Caso Bruno e Dom: o que falta esclarecer

Caso Bruno e Dom: o que falta esclarecer

Restos mortais foram levados de avião para Brasília, onde será feita a perícia para confirmar as identidades e a causa das mortes do indigenista e do repórter britânico

Rayssa Motta

16 de junho de 2022 | 10h13

Jornalista britânico e indigenista foram dado como mortos no décimo dia de desaparecimento. Foto: Wilton Júnior/Estadão

Com a confissão do principal suspeito pelo desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do repórter britânico Dom Phillips, e a localização do que podem ser os restos mortais deles, a Polícia Federal (PF) concluiu uma primeira etapa da investigação.

Os policiais federais, que já tratavam o caso como possível homicídio, confirmaram na noite de quarta-feira, 15, que Bruno e Dom foram mortos na região do Vale do Javari, no Amazonas, pelo pescador Amarildo da Costa Oliveira, conhecido como Pelado, o primeiro preso na investigação.

O comitê criado para investigar o sumiço do indigenista e do jornalista, coordenado pela PF, ainda precisa esclarecer a motivação do crime. Familiares, indígenas, parlamentares e outras autoridades pedem justiça pela morte precoce.

Veja o que falta esclarecer:

Perícia

O anúncio de que “remanescentes humanos” foram encontrados na área de buscas, a cerca de três quilômetros do rio Itaguaí, foi feito na noite de ontem pelo ministro da Justiça, Anderson Torres, nas redes sociais. Os policiais levaram um dos suspeitos até a região e ele apontou onde teria enterrado os corpos e afundado a embarcação usada pelo jornalista e o indigenista.

Os restos mortais foram levados de avião para Brasília onde será feita a perícia para confirmar as identidades e a causa das mortes. A equipe de peritos federais embarcou em uma aeronave da própria PF. Geralmente, os exames duram entre 30 e 60 dias, mas diante da comoção em torno do caso, a conclusão está prevista em até uma semana.

Avião que levou restos mortais do jornalista e do indigenista saiu de Manaus com destino a Brasília na manhã desta quinta-feira. Foto: Divulgação/PF

Uma das hipóteses é a de que Bruno e Dom tenham sido mortos a tiros e carbonizados antes de serem enterrados. O Estadão conversou com Marcos Camargo, presidente da Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), que explicou que a perícia vai envolver três exames: o exame de DNA para identificar as vítimas; o exame necroscópico para verificar se houve tiros ou algum outro tipo de agressão; e o exame médico legal, uma avaliação interna nos corpos para indicar a causa da morte.

“A perícia é imprescindível para buscar as respostas: para definir materialidade, entender a dinâmica e apontar a autoria. Mesmo com a confissão, você tem que seguir com a análise pericial, para corroborar os relatos com fatos científicos”, sintetiza.

Motivação 

O Vale do Javari conserva a segunda maior reserva indígena do País e concentra a maior parte dos indígenas isolados no mundo. A região na fronteira com o Peru e com a Colômbia é constantemente invadida por traficantes de drogas e armas, caçadores ilegais, madeireiros e garimpeiros. Ainda não está claro se o assassinato de Bruno e Dom tem relação com a ação desses criminosos. O superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Eduardo Alexandre Fontes, mantém as linhas de investigação sob sigilo.

Testemunhas ouvidas relataram que Bruno vinha sofrendo ameaças pelo trabalho que fazia na região. O indigenista, que foi coordenador regional da Funai em Atalaia do Norte, orientava moradores a denunciar irregularidades nas reservas indígenas.

Indígenas treinados por Bruno Pereira no rio Itaquaí, na Amazônia, aprenderam a monitorar invasões de aldeias indígenas e enviar informações à polícia. Foto: Wilton Junior/Estadão

Responsáveis pelo crime 

Além de Pelado, que confessou o crime, o irmão dele, Oseney da Costa de Oliveira, conhecido como Dos Santos, também foi preso sob suspeita de envolvimento no caso. A PF investiga outras pessoas que podem ter participado do assassinato, mas ainda não foram presas. As identidades não foram reveladas.

Para Camargo, a “interpretação” da cena do crime pode ajudar a encontrar elementos que comprovem quem são os responsáveis pelas mortes de Bruno e Dom.

“A análise do local tem essa particularidade: ela é importante justamente para identificar vestígios que possam levar a um eventual autor ou autores daquele crime. E aí você vai, por meio de técnicas de perícia criminal, usar os recursos para tentar identificá-los”, explica Camargo.

Dinâmica

Em um primeiro depoimento, Pelado disse que Dom e Bruno passaram com a embarcação em frente à comunidade São Gabriel, onde mora, mas negou ter saído de casa naquele dia 5 de junho, quando o jornalista e o indigenista desapareceram. Aos investigadores, ele afirmou que só saiu no dia seguinte para “caçar porcos”. Também disse que conhecia Bruno “apenas de vista” e que nunca conversou com ele.

A versão mudou e ele teria dito que ouviu o barulho dos tiros e, ao chegar ao local, encontrou uma terceira pessoa. Então, no dia seguinte, ele e o irmão resolveram incendiar os corpos, esquartejar e enterrá-los.

“Foi um embate, a principio ele (Pelado) alega que foi com arma de fogo, mas temos que aguardar a perícia porque ela que vai dizer, identificar qual foi a causa da morte, as circunstâncias e a motivação”, afirmou o superintendente da PF no Amazonas na noite de ontem.

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