Lula x Hardt: ex-presidente deixa a prisão pela primeira vez para depoimento sobre sítio de Atibaia

Lula x Hardt: ex-presidente deixa a prisão pela primeira vez para depoimento sobre sítio de Atibaia

Juíza Gabriela Hardt, sucessora de Sérgio Moro - futuro ministro de Bolsonaro -, interroga o petista em audiência em Curitiba

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

14 Novembro 2018 | 05h00

Lula foi preso em abril, condenado a 12 anos e um mês de prisão. Foto: Alex Silva / Estadão

Atualizada às 15h15

Luiz Inácio Lula da Silva deixou nesta quarta-feira, 14, a sede da Polícia Federal em Curitiba pela primeira vez desde que foi preso, no dia 7 de abril. O ex-presidente será ouvido como réu da ação penal do sítio de Atibaia (SP). Nessa ação penal, o petista é acusado de 10 atos de corrupção e 44 de lavagem de dinheiro, na Operação Lava Jato.

Os interrogatórios desta quarta começaram às 14h. O primeiro a ser interrogado foi o pecuarista José Carlos Bumlai, um dos réus do processo. O ex-presidente começou a ser ouvido por volta das 15h e falou por quase três horas. Após o depoimento, Lula voltou para a carceragem da Polícia Federal, onde está preso.

Esta é a terceira vez que Lula será ouvido como réu da Lava Jato, a primeira foi em 10 maio de 2017, a segunda vez, em 13 de setembro. Mas a primeira como preso e também sem o juiz federal Sérgio Moro, que se afastou dos processos para ser futuro ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Jair Bolsonaro (PSL).

Lula sustenta que é inocente, que não existem provas contra ele e que é vítima de uma perseguição política nos processos da Lava Jato. Sua defesa acusa também Moro de ter perdido a imparcialidade nos processos e tenta, sem sucesso, anular os casos.

Condenado em segundo grau no caso do triplex do Guarujá (SP), a pena de 12 anos e um mês de prisão, o ex-presidente também é réu em outro processo em fase final, sobre propinas da Odebrecht na compra de um terreno de R$ 12 milhões para o Instituto Lula e de um apartamento em São Bernardo do Campo usado pela família do petista.

A juíza federal Gabriela Hardt, substituta de Moro, ouvirá o petista e o seu amigo pecuarista José Carlos Bumlai, também réu no processo. Os interrogatórios na sala de audiências da 13.ª Vara Federal, em Curitiba, marcam o final das oitivas dos réus no caso do sítio de Atibaia – um dos episódios mais emblemáticos do escândalo de corrupção, envolvendo Lula.

Na ação do sítio, Lula e outros 12 réus são acusados de ocultarem propinas de contratos da Petrobrás em reformas e compra de equipamentos para o imóvel. A Lava Jato entende que a propriedade é do ex-presidente, mas em nome de “laranjas”, mas o caso ainda está sob investigação e pode virar outra denúncia.

O ex-presidente,  segundo a força-tarefa da Lava Jato, teria sido contemplado com propina de R$ 1,02 milhão. O dinheiro seria de José Carlos Bumlai, relacionados a empréstimo fraudulento com o Grupo Schahin ao PT e negócios da empresa com a Petrobrás, e da Odebrecht e da OAS, também decorrentes de contratos com a estatal.

Documento

Nas duas audiências anteriores, Moro interrogou o petista no caso do triplex do Guarujá e no caso do terreno do Instituto Lula. Os depoimentos aconteceram sob forte esquema de segurança e mobilização por parte de petistas e apoiadores do petista.

Protestos. Desta vez, o PT mobiliza suas lideranças e movimentos sociais para o novo interrogatório. O ex-presidente nunca saiu do prédio da Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde foi montada por ordem de Moro uma cela especial para cumprimento da pena do petista.

São 222 dias de prisão.

Lideranças do PT e movimentos sociais vão acompanhar o novo depoimento do ex-presidente. O partido que Lula fundou nos anos 1980 afirma que ele é um ‘preso político’, após ser condenado em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), por unanimidade.

O site do PT informou que o Comitê Nacional Lula Livre – formado também pelas frentes Brasil Popular, Povo sem Medo e outros movimentos – vai ‘acompanhar Lula em mais esse episódio de perseguição contra o ex-presidente e seu legado’.

Segundo o PT, a presidenta do partido, senadora Gleisi Hoffmann, o líder da bancada petista na Câmara, Paulo Pimenta, e lideranças de diversos grupos sociais ‘estarão em Curitiba para defender Lula e pedir um julgamento justo para o presidente’.

Segurança. A Polícia Militar do Paraná reforça o esquema de segurança nos acessos ao prédio da Justiça Federal, no bairro Ahú, em Curitiba. “Adotamos medidas preventivas para garantir que os procedimentos da Justiça e da Polícia Federal sejam cumpridos com segurança e tranquilidade. Atuaremos de maneira a não impactar a vida dos moradores e comerciantes locais, garantindo a mobilidade social, e o controle de trânsito apenas durante os procedimentos”, disse o Comandante do 1º Comando Regional da PM (1º CRPM), coronel Péricles de Matos.

Desde o início do mês, a Polícia Federal planeja a escolta do ex-presidente ao prédio da Justiça. O comboio contará com a ajuda de integrantes do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran). Haverá bloqueio na Avenida Anita Garibaldi, onde fica a Justiça, e na praça em frente ao prédio.

PM no primeiro depoimento de Lula. FOTO WERTHER SANTANA/ESTADÃO

A previsão é de manifestações pacíficas. Nos outros dois interrogatórios de Lula, cerca de 5 mil pessoas realizaram propostos na cidade, sem episódios de violência.

Os serviços na Justiça Federal ocorrerão normalmente durante o dia todo (com exceção do restaurante) e o cidadão terá seu acesso garantido com o acompanhamento de policiais militares até o local de atendimento. É necessário apresentar o documento de identidade aos policiais para a entrada ao perímetro que dará acesso ao prédio.