Deputados que tiveram sigilo fiscal quebrado gastaram R$58 mil para contratar marqueteiro do novo partido que Bolsonaro tenta tirar do papel

Deputados que tiveram sigilo fiscal quebrado gastaram R$58 mil para contratar marqueteiro do novo partido que Bolsonaro tenta tirar do papel

Aline Sleutjes (PSL-PR), Bia Kicis (PSL-DF), General Girão (PSL-RN) e Guiga Peixoto (PSL-SP) usaram verba dos gabinetes para pagar publicitário do Aliança pelo Brasil, Sérgio Lima; todos são investigados em inquérito que apura organização e financiamento de atos antidemocráticos

Rayssa Motta/SÃO PAULO e Rafael Moraes Moura/BRASÍLIA

18 de junho de 2020 | 04h50

Os deputados Aline Sleutjes (PSL-PR), Beatriz Kicis (PSL-DF), General Girão (PSL-RN) e José Guilherme Negrão Peixoto (PSL-SP). Fotos: Reprodução/Câmara dos Deputados

Nos últimos três meses, os deputados bolsonaristas Aline Sleutjes (PSL-PR), Bia Kicis (PSL-DF), General Girão (PSL-RN) e Guiga Peixoto (PSL-SP) gastaram R$58.110, pagos com verba dos gabinetes, para contratar os serviços do publicitário Sérgio Lima. O empresário é marqueteiro do Aliança pelo Brasil, partido político que o presidente Jair Bolsonaro tenta tirar do papel desde que rompeu com a ala que dirige o PSL, sigla pela qual qual foi eleito.

Os parlamentares e o publicitário são investigados no inquérito que apura a organização e financiamento de atos antidemocráticos. Nesta terça, 16, endereços ligados a Sérgio Lima foram alvos de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal. Já os deputados tiveram os sigilos fiscais quebrados por determinação do ministro Alexandre de Moraes, responsável pela condução das investigações.

Apesar da quebra de sigilo, os dados colhidos pelo Estadão são públicos: estão disponíveis no Portal da Transparência da Câmara dos Deputados e foram classificados pelas equipes de gabinete como ‘divulgação da atividade parlamentar’.

Nas notas fiscais emitidas pelos serviços, também disponíveis no site, as contratações aparecem indicadas como produção de conteúdo para mídias sociais e monitoramento das contas dos parlamentares nas redes.

Documento

A empresa de Sérgio Lima, a Inclutech, que foi aberta em 2011, era uma companhia de cosméticos. Recentemente, a atividade econômica foi alterada para prestar serviços publicitários que agora incluem, segundo o cadastro junto à Receita Federal, serviços ligados à tecnologia da informação e publicidade. As notas emitidas para os parlamentares figuram entre as 15 primeiras da nova fase da Inclutech.

Além de marqueteiro do Aliança pelo Brasil, Sérgio Lima passou a atuar como auxiliar palaciano nos pronunciamentos do presidente desde março, mês em que esteve na comitiva do governo aos Estados Unidos.

Atos antidemocráticos. A investigação para apurar a organização de atos contra a democracia e as instituições foi aberta a pedido da Procuradoria-Geral da República após a participação do presidente Jair Bolsonaro em uma manifestação para comemorar o dia do Exército, em 19 de abril, que contou com gritos e cartazes defendendo o fechamento do Congresso, do STF e a reedição do AI-5, o ato institucional que endureceu o regime militar.

As diligências do inquérito começaram a andar na segunda-feira, 15, quando a Polícia Federal deu início ao cumprimento de seis mandatos de prisão contra integrantes do grupo bolsonarista ‘300 do Brasil’. Uma de suas lideranças, a extremista Sara Fernanda Giromini, foi presa ontem. Mais três integrantes do grupo foram detidos no dia seguinte.

Na terça, 16, uma força-tarefa voltou às ruas para fazer buscas e apreensões em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão, Santa Catarina e no Distrito Federal. Entre os alvos da ação, estavam o próprio Sérgio Lima, além do deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), o blogueiro Allan dos Santos, o empresário e advogado Luís Felipe Belmonte, principal operador político do Aliança pelo Brasil e o investidor Otavio Fakhoury, financiador do site Crítica Nacional. No mesmo dia, a imprensa teve acesso à informação da quebra de sigilo de onze deputados e um senador, todos apoiadores do presidente.

COM A PALAVRA, A DEPUTADA ALINE SLEUTJES

Questionada sobre a contratação de Sérgio Lima, a assessoria da deputada Aline Sleutjes informou que a escolha foi feita tendo em vista a ‘indicação de outros parlamentares que já tinham experiências com serviços prestados pela Inclutech, bem como o conhecimento devido ao serviço prestado para o Aliança pelo Brasil’.

A deputada disse ainda que buscou serviços para atender demandas de comunicação digital ‘referentes exclusivamente ao meu mandato de parlamentar’, como produção de peças e matérias para redes sociais, vídeos, material para o site, divulgação, envio de materiais para jornais e meios de comunicação, entre outras.

O gabinete informou ainda que os serviços foram prestados somente no mês de março de 2020. “Infelizmente, não tivemos os resultados esperados, nem o alinhamento da equipe contratada”, disseram.

COM A PALAVRA, A DEPUTADA BIA KICIS

“A empresa Inclutech Tecnologia foi contratada, por um mês, para realização de trabalho específico de marketing”.

COM A PALAVRA, O DEPUTADO GUIGA PEIXOTO

“A prestação de serviço da empresa Inclutech Tecnologia da Informação LTDA., se deu a partir do momento que conheci o excelente serviço executado pela empresa, que me foi apresentada por pares do eminente partido Aliança pelo Brasil, como já é de conhecimento da imprensa.

Até o momento estou satisfeito com o trabalho realizado e vou dar continuidade à contratação enquanto a condição for esta. A empresa cumpre todas as exigências para estabelecidas pela Câmara, e tudo acontece dentro da legalidade.

Até aqui os que me acompanham e todos os que têm interesse no conteúdo relacionado à minha atuação parlamentar e ações que exerço como apoiador do governo se mostram satisfeitos com o teor divulgado, o que é mensurado não por meu achismo, mas em razão do crescente número de receptores do conteúdo, que comprovam que não apenas eu, mas todos os envolvidos na comunicação digital estão satisfeitos.”

COM A PALAVRA, OS DEMAIS DEPUTADOS

A reportagem entrou em contato com os gabinetes dos deputados Bia Kicis e General Girão e aguarda resposta. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, SÉRGIO LIMA

A reportagem busca contato com o publicitário Sérgio Lima. O espaço está aberto para manifestação (rayssa.motta@estadao.com).

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