Bolsonaro tenta impor troca na PF e Moro avisa que deixará o governo

Bolsonaro tenta impor troca na PF e Moro avisa que deixará o governo

Ministro da Justiça avisou que deixará o cargo caso o presidente imponha um novo nome para comandar a Polícia Federal, atualmente chefiada por Maurício Valeixo; o Estado apurou que o ministro não aceita que essa troca venha de 'cima para baixo', e defende o direito de fazer a escolha

Fausto Macedo, Andreza Matais, Rafael Moraes Moura, Tânia Monteiro e Pepita Ortega

23 de abril de 2020 | 14h48

O ministro da Justiça, Sérgio Moro, fala ao telefone na tarde desta quinta-feira na sede do ministério, em Brasília. Foto: Gabriela Biló/ESTADÃO

Desgastado no governo desde que sua agenda de combate à corrupção perdeu protagonismo, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, avisou ontem ao presidente Jair Bolsonaro que deixará a equipe caso ele imponha um novo nome para a diretoria-geral da Polícia Federal, hoje comandada por Maurício Valeixo. A ameaça de demissão provocou fortes reações nos três Poderes e a ala militar do governo entrou em campo na tentativa de segurar Moro, o mais popular ministro da Esplanada.

Em reunião pela manhã, no Palácio do Planalto, Bolsonaro disse a Moro que a mudança no comando da PF já está decidida e cabe ao presidente definir quem será o substituto de Valeixo. O Estado apurou que Moro não aceita uma troca “de cima para baixo” e defende o direito de fazer a escolha. A queda de braço abre nova crise no governo, uma semana depois da demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e no pico da pandemia do novo coronavírus.

Na prática, Valeixo já havia tratado com Moro, no início do ano, de sua saída do cargo de diretor-geral da corporação. Homem da confiança do ex-juiz da Lava Jato, o delegado demonstrou exaustão no cargo, reportando-se a um 2019 tenso no comando da PF. O ministro tentava, porém, encontrar um nome de sua confiança para o posto, quando foi surpreendido pelo comunicado de Bolsonaro de que mudanças na corporação ocorreriam nos próximos dias.

A decisão do presidente ocorre 48 horas depois de o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar a abertura de inquérito para investigar quem organizou e financiou manifestações em defesa da ditadura, no domingo. Bolsonaro participou de um ato com esse teor diante do QG do Exército, em Brasília. Ficou irritado depois que alguns de seus aliados entraram na mira da Polícia Federal.

O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), já articula para emplacar o secretário de Segurança do DF, Anderson Torres, no lugar de Moro. Crítico do ex-juiz, Ibaneis disse ao Estado que Torres, que é amigo de Bolsonaro, seria um ministro “100 vezes melhor” que o ex-magistrado.

Pressão. Nos bastidores do governo, a ameaça de Moro é encarada mais como uma pressão. Mesmo assim, há no Planalto o sentimento de que a relação entre ele e Bolsonaro vem se deteriorando com rapidez. No auge da crise do coronavírus, o presidente chegou a dizer, em conversas reservadas, que o ministro da Justiça era “egoísta” e só pensava em si próprio. Em outra ocasião declarou que usaria sua caneta contra pessoas do governo que “viraram estrelas”. Para interlocutores do presidente, o recado mirava não apenas Mandetta, mas também Moro.

Na tentativa de contornar o novo confronto, os ministros-generais Braga Netto (Casa Civil) e Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) conversaram ontem com Moro e atuaram como bombeiros na crise. Segundo interlocutores do ministro ouvidos pela reportagem, ele entregará o cargo se não tiver carta-branca para a troca no comando da PF.

Ministros militares do governo avaliaram, nos bastidores, que Valeixo ganhou uma sobrevida. Para eles, Moro permanecerá ministro porque haverá uma solução de consenso. O ex-juiz, porém, permaneceu em seu gabinete, no Palácio da Justiça, sem saber se o Planalto havia batido o martelo sobre a situação de Valeixo. Interlocutores do ministro disseram ao Estado que ele quer uma solução definitiva sobre o caso, pois não aceita ficar “na corda bamba”.

Desde que entrou no governo, o ex-juiz tem sofrido derrotas. O pacote anticrime formulado por ele, por exemplo, não foi adiante no Congresso. Recentemente, Bolsonaro tentou dividir o Ministério da Justiça em dois, tirando de Moro a Segurança Pública. O plano do presidente era entregar a área que cuida da polícia para o ex-deputado Alberto Fraga, do DEM. A iniciativa só não foi adiante porque “vazou” e houve reações contrárias. Bolsonaro também não planeja mais, ao menos por enquanto, indicar Moro para uma vaga no Supremo.

Troca. Esta é a segunda vez que o presidente ameaça mudar a cúpula da PF. Valeixo foi escolhido por Moro na transição do governo, em 2018. O delegado comandou a Diretoria de Combate do Crime Organizado (Dicor) da PF e foi superintendente da corporação no Paraná, responsável pela Lava Jato, até ser convidado pelo ministro para assumir a diretoria-geral

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