Após retirada de anúncios em site acusado de ‘fake news’, chefe da Secom diz que vai ‘contornar a situação’

Após retirada de anúncios em site acusado de ‘fake news’, chefe da Secom diz que vai ‘contornar a situação’

Depois que o Banco do Brasil repudiou a disseminação de publicações falsas, Fabio Wajngarten afirmou que governo irá garantir a 'defesa da liberdade de expressão'; Tribunal de Contas também ordenou exclusão de peças publicitárias do 'Jornal da Cidade Online'

Paulo Roberto Netto

21 de maio de 2020 | 14h43

O secretário de comunicação do governo, Fábio Wajngarten, afirmou que irá ‘contornar a situação’ relacionada à exclusão de anúncios do Banco do Brasil publicados em um site bolsonarista acusado de ‘fake news’. O órgão público emitiu nota, em resposta ao perfil Sleeping Giants Brasil, na qual repudia a disseminação de publicações falsas – o que provocou críticas da chefia da Secom.

“Nem toda a comunicação do que é público depende de nós, mas já estamos contornando a situação”, escreveu Wajngarten, no Twitter. “Agradecemos pelo retorno e pode contar com o governo na defesa da liberdade de expressão”.

Mais cedo, o Estadão mostrou que o Tribunal de Contas do Estado do Mato Grosso do Sul ordenou a retirada de anúncio fixo divulgado no site. A Corte de Contas, contudo, não respondeu o quanto gastou com a peça publicitária e o quanto pagou para mantê-la no Jornal da Cidade Online.

O Sleeping Giants Brasil reproduz campanha norte-americana para alertar empresas privadas e órgãos públicos da presença de anúncios em sites que difundem peças de desinformação. Em nota enviada à reportagem, o perfil afirmou que Wajngarten está reafirmando ‘que compactua com um site que atenta constantemente a democracia’.

“Acho preocupante um cargo público ser ocupado por alguém que acha correto o financiamento público de um site como o que estamos denunciando, ele deveria nos agradecer por fazer o trabalho dele e informar que isso está acontecendo com o nosso dinheiro”, afirmou o responsável pelo perfil, que pediu anonimato.

O secretário especial de comunicação, Fabio Wajngarten. Foto: Gabriela Biló / Estadão

O Estadão questionou a Secom sobre o que a pasta iria fazer em relação ao Banco do Brasil, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Nas redes sociais, Wajngarten afirmou que o ‘Jornal da Cidade Online’ faz ‘um trabalho seríssimo’ e que os alertas do Sleeping Giants Brasil seria uma tentativa de ‘censura’. A conta também foi criticada pelo filho do presidente Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro.

Jornal da Cidade Online publicou ao menos oito textos que foram desmentidos pelo Estadão Verifica, incluindo artigo que manipulou dados de pesquisas de opinião para fazer parecer que aprovação de Bolsonaro tinha aumentado entre janeiro a novembro do ano passado e esconder que a desaprovação do governo havia crescido de forma significativa.

Há, também, texto com informação falsa sobre a entrega de ‘códigos de segurança’ da urna eletrônica a venezuelanos e, em maio deste ano, uma peça de desinformação omitiu trecho da fala do governador de Nova York, Andrew Cuoco, sobre a queda do índice de novas infecções no Estado para destacar dados de pesquisa que ‘provariam’ a falha do lockdown em Nova York.

Alinhado à direita conservadora, o site foi condenado neste mês a indenizar o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, pela publicação de reportagens consideradas ofensivas. Os donos do site tiveram de retirar os textos do ar e ainda publicar a íntegra da sentença, além de uma retratação, em até 48 horas, sob pena de multa diária de R$ 1,5 mil.

Em nota, o Jornal da Cidade Online afirma que a escolha do site para veicular o anúncio deriva do ‘considerável número de acessos’ no Estado. O portal admitiu que também já divulgou campanhas da Prefeitura e da Câmara Municipal de Campo Grande.

“Quanto as verificações realizadas pelo Estadão, é evidente que jamais se tratou de ‘fake news’, foram matérias que, de acordo com as agências verificadoras continham algumas imprecisões. Tanto é que foram prontamente corrigidas e as marcações retiradas. Nesse sentido, vale lembrar que qualquer veículo de comunicação pode errar ou cometer algum deslize, inclusive o Estadão“.

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