Novo coronavírus tem origem natural, diferentemente do que afirma virologista chinesa
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Novo coronavírus tem origem natural, diferentemente do que afirma virologista chinesa

Texto publicado por Li-Meng Yan foi contestado por cientistas de todo o mundo, que desmentem teoria conspiratória de que vírus teria sido criado em laboratório

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

15 de dezembro de 2020 | 14h45

Circulam nas redes sociais e no WhatsApp mensagens que reproduzem declarações insustentáveis feitas pela virologista chinesa Li-Meng Yan. Ela afirma, sem evidências, que o novo coronavírus teria sido fabricado em um laboratório militar na China e utilizado como arma biológica pelo país asiático. Diferentemente do que as postagens sugerem, a cientista não comprovou a origem do SARS-Cov-2, o vírus que causa a covid-19. Ainda que Yan tenha exposto seus argumentos em um relatório publicado em setembro, as melhores evidências produzidas pela ciência até hoje indicam que o novo coronavírus tem origem natural, e não foi criado artificialmente. 

A microbiologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Giliane Trindade, que é especialista na ecologia de viroses emergentes, disse ao Estadão Verifica que o artigo publicado por Yan “não prova nada”. “Há inúmeros grupos de pesquisa com publicações em revistas renomadas que mostram justamente o contrário — e vários desses grupos trabalham diretamente com iniciativas de pesquisa de vírus zoonóticos silvestres”, pontuou ela.

Universidade contradiz Yan

Durante entrevista para o canal Fox News em julho, Li-Meng Yan disse ter identificado em pesquisa conduzida na Universidade de Hong Kong o potencial do novo coronavírus ser transmitido de humanos para humanos. Ela afirmou ainda que sua descoberta teria sido abafada por seus superiores diante de pressões políticas do Partido Comunista Chinês.

Após as declarações de Yan, no entanto, a universidade emitiu um comunicado esclarecendo que a cientista havia deixado suas funções na instituição de ensino e jamais “conduziu pesquisas sobre a transmissão de humano para humano entre dezembro de 2019 a janeiro de 2020”. A nota diz ainda que os apontamentos da virologista “não têm base científica e assemelham-se a rumores”. 

Yan voltou a defender que o SARS-CoV-2 teria sido criado artificialmente em um programa de televisão no Reino Unido em setembro. Naquele mesmo mês, ela publicou um texto assinado por mais três autores na plataforma de pré-publicação Zenodo e alegou que sua tese foi censurada por revistas científicas. 

O relatório, que não passou pela revisão de outros cientistas, foi contestado por especialistas da área que acusaram o grupo de ignorar a vasta literatura científica sobre a circulação de coronavírus em populações de animais selvagens — incluindo estudos recentes sobre o SARS-CoV-2, como destaca uma matéria da National Geographic. (O microorganismo que causa a covid-19 é de uma família de vírus chamados de coronavírus)

Em entrevista à revista norte-americana Newsweek, uma série de pesquisadores afirmaram que o conteúdo do artigo de Yan se apoia em afirmações infundadas e teorias da conspiração. Outro ponto que desacredita a cientista chinesa é o fato de que ela e os outros autores do texto são filiados à organização sem fins lucrativos Rule of Law Society, que não tem importância na pesquisa sobre doenças infecciosas. 

SARS-CoV-2 visto em microscópio. Foto: Divulgação

O que dizem as melhores evidências

A microbiologista Giliane Trindade, da UFMG, explica que as principais evidências indicam a origem natural do novo coronavírus, mas a linhagem exata do microorganismo ainda é incerta. Isso acontece porque a ciência ainda não foi capaz de identificar o “paciente zero” ou a população de animais específica que poderia carregar o vírus ancestral com o mesmo genoma do SARS-CoV-2.

Cientistas do mundo inteiro estudam o sequenciamento do genoma do SARS-CoV-2 e analisam as semelhanças e diferenças com as estruturas de vírus que já foram mapeados anteriormente. Foi assim que um grupo de cientistas de universidades dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália observou que o novo coronavírus não era muito semelhante a vírus que infectam humanos, mas apresentava até 96% de similaridade com o coronavírus de morcegos RatG13.

A descoberta é um dos indícios que torna a hipótese de fabricação artificial do novo coronavírus bastante improvável. Segundo os pesquisadores, se o vírus fosse projetado em laboratório, sua estrutura seria parecida com a de outros organismos com potencial de infectar humanos.

“Os autores são categóricos ao afirmar que não encontraram indícios de manipulação genética do novo coronavírus”, destaca Giliane. “São pesquisadores renomados, com muita experiência na área, que publicam em revistas de prestígio”. 

Outra pesquisa publicada na Nature em junho indica que o RaTG13 não seria eficaz o suficiente para se conectar a receptores e dificilmente poderia infectar humanos. Os autores concluem que a origem do novo coronavírus se deu pela recombinação de diferentes genomas de outros vírus da mesma família. Há outros estudos que apontam semelhanças de estruturas genéticas do SARS-CoV-2 com coronavírus encontrados em pangolins. Os trabalhos levantaram a hipótese de que esses mamíferos poderiam ser hospedeiros intermediários para evolução do vírus dos morcegos até atingir os humanos. Essa possibilidade, no entanto, ainda não é consenso na academia.

O que diz Yan

O trabalho de Li-Meng Yan e seus colegas contesta a credibilidade do estudo publicado em março na Nature. A virologista acusa os autores de conflito de interesse com o governo chinês, sem apresentar evidências concretas para sustentar tal afirmação. O relatório diz também que a pesquisa de Yan e outros trabalhos que propõem uma suposta origem artificial do novo coronavírus são censurados por revistas científicas. 

Para sustentar que o SARS-CoV-2 foi fabricado em laboratório, a cientista chinesa indica que duas cepas de coronavírus encontrados em morcegos, chamadas ZC45 e ZXC21, apresentam 89% de similaridade com o novo coronavírus. A pesquisadora afirma ainda que, de modo suspeito, esses microorganismos foram identificados e sequenciados por pesquisadores de um laboratório militar na China, em 2018. A autora argumenta que essas cepas de morcegos poderiam ter sido utilizadas como molde do SARS-CoV-2.

Essa tese, no entanto, foi rebatida por uma série de especialistas. Uma checagem da agência argentina Chequeado aponta que há várias diferenças entre os vírus ZC45, ZXC21 e o novo coronavírus. Isso torna as cepas encontradas em morcegos candidatas improváveis da bioengenharia do vírus causador da covid-19. 

Vale lembrar ainda que, apesar do tom alarmista de Yan, não é nenhum segredo que o ZC45 e ZXC21 foram identificados por um laboratório militar chinês. Afinal, os pesquisadores publicaram o estudo em uma revista científica em 2018. Os dois vírus citados também foram alvos de pesquisas que investigaram a origem do novo coronavírus. Não há, no entanto, qualquer associação entre eles a fabricação do SARS-CoV-2. 

Outro ponto apresentado no trabalho de Yan é que o novo coronavírus tem uma característica estrutural que aumenta o seu potencial de infecção. Os autores do relatório dizem que não há uma estrutura semelhante em outros coronavírus e que isso só poderia ser constituído artificialmente. Pesquisas anteriores, no entanto, já identificaram essa característica em outros coronavírus de morcegos, o que reforça a hipótese de um evento natural provocado pela recombinação de vírus. 

Teorias da conspiração atrapalham pesquisas

Uma carta publicada pela comissão de covid-19 da revista científica Lancet, em setembro, reforça que as investigações sobre as origens do novo coronavírus ainda estão longe de serem concluídas e devem prosseguir de forma científica e objetiva, sem obstáculos de agendas geopolíticas e desinformação.

“As evidências até o momento apoiam que o SARS-CoV-2 é um vírus que surgiu naturalmente e não foi o resultado da criação e vazamento em laboratório”, diz a carta. “A possibilidade de envolvimento laboratorial nas origens da pandemia deve ser examinada com rigor científico e minucioso, e com uma colaboração de pesquisa aberta”. 

“As origens do vírus devem ser compreendidas, tanto para ajudar a pôr fim à atual pandemia, como para prevenir a próxima. Alegações infundadas e teorias de conspiração que não são baseadas em provas são prejudiciais a esta causa”, completa. 

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