Marcelo detalha e-mails que ‘complicaram’ Lula nas propinas da Odebrecht

Marcelo detalha e-mails que ‘complicaram’ Lula nas propinas da Odebrecht

Ouvido no processo do sítio de Atibaia, empresário e delator diz que provas de que o ex-presidente sabia da conta 'Italiano' de R$ 200 milhões ao PT estão registradas nas mensagens trocadas entre ele e seus executivos

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

08 Novembro 2018 | 05h00

O empresário Marcelo Odebrecht detalhou à Justiça Federal, em Curitiba, em depoimento nesta quarta-feira, 7, os e-mails e mensagens que “complicaram” Luiz Inácio Lula da Silva nos supostos acertos de propinas com a Odebrecht, registrados na planilha “Italiano”, de R$ 200 milhões, nas obras de reforma no sítio de Atibaia (SP).

“O que complicou muito a vida de seu cliente (Lula) não foram os meus relatos, foram meus e-mails”, afirmou Odebrecht, ao ser questionado pelo defensor de Lula, o advogado Cristiano Zanin Martins, durante interrogatório no processo do sítio – que a Lava Jato diz ser de Lula, ele nega. Nesse processo, o petista responde por corrupção e lavagem pela reforma no imóvel de mais de R$ 1 milhão feita pelas empresas Odebrecht, OAS e Schahin.

Marcelo e o pai, Emílio Odebrecht, e o ex-executivo do grupo Alexandrino Ramos Alencar foram ouvidos nesta quarta-feira pela juíza federal Gabriela Hardt, que temporariamente assumiu os processos da Lava Jato – com a saída do titular Sérgio Moro, para ser ministro da Justiça do governo eleito de Jair Bolsonaro (PSL).

Um dos fatos seriam relacionados a dois momentos que Emílio Odebrecht teria falado com Lula em 2010, ano em que o sítio de Atibaia (SP) foi comprado por amigos dos filhos do ex-presidente e reformado por empreiteiras do cartel. O empresário disse que os valores foram debitados da conta de R$ 200 milhões, registrada na planilha “Italiano”, gerenciada por Antonio Palocci – o ex-ministro de Lula e Dilma Rousseff que também virou delator.

“E-mail que mando para o Brani em 23 de agosto de 2010 diz assim: Por favor, diga ao chefe que do valor a que meu pai se referiu um terço são referentes ao apoio direto das bases, que não passa por ele. Daí o valor 50% maior citado por meu pai. Toda a minha relação indireta com Lula foi através de Palocci no contexto da planilha Italiano”, afirmou Marcelo, no seu depoimento.

Brani era Branislav Kontic, o braço direito de Palocci. Os e-mails foram anexados pela defesa de Odebrecht no início do ano no processo, como prova do que ele afirmou em sua delação premiada, homologada em janeiro de 2017.

“De 2008 a 2010, eu e Palocci, referendados por meu pai e Lula, acabamos acertando um valor que chegou a R$ 200 milhões, mais ou menos. Dois desse valores eram contrapartidas específicas ao Refis da Crise e o assunto de uma linha de crédito para Angola, que está sendo investigado no STF”, falou Odebrecht – os fatos fazem parte da delação premiada do empresário.

O empresário e delator diz que ainda vai anexar mais e-mails ao processo. Um deles sobre tentativas de cobranças adicionais de propina, que teria relação com a obra da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que teriam sido negadas, por valores já contemplados nos R$ 200 milhões.

“Teve alguns pedidos de propina que inclusive foram negados com base na existência da planilha Italiano e que imagino que outras empresas acabaram tendo que pagar. Por exemplo: a questão de Belo Monte, a questão de sondas.”

Odebrecht diz que os e-mails são registros de que Lula sabia da conta Italiano. “Uma das maneiras que consegui de evidência que Lula conhecia a conta corrente com Palocci (nunca conversei com Lula sobre isso) foi a anotação em que cheguei a meu pai em 2010 e disse assim: meu pai, é bom você avisar a Lula que já acertei 200 milhões com Palocci, sendo 100 milhões já pagos e 100 milhões de saldo.”

O delator entregou também e-mails dele discutindo sobre a reforma do sítio. Em um deles, quem escreve é o engenheiro de confiança da Odebrecht Emyr Diniz, que também é delator, e depôs nesse processo na segunda-feira, junto com Armando Paschoal, ex-executivo e delator, responsável pela área que fez a obra. Eles confessaram terem sido escalados para realizar a reforma e que o dinheiro saiu do setor de propinas da Odebrecht.

Nos e-mails de Marcelo, os assuntos “obras sítio” e outros casos supostamente ligados aos acertos entre os Odebrecht e Lula estão registrados, como “terreno Instituto” e “estádio Corinthians”.

O empresário é réu no processo em que Lula é acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Preso desde o dia 7 de abril, condenado a 12 anos e um mês no processo do caso triplex do Guarujá (SP), o ex-presidente tem duas ações em andamento na Lava Jato. A segunda, em fase final, é a de propinas da Odebrecht na compra de uma terreno para ser sede do Instituto Lula e de um apartamento usado pela família do petista, em São Bernardo do Campo. O caso do sítio foi o terceiro processo aberto.

O material entregue pelo empreiteiro foi entregue por seus advogados e foi levantado, após a progressão do regime fechado para o domiciliar, em 19 de dezembro de 2017, quando “teve acesso a um HD contendo o espelhamento de seu computador apreendido”. Foi “quando passou a realizar buscas por mais elementos de corroboração dos fatos relatados no acordo por ele celebrado” com a força-tarefa Lava Jato.

Reforma do sítio de Atibaia era para ‘pessoa física de Lula’, diz Marcelo Odebrecht
Fausto Macedo
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Reforma do sítio de Atibaia era para ‘pessoa física de Lula’, diz Marcelo Odebrecht

Interrogado nesta quarta, 7, pela juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sérgio Moro na Lava Jato, o empresário disse que ‘seria a primeira vez que a gente estaria fazendo uma coisa pessoal’ para o petista

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Paulo Roberto Netto

07 Novembro 2018 | 19h56

Lula. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

Em interrogatório nesta quarta-feira, 7, o empresário Marcelo Odebrecht, delator da Operação Lava Jato, afirmou que as reformas do sítio de Atibaia, no interior de São Paulo, estavam ligadas à ‘pessoa física’ do ex-presidente LulaO petista é réu em ação penal por corrupção e lavagem de dinheiro, por supostamente ter recebido propinas da Odebrecht e da OAS em reformas e melhorias da propriedade rural. Ele será interrogado no dia 14. O empreiteiro também é réu neste processo.

À juíza federal Gabriela Hardt, sucessora de Sérgio Moro nos processos da Lava Jato, o empreiteiro contou que soube do sítio de Atibaia quando ‘a obra já estava em andamento’, em 2010. Odebrecht citou o ex-executivo do Grupo Alexandrino Alencar e seu pai Emílio Odebrecht.

“Deve ter sido lá para final de dezembro, em algum momento eu soube não sei se por Alexandrino, pelo meu próprio pai ou por alguém que eu me encontrei. Em algum momento eu soube, no início, eu, inclusive, reagi, fui contra por duas razões específicas. Eu até reclamei porque primeiro eu achava que eu achava que era uma exposição desnecessária, porque seria até então, fora a questão que eu já sabia que havia, que eu também tinha me posicionando contra, mas que era uma coisa bem antiga, que era o assunto do irmão, o apoio ao irmão, mas pelo que eu soube era uma coisa bem antiga e que foi renovado, chegou um momento eu acho que acabou, fora essa questão, seria a primeira vez que a gente estaria fazendo uma coisa pessoal para o presidente Lula”, disse.

Ele citou a história de um terreno em São Paulo que sua empreiteira iria adquirir para supostamente alojar as dependências do Instituto Lula – episódio que sustenta uma outra acusação da força-tarefa da Lava Jato contra o ex-presidente.

“Até então, por exemplo, tinha tido o caso do terreno do Instituto. O terreno do Instituto, bem ou mal, era para o Instituto Lula não era para a pessoa física dele (Lula)”, seguiu Odebrecht em seu relato à juíza.

“Quando eu vi lá, que eu soube, tinha um bando de gente trabalhando na obra (do sítio). Quer dizer, a dificuldade de você manter isso em sigilo, em algum momento vazar, era enorme. Outra coisa, que é uma coisa mais pragmática, eu tinha uma discussão com meu pai, que o alinhamento que eu tinha com ele era de que tentasse todo acordo que ele fizesse com Lula, passar pelo contexto da planilha Italiano. Quer dizer, o conta corrente que eu tinha com Palocci, para que a gente não pagasse duas vezes.”

O ex-presidente está preso em Curitiba desde 7 de abril. Ele cumpre pena de 12 anos e um mês de reclusão, no processo do caso triplex, também por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O petista nega enfaticamente ter recebido valores ilícitos da empreiteira.

Durante a audiência, Gabriela Hardt perguntou a Marcelo Odebrecht se Lula ‘tinha ciência da reforma que estava sendo custeada em parte pela Odebrecht’.

“Ah tinha, com certeza. E, olha, ele sabia que tinha. Eu não escutei isso de Lula, mas meu pai sempre deixou isso claro para mim que ele sabia que estava sendo custeado e, dentro de casa, todos nós entendíamos que aquele sítio era de Lula”, disse o delator.

“O que eu soube foi que esse pedido chegou via Alexandrino, foi autorizado por meu pai e a obra era para o sítio do presidente. Não entrei nos outros detalhes.”

Em outro trecho de seu interrogatório, o empresário disse que reclamou com seu pai sobre ‘valores muito altos’ que o PT, via ex-ministro Antônio Palocci, pedia ao grupo. Numa dessas ocasiões, o patriarca da Odebrecht teria dito ao próprio Lula que o pessoal do PT ia ‘da boca de jacaré para boca de crocodilo’.

“De fato, em vários momentos reclamei de valores muito altos. Falei com meu pai e, de alguma maneira, ele ia lá e reclamava com o Lula. De fato, não foi uma ou duas vezes só que fui reclamar com meu pai das demandas do Palocci, mais o Palocci, que estavam muito altas.”

A juíza questionou Marcelo Odebrecht se, em determinada reunião, houve discussão sobre contratos de interesse da empresa.

“Eu não diria contratos, na verdade, a gente tratou os temas. A gente nunca discutiu, eu, acho que meu pai também, nunca discutiu detalhe de contrato com o presidente. A gente foi discutindo, a agenda é bem clara”, disse.

“Foram os temas que a gente achava relevante da relação, seja da Odebrecht com o Governo, seja da Odebrecht com outros países de Geopolítica brasileira, alguns temas que a gente sempre levava para contribuir com o presidente de maneira institucional, com o país. Quer dizer, não foi nada a ver com contrato. Eu, pelo menos, eu acho que, meu pai também, nunca discutimos contratos, essas coisas, com os presidentes.”

A magistrada perguntou a Odebrecht se, no início do Governo Lula, ele participou de reuniões para ‘reclamar de dificuldades com diretoria de Petrobrás’.

“Não, não participei dessas reuniões. Essas reuniões foram mais no contexto da Braskem. Em relação à Petrobrás, por exemplo, eu tinha uma discordância com meu pai. Eu sempre entendi que Petrobrás devia ser tratada pelos executivos que lidavam com a Petrobrás, junto aos diretores. Se isso incluía fazer contribuição política, eles que deviam avaliar”, relatou.

“Eu nunca levei, nunca tratei esse assunto Petrobrás por cima, digamos assim. Eu achava que isso devia ser conduzido pelos executivos. Meu pai tinha uma visão um pouco diferente. Ele gostava do tema Petrobrás, principalmente relativo a relação Petrobrás com Braskem, então, ele costumava ter o tema Petrobrás na agenda dele com o presidente. Não estou dizendo que tratava-se nada ilícito, mas que o tema Petrobrás de modo geral, na agenda com o presidente.”

Durante a audiência, o Ministério Público Federal perguntou ao delator se ele sabia que os ‘líderes empresariais tinham que efetuar pagamento no interesse do PT, PMDB, PP, no âmbito das diretorias da Petrobrás’.

“Eu seria ingênuo se eu dissesse que eu não sabia. Eu confirmo que eu tinha ciência”, declarou.

Empresário diz que advogado de Lula quis regularizar reforma

Em depoimento à juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro na Lava Jato, o executivo Alexandrino Alencar afirmou que Roberto Teixeira, advogado e amigo do ex-presidente Lula, teria arranjado uma reunião em fevereiro de 2011 para regularizar a obra do sítio de Atibaia após a conclusão das obras.

“O doutor Roberto Teixeira pediu para eu dar um pulo no escritório dele. Eu fui lá e ele disse: ‘Alexandre, foi feita a reforma, agora precisamos regularizar’”, disse Alencar. “No dia 1º de março, estive lá com o Emir Costa, que era o diretor do contrato da obra, de onde foi solicitado para fazer um contrato do subempreiteiro Carlos Prado Rodrigues com o senhor Fernando Bittar para regularizar a obra”.

Fernando Bittar, filho do político Jacob Bittar, era então o proprietário formal do sítio, narrou o empresário. Alencar afirmou que foi negociado que o subempreiteiro emitiria uma nota fiscal descrevendo a reforma no sítio e também outros documentos relativos aos materiais usados durante as obras.

O advogado Roberto Teixeira nega enfaticamente qualquer envolvimento com a reforma do sítio em Atibaia ou que tenha sido beneficiado por ações da Odebrecht.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO EX-PRESIDENTE LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Os depoimentos prestados hoje (07/11) por Emílio Odebrecht, Marcelo Odebrecht e Alexandrino Alencar reforçaram que é falsa a acusação do Ministério Público contra Lula, buscando vincular contratos da Petrobras com supostas reformas em um sítio situado em Atibaia que pertence a Fernando Bittar e que foi frequentado pelo ex-Presidente.

Marcelo Odebrecht, que é citado expressamente na acusação como sendo a pessoa que teria oferecido vantagens indevidas para Lula interferir em contratos da Petrobras afirmou categoricamente que isso não tem “aderência na realidade”, mesmo sendo delator e tendo recebido benefícios do Ministério Publico para acusar Lula.

Os depoimentos fortaleceram o que sempre foi afirmado pela Defesa de Lula: a narrativa que buscou vincular o ex-Presidente a ilícitos ocorridos no âmbito da Petrobras é totalmente descabida e somente foi construída para submetê-lo a processos e condenações pré-estabelecidas no âmbito da Lava Jato de Curitiba.