‘Pessoal precisa de dinheiro’ diz fiscal da Agricultura em pedido de ‘apoio’ ao PTB

‘Pessoal precisa de dinheiro’ diz fiscal da Agricultura em pedido de ‘apoio’ ao PTB

Nova gravação da Operação Carne Fraca revela conversa de dois funcionários do Ministério, em Goiás, com representante da BRF; acusados de corrupção citaram apadrinhamento do deputado Jovair Arantes, relator do impeachment de Dilma: 'a questão é mais política, não queremos nada para nós'

Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

26 Agosto 2017 | 04h14

Ministério da Agricultura, alvo da Carne Franca. Foto: Dida Sampaio/Estadão

“A questão é mais política do que… nós não queremos nada pra nós (…) é que nós fazemos parte de um grupo político… eu, o Welman e cujo deputado que tem influência lá é o Jovair Arantes.” A frase é de um dos chefes da fiscalização do Ministério da Agricultura, em Goiás, Dinis Lourenço da Silva, preso pela Operação Carne Fraca, e foi dita no dia 2 de maio de 2016 ao representante da BRF – gigante mundial do setor de carnes – Roney Nogueira dos Santos. “E o pessoal precisa de que? Precisa de dinheiro.”

Dinis e Roney foram presos e são réus dos processos da Carne Fraca, em Curitiba, abertos pelo juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal. Sem saber que estava sendo gravado,  o então chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sipoa), em Goiás, pediu “apoio” ao PTB para as eleições municipais daquele ano, em uma tentativa de se manter no cargo.

O medo era uma faxina geral nos postos do Ministério de Agricultura de Goiás indicados pelo PTB, em especial pelo deputado Jovair Arantes, que foi relator do processo de cassação da ex-presidente Dilma Rousseff. “Com esse relatório dele contrário a Dilma… a Dilma mandou todo mundo embora o dr. Julio, que foi a pessoa que me colocou…”, afirma Dinis. Ouça à partir dos 21 min:

O áudio foi anexado pela Polícia Federal no início do mês ao processo penal em que Roney, como representante da BRF, é acusado de corrupção. A Carne Fraca sustenta que o mesmo esquema de fatiamento de estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás, descoberto na Operação Lava Jato, imperava no Ministério da Agricultura, em especial na indicação das unidades de fiscalização e controle nos estatos: um esquema que beneficiaria PMDB, PTB e PP.

Os agentes públicos arrecadavam propinas aos partidos, em troca da permanência no cargo, promovendo a liberação de licenças e outras vantagens aos frigoríficos, entre eles unidades da BRF e JBS, maiores empresas do setor no País. A PF já chegou a esquemas em Goiás, Paraná, Minas Gerais e Santa Catarina – mas suspeitas que em todas undidades, havia loteamento político criminoso, com o aval do comando da Pasta.

“O que nós estamos procurando? Nós tamo procurando apoio pro Partido… que nós vamos ter eleição municipal esse ano”, explica Dinis. “E o pessoal precisa de que? Precisa de dinheiro.”

Compromisso. Era 20h56 e o encontro aconteceu em Goiania (GO), onde a BRF enfrentava problemas com as fiscalizações em uma unidade em Rio Verde. O áudio de 37 minutos foi gravado no aparelho celular de Roney, que havia sido chamado para uma reunião, em Goiânia. No encontro estava também Welman Paixão da Silva Oliveira, que segundo relatório da Polícia Federal é médico veterinário conveniado da SFA/GO, lotado em uma unidade JBS (SIF862) que atuaria “como assessor informal de Dinis”.

O ex-chefe de fiscalização da Agricultura em Goiás diz que “está apoiando o PTB” que daria apoio em “mais de 70 prefeituras no interior”. “Inclusive aqui em Goiania vai lançar a candidatura né, do (ex-deputado do PMDB Luiz) Bitenccourt (que mudou para  PTB naquela ano para disputar a eleição, mas acabou não saindo candidato).”

OUTRAS DO BLOG:

+ Superintendente do Mapa em Goiás diz que foi indicado por deputado, mas nega atuação partidária

+ Juiz leva 59 alvos da Carne Fraca ao banco dos réus

PF prepara indiciamentos dos alvos da Carne Fraca e alerta sobre esquema na Agricultura

Na conversa, Welman explica que eles buscavam um “compromisso de apoio” que depois seria tratado diretamente pelo representante da BRF com a legenda.

“Essa situação dentro do partido é muito larga (inteligível) a gente não participa disso… porque a demanda do partido vem… é ter esse apoio, esse compromisso de apoio… que muitas vezes num, num discute nem com o doutor Dinis, nem dentro da gente”, afirma o “assessor informal” do chefe do Sipoa. “Por exemplo, você iria lá no partido e resolveria lá, mas a gente não quer jogar você na boca do leão, entendeu?”

E o recado é explicito: “Isso você tem muito mais experiência do que a gente… na verdade a gente precisa dessa parceria para poder… porque vem novos cargos por aí…”

Dinis complementa: “Pra gente conseguir se manter no cargo”.

Preso pela Carne Fraca em março deste ano – e já em liberdade -, Roney negou em depoimento à PF prestado no dia 7 de abril de 2017 que tenha feito gravação da conversa. Os investigadores, no entanto, haviam interceptado no grampo conversa telefônica dele com a mulher, no mesmo dia, comunicando que iria para a reunião com o chefe do Sipoa e que usaria seu “iPhone” para gravar.

“Vou usar o meu iPh0ne para gravar.”

Naquele dia 2 de maio a Justiça Federal, em Sergipe, havia bloqueado o serviço de mensagem por celular ‘WhatsApp’. O fato é mencionado na conversa armazenada no telefone de Roney e encontrada pelos policiais, na análise do material apreendido nas buscas da Carne Fraca.

O conteúdo da nova conversa do representante da BRF confirma conteúdo do telefonema monitorado pela PF, do mesmo dia, em que ele relatou ao superior na empresa André Baldisserra – também alvo da Carne Fraca – o que foi tratado na reunião e o pedido de ajuda ao partido (dito erroneamente como PDT).

Roney relatava no grampo que  chefe do Sipoa/GO teria prometido “matar no peito” uma auditoria que havia determinado a suspensão da planta da empresa em Goiás.

O novo audio revela que o representante da BRF reclama de uma fiscal de nome Mariana que seria linha dura e recebe a promessa de quen ela seria transferida, diz que Dinis já o ajudou “muito no Sipoa”

Citado no diálogo gravado como o chefe que havia perdido o cargo após o relatório contra Dilma de Jovair Arantes, o ex-superintendente do Ministério da Agricultura em Goiás, Julio Cesar Carneiro, foi ouvido pela PF e confirmou ter sido indicado ao cargo pelo deputado. Ele, contudo, negou ter conhecimento da promessa do chefe do Sipoa.

COM A PALAVRA, A BRF

NOTA À IMPRENSA

A BRF reitera que não compactua com práticas ilícitas. Desde que teve ciência das investigações da PF, a companhia vem apurando internamente as questões ali apontadas para o devido esclarecimento dos fatos. Caso seja verificada qualquer violação da legislação vigente ou das normas internas e de boas práticas da companhia, a BRF tomará as medidas cabíveis. A companhia vem cooperando com as autoridades e reafirma seus compromissos de transparência, qualidade e respeito perante os seus consumidores e toda a sociedade.

COM A PALAVRA, O PTB 

“A palavra está com o deputado Jovair Arantes (PTB-GO)”.

COM A PALAVRA, JOVAIR

A reportagem entrou em contato com a assessoria do deputado, que ainda não se pronunciou. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

O Ministério da Agricultura dispensou Dinis Lourenço da Silva e exonerou Julio Cesar Carneiro dias após a deflagração da Carne Fraca, da Polícia Federal.

A pasta também tem reiterado que ‘apoia e contribui com informações para investigações da Polícia Federal e adotou todas as medidas cabíveis dentro de sua competência, desde que foi deflagrada a operação’.

Mais conteúdo sobre:

Operação Carne FracaBRFJBS