em Goiás

Justiça bloqueia R$ 2,1 milhões de médico que acorrentou homem negro em Goiás

Márcio Antônio Souza Junior foi denunciado pelo Ministério Público de Goias por racismo após divulgar, em fevereiro, vídeo de um homem negro de 37 anos com os pés, os pulsos e o pescoço acorrentado; segundo a polícia, ele era funcionário do médico

Pepita Ortega

26 de maio de 2022 | 09h50

Um homem negro de 37 anos teve os pés, os pulsos e o pescoço acorrentado pelo médico Márcio Antônio Souza Júnior, na zona rural de Goiás, município a 140 quilômetros de Goiânia. Foto: Reprodução/redes sociais

A 3ª Promotoria de Justiça de Goiás denunciou o médico Márcio Antônio Souza Junior por filmar e divulgar nas redes sociais um vídeo de um homem negro de 37 anos com os pés, os pulsos e o pescoço acorrentado. Na gravação, o médico afirmou: “Ai ó, falei para estudar, ele não quer… E vai ficar na minha senzala”. O Ministério Público goiano imputa a Souza Junior crime de discriminação e preconceito de raça e de cor – racismo.

Segundo o MP, Márcio Antônio Souza Junior divulgou ‘cena que remonta ao período escravocrata brasileiro, com a objetificação do ser humano em razão da cor da pele, da raça e da condição social’. A denúncia apresentada na segunda-feira, 23.

Como mostrou o Estadão, o caso ocorreu em fevereiro. Após a repercussão do vídeo, Márcio Antônio divulgou uma outra gravação dizendo que o episódio se tratava de uma ‘brincadeira’: “e aí, camarão! O povo está enchendo o saco. O que você fala disso?”, o homem responde: “tem nada de escravidão, não gente.”

No mesmo dia, um terceiro vídeo foi gravado pelo médico: “Gostaria de pedir desculpas se alguém se sentiu ofendido, foi uma encenação teatral”. Segundo informou a polícia à época, o homem acorrentado era funcionário do médico há três meses.

A pedido da Promotoria, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 2,1 milhões em bens do médico. O montante é correspondente ao valor estimado pelo MP – R$ 2.166.312,00 – que Souza Junior pode ter de arcar, considerando ‘indenização por danos morais coletivos, penas criminais e custas judiciais’.

Material usado pelo médico para acorrentar o empregado, segundo a Promotoria. Foto: MP-GO

Segundo o promotor, Leonardo Seixlack Silva, foi elaborado um ‘levantamento minucioso’ dos bens do médico para ‘garantir o pagamento de eventual aplicação de penas restritivas de direito de cunho patrimonial, como a perda de bens e valores e a prestação pecuniária, a multa penal, o valor mínimo de indenização pelo dano moral coletivo e custas processuais’.

Um pedido de arresto prévio dos bens imóveis do médico foi apresentado à Justiça goiana no dia 30 de abril, considerando ‘risco de blindagem patrimonial’ e visando ‘assegurar o futuro cumprimento de sanções’ que podem ser impostas a Márcio Antônio Souza Junior.

De acordo com o MP, foram bloqueados sete imóveis encontrados no nome do médico em Goiás – três urbanos e quatro rurais. A medida foi autorizada no último dia 6.

A Promotoria alegou que a solicitação de arresto prévio dos bens era necessária em razão de os imóveis estarem com valores desatualizados nos registros oficiais.

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