Casal preso por suspeita de hackear Moro movimentou R$ 627 mil em dois meses

Casal preso por suspeita de hackear Moro movimentou R$ 627 mil em dois meses

Relatório de Informação Financeira aponta que Gustavo Henrique Elias Santos, e sua mulher, Suellen Priscila de Oliveira tinham renda mensal de R$ 5.058, mas em dois períodos de abril a junho de 2018 e de março a maio de 2019 movimentaram valores elevados em suas contas bancárias

Breno Pires e Patrick Camporez/BRASÍLIA e Julia Affonso e Pepita Ortega/SÃO PAULO

24 de julho de 2019 | 13h11

Relatório de Informação Financeira, da Polícia Federal, aponta que o casal Gustavo Henrique Elias Santos, e sua mulher, Suellen Priscila de Oliveira, movimentaram R$ 627 mil em dois meses – abril a junho de 2018 e março a maio de 2019. Presos na Operação Spoofing por suspeita de hacker o celular do ministro da Justiça Sérgio Moro, de delegados da PF e de juízes, os investigados tinham, segundo a investigação, renda mensal de R$ 5.058.

Documento

“Indicou-se ainda que Gustavo movimentou em sua conta no Banco Original, entre os dias 18 de abril de 2018 e 29 de junho de 2018, o montante de R$ 424 mil, sendo que em seu cadastro bancário consta a renda mensal de R$ 2.866,00. Suelen Priscila, por sua vez, segundo as mesmas informações, movimentou em sua conta no Banco Original a quantia de R$ 203.560,00, entre 7 de março de 2019 e 29 de maio de 2019, sendo que em seu cadastro Consta a renda mensal de R$ 2.192,00”, relatou o juiz da 10.ª Vara Federal de Brasília, Vallisney de Souza Oliveira, na decisão que deflagrou a Spoofing.

A movimentação dos valores levou o magistrado a decretar a quebra de sigilo bancário do casal. A medida alcança ainda outros dois presos na Spoofing, Walter Delgatti Neto e Danilo Cristiano Marques, no período de 1 de janeiro a 17 de julho deste ano.

“Diante da incompatibilidade entre as movimentações financeiras e a renda mensal de Gustavo e Suelen, faz-se necessário realizar o rastreamento dos recursos recebidos ou movimentados pelos investigados e de averiguar eventuais patrocinadores das invasões ilegais dos dispositivos informáticos (smartphones)”, apontou.

Entenda a investigação

Os presos foram transferidos para Brasília. Segundo a PF, por questão de espaço, dois deles permaneceram na carceragem da superintendência e os outros dois, levados por volta das 23h desta terça para local não informado.

Um dos endereços alvo de buscas nesta terça foi a residência da mãe de Gustavo Henrique Elias Santos, em Araraquara. Santos, no entanto, foi preso na capital paulista. Ele trabalha com shows e eventos, segundo investigadores.

Além do casal, detido em São Paulo, a PF prendeu em Araraquara Walter Delgatti Neto, que já responde a processos por estelionato. Segundo informações da Justiça Eleitoral, ele foi filiado ao DEM. A defesa de Delgatti Neto não foi localizada. Há, ainda, um quarto preso, em Ribeirão Preto, não identificado até a noite desta terça.

O inquérito está sendo conduzido pelo delegado Luiz Flávio Zampronha, que, em 2005 e 2006, presidiu o inquérito do Mensalão.

Autoridades

Além de Moro, procuradores da força-tarefa da Lava Jato no Paraná e outras autoridades teriam sido alvo de hackers – no mandado de buscas, há menção ao desembargador federal Abel Gomes, do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região, no Rio, ao juiz Flávio Lucas, da 18.ª Vara Federal do Rio e aos delegados da PF Rafael Fernandes, em São Paulo, e Flávio Vieitez Reis, em Campinas.

A PF informou também nesta terça que vai investigar a suspeita de invasão nos aparelhos celulares do ministro da Economia, Paulo Guedes, e da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP).

Desde 9 de junho, o site The Intercept Brasil divulga supostas mensagens trocadas pelo então juiz federal titular da Lava Jato em Curitiba com integrantes do Ministério Público Federal, principalmente com Dallagnol. Foram divulgadas pelo The Intercept e outros veículos conversas atribuídas ao ex-juiz e a procuradores no aplicativo Telegram. O site afirmou que recebeu de fonte anônima o material, mas não revelou a origem. Moro nega conluio – ele e Dallagnol afirmam não reconhecer a autenticidade das conversas.

O ministro da Justiça já afirmou que a invasão virtual foi realizada por um grupo criminoso organizado. Para ele, o objetivo seria invalidar condenações por corrupção e lavagem de dinheiro, interromper investigações em andamento ou “simplesmente atacar instituições”.

Em 19 de junho, Moro passou oito horas e meia respondendo a questionamentos de senadores na Comissão de Constituição e Justiça da Casa sobre supostas mensagens que sugerem atuação conjunta com os procuradores quando ele era juiz.

Falsificação

Spoofing, segundo a PF, é um tipo de falsificação tecnológica que tenta enganar uma rede ou pessoa fazendo-a acreditar que a fonte de uma informação é confiável. “As investigações seguem para que sejam apuradas todas as circunstâncias dos crimes praticados”, informou a PF. A operação mira “organização criminosa que praticava crimes cibernéticos”.

O celular de Moro foi desativado em 4 de junho. O aparelho foi invadido por volta das 18h. Ele percebeu após receber três telefonemas do seu próprio número. O ex-juiz acionou então investigadores da PF. O último acesso de Moro ao aparelho foi registrado no WhatsApp às 18h23 daquele dia. O suposto hacker teria tentado se passar pelo ministro no Telegram.

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