Ao ser preso pela PF, ‘Vermelho’ hackeava Guedes, Alcolumbre e mais 124 alvos ao mesmo tempo

Ao ser preso pela PF, ‘Vermelho’ hackeava Guedes, Alcolumbre e mais 124 alvos ao mesmo tempo

Relatório de 177 páginas da Polícia Federal detalha intensa atividade de Walter Delgatti Neto, apontado como o líder do grupo que bisbilhotou o ministro da Economia, o presidente do Senado, o ministro da Justiça Sérgio Moro, além de procuradores e delegados federais

Pepita Ortega

20 de dezembro de 2019 | 14h46

Walter Delgatti Neto, o ‘Vermelho’, chega para prestar depoimento na Superintendência da PF em Brasília. FOTO: DANIEL MARENCO/AG. O GLOBO

Ao ser preso pela Polícia Federal durante a primeira fase da Operação Soofing, realizada em julho, o hacker Walter Delgatti Neto, o ‘Vermelho’, bisbilhotava, em tempo real, as mensagens de 126 alvos, entre eles o ministro da Economia Paulo Guedes e o presidente do Senado Davi Alcolumbre. Em relatório conclusivo da investigação, peça de 177 páginas, a PF diz que durante a busca na casa de ‘Vermelho’ encontrou, além de dispositivos com atalhos ativos para o Telegram das vítimas, um HD com milhares de dados interceptados.

Documento

O relatório foi enviado à 10.ª Vara Federal de Brasília na noite desta quarta, 18, indiciando os seis investigados na Spoofing por participação em organização criminosa, invasão de dispositivo informático alheio e interceptação de comunicação telemática ilegal.

A PF indica que, durante as buscas realizadas em julho, ao lado da cama de ‘Vermelho’, encontrou um celular que continha 33 contas ativas do Telegram, entre elas a utilizada por Guedes. Análise pericial indicou que de tais perfis, apenas 3 não teriam sido de fato invadidos.

Os agentes apreenderam também um computador que apresentava 176 ícones de atalhos de acesso a perfis do Telegram Desktop – 110 estariam ativos no momento em que a perícia foi realizada e, após exclusão de links repetidos, a PF identificou 99 vítimas de interceptação.

Os 126 Hackeamentos de ‘Vermelho’. Foto: ReproduçãoO relatório diz ainda que foram encontradas, no notebook, exportações de dados referentes a 48 contas do Telegram, entre elas a do presidente do Senado.

De tais perfis, 43 estavam entre os atalhos ativos da área de trabalho do dispositivo.
O texto destaca, no entanto, que os links referentes a outras vítimas da interceptação ilegal já haviam sido excluídos pelo suposto chefe do grupo criminoso.

Como exemplo, os policiais mencionam um vídeo de 34 minutos intitulado ‘Filhos de Januário 4’. Segundo os investigadores, a gravação era referente à tela do computador de computador de Thiago Eliezer no momento em que estava online na conta de um dos membros do Ministério Público Federal que fazia parte do grupo.

Além de tais dispositivos, a PF encontrou na casa de ‘Vermelho’, um HD com imagens e printscreens de telas do telefone relativas a contatos de diversas pessoas -procuradores da República, delegados de Polícia Federal, advogados -, além de fotos de conversas de grupos com os nomes ‘Valoriza MPF’, ‘Winter is coming’ e ‘STJ Operação Saqueador/Calicute’.

Ao analisar o hard drive, os peritos encontraram uma pasta com milhares de dados, organizados em 15 subpastas que, segundo a PF, referem-se a informações obtidas com a invasão dos dispositivos:

  • Subpasta ‘+55419840xxxxxx’ – referente ao número utilizado pelo procurador da República e chefe da Lava Jato em Curitiba Deltan Dallagnol, com 1297 documentos de HTML de trocas de mensagens particulares e trocas de mensagens em grupos;
  • Subpasta ‘26.04.2019 – com três arquivos de ‘clippings’ de assunto diversos relacionados a Deltan;
  • Subpasta Castor – com 12 arquivos de áudio, que de acordo com primeira análise da PF, possuem conteúdo de voz que se assemelha à de Deltan. O nome da pasta faria referência ao procurador Diogo Castor Matos;
  • Subpasta Danilo Dias – provavelmente criada em referência ao procurador regional da República Danilo Pinheiro Dias, contendo 753 arquivos relacionados a temas jurídicos, boletos e demonstrativos de pagamento;
  • Subpastas Deltan2 e Deltan 22 – com conteúdos idênticos sendo eles 27 arquivos em pdf relacionados a decisões, solicitações e pareceres geralmente vinculados ao procurador;
  • Subpasta Diogo – em provável referência ao procurador da República Diogo Castor Matos, com 587 aquivos diversos, em sua maioria relacionados a temas jurídicos, além de documentos;
  • Subpasta ‘Estado de Sitio okkk’ – com 12.920 arquivos diversos, em sua grande maioria relacionados a Deltan;
  • Subpasta Janot – com 250 documentos jurídicos diversos e particulares relacionados ao ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot;
  • Subpasta Janut – provavelmente em referencia a Januario Paludo, membro da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, contendo 1098 arquivos, em sua maioria denúnicas, decisões e materiais jurídicos;
  • Subpasta ‘Luiza Subprocuradora’ – em referência à subprocuradora-geral da República Luiza Cristina Foncesa Frischeisen, com 1283 arquivos. Uma outra subpasta, com 3959 itens, estaria relacionada a Deltan Dallagnol;
  • Subpasta Meirelles – com 128 arquivos relacionados ao ex-ministro da fazenda Henrique Meirelles;
  • Subpasta ‘N’ – contendo 1356 documentos diversos, quase todos relacionados ao Ministério Público Federal e seus integrantes;
  • Subpasta Orlando – provavelmente em referência ao procurador regional Orlando Mello, com 3255 arquivos;
  • Documentos ‘PDF’ – foram encontrados ainda três documentos/planilhas relacionados a termos da Odebrecht;

COM A PALAVRA, A DEFESA

A reportagem busca contato com a defesa de Walter Delgatti Neto. O espaço está aberto para manifestação.

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