Juiz decide que corpo de Capitão Adriano não precisa mais ser conservado

Juiz decide que corpo de Capitão Adriano não precisa mais ser conservado

Gustavo Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, volta atrás em decisão e determina que, 'ao menos por ordem deste juízo', não há necessidade de produção de novos exames periciais envolvendo o corpo do ex-PM

Paulo Roberto Netto

17 de fevereiro de 2020 | 22h38

O juiz Gustavo Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, afirmou que ‘não há necessidade’ de conservação do corpo do ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, apontado como chefe da milícia Escritório do Crime, suspeita de envolvido na morte da ex-vereadora Marielle Franco. O ex-capitão foi morto no último dia 09, em Esplanada, no interior da Bahia.

A determinação do juiz foi proferida em sentença que extingue a punibilidade de Nóbrega em ação criminal envolvendo outros doze militares acusados de envolvimento com o Escritório do Crime.

A decisão, inclusive, é oposta à proferida inicialmente pelo juiz Kalil na sexta-feira passada, 14, quando determinou a conservação do corpo em câmara de refrigeração até a realização de todas as diligências para sanar as diligências envolvendo a morte do ex-PM.

Documento

“A ordem exarada aos 14/02/2020 está revogada, não havendo mais, ao menos não por ordem deste juízo, necessidade de conservação do corpo nem de novos exames periciais”, afirma Gustavo Kalil. “A competência para tanto é do Juízo da Comarca de Esplanada/BA”.

Familiares de Adriano da Nóbrega pedem na Justiça o direito de cremar o corpo do ex-capitão. O pedido, no entanto, havia sido negado na semana passada pela Maria Izabel Pena Pieranti, do Plantão Judiciário, que alegou ausência de documentos.

Ex-capitão da PM Adriano Magalhães da Nóbrega, apontado como líder do grupo miliciano Escritório do Crime. Foto: Polícia Civil

Procurado pela reportagem, o advogado que representou Nóbrega, Paulo Catta Preta, afirma que ‘causa perplexidade e estranheza o desinteresse em adotar cautela tão simples quanto necessária’. “Prorroga-se apenas a dor dos familiares e as dúvidas que pairam sobre a morte de Adriano”.

“Causa perplexidade e estranheza o desinteresse em adotar cautela tão simples como necessária. O juízo onde está localizado o corpo tem poderes para determinar a conservação, tanto assim que já o tinha feito anteriormente. Prorroga-se apenas a dor dos familiares e as dúvidas que pairam sobre a morte de Adriano”, afirma.

Queima de arquivo. O ex-PM foi localizado pelo Serviço de Inteligência da polícia baiana em um sítio no interior do Estado. A versão da corporação é que Nóbrega trocou tiros com agentes, foi baleado e socorrido em um hospital da região, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

No entanto, o próprio Adriano estava convencido de que estava sendo procurado para suposta ‘queima de arquivo’. O relato foi narrado por Paulo Catta Preta e pela viúva do miliciano.

Acusado de integrar o Escritório do Crime, milícia suspeita de envolvimento na morte de Marielle Franco, Adriano da Nóbrega trabalhou no 18º Batalhão da PM com Fabrício Queiroz, o ex-assessor de gabinete de Flávio Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro no esquema de “rachadinha” na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj).

Ao deflagrar operação contra endereços ligados a Queiroz e Flávio Bolsonaro em novembro do ano passado, o Ministério Público detalhou conversas entre Nóbrega e sua ex-esposa, Danielle, que era funcionária do gabinete do então deputado estadual na Alerj.

Após reportagem do ‘Estado’ revelar movimentações atípicas de Queiroz, Danielle foi exonerada do cargo e cobrou explicações do miliciano em mensagens obtidas pela promotoria. Nelas, a ex-esposa de Adriano da Nóbrega afirma que ele também se beneficiava do suposto esquema de ‘rachadinhas’.