Vídeo propaga denúncias sem fundamento de fraude em registros de covid de Belford Roxo (RJ)

Vídeo propaga denúncias sem fundamento de fraude em registros de covid de Belford Roxo (RJ)

Conselho de Enfermagem e prefeitura de município na Baixada Fluminense desconhecem acusações feitas em conteúdo que viralizou no Facebook

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

15 de abril de 2021 | 14h42

Circula nas redes sociais e no WhatsApp um vídeo enganoso, em que um suposto enfermeiro acusa hospitais de fraudar os registros de óbitos de covid-19 e negligenciar o atendimento a pacientes com a doença. O conteúdo sugere que o objetivo seria inflar os números de mortes na pandemia. Com imagens fora de contexto, a gravação dissemina alegações vagas e alarmistas, sem apresentar evidências que sustentem as denúncias. 

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo por WhatsApp, 11 97683-7490.

O suposto enfermeiro diz, no áudio, trabalhar no “Joca”. O nome corresponde ao apelido do Hospital Municipal de Belford Roxo, ou Jorge Júlio Costa dos Santos, no Rio de Janeiro. Procurada pelo Estadão, a prefeitura da cidade afirmou que desconhece as denúncias propagadas no vídeo. Também não há registros em documentos oficiais ou na imprensa que reportem episódios semelhantes. 

O Conselho Regional de Enfermagem do Rio de Janeiro afirmou não ter recebido “qualquer  tipo de denúncia deste teor [das acusações do vídeo]”. 

Imagens fora de contexto

A gravação apresenta uma série de imagens com corpos cobertos acumulados em macas, mas nenhuma delas retrata o Hospital Municipal de Belford Roxo. A primeira mostra cadáveres no necrotério do Hospital Moacyr Rodrigues do Carmo, em Duque de Caxias. Segundo o jornal Extra, a foto foi tirada em abril de 2020 em meio a um impasse entre a prefeitura e uma concessionária de serviços funerários no município.

A segunda imagem foi capturada no mesmo hospital em Duque de Caxias, mas não tem relação com a pandemia, segundo reportagem do portal G1. O registro aconteceu em janeiro de 2019, mais de um ano antes do Brasil identificar o primeiro caso de infecção pelo novo coronavírus no País. 

Já a imagem que mostra corpos enfileirados na área externa de uma unidade de saúde é de abril de 2020 e retrata um momento de transferência de cadáveres da ala hospitalar para o necrotério no hospital Lourenço Jorge, na cidade do Rio Janeiro. A última foto é do Hospital Municipal Salgado Filho, também na capital carioca, como mostra uma matéria do G1 publicada em maio do ano passado.

Até a última segunda-feira, 12, Belford Roxo contabilizava 18,1 mil casos confirmados e 482 óbitos por covid-19, segundo dados da prefeitura. O Painel de Monitoramento do Estado indica que na mesma data o município apresentava uma taxa de 100% de ocupação de leitos de UTI e enfermaria.

Como funciona a notificação de casos

As notificações de óbitos de covid-19 são alvos frequentes de desinformação. Uma característica comum dos conteúdos enganosos é disseminar discursos alarmistas, como acontece no vídeo analisado pelo Estadão Verifica. O que a gravação não menciona, porém, é que as notificações seguem diretrizes definidas pelo Guia de Vigilância Epidemiológica do Ministério da Saúde. 

A última edição do documento, publicada em março de 2021, determina que unidades de saúde devem considerar quadros clínicos de síndromes gripais (SG) ou síndromes respiratórias agudas graves (SRAG) como casos suspeitos de covid. A orientação da pasta é que esses episódios, independentemente da hospitalização, devem ser notificados em um sistema de vigilância epidemiológica. 

Os critérios de confirmação de casos e óbitos de covid, entretanto, levam em consideração uma série de outros fatores. O detalhe é que todos eles, com exceção dos casos assintomáticos, observam os quadros clínicos de pacientes. O principal método de diagnóstico corresponde a exames laboratoriais de pacientes que apresentam sinais de SG e SRAG.

“Junto com o exame laboratorial é preciso ter um quadro clínico compatível [com covid]”, esclarece Fábio Gaudenzi, médico infectologista que participou de edições anteriores do Guia do Ministério da Saúde. Ou seja, mesmo que um paciente tenha um resultado positivo no teste, a evolução clínica será determinante para definir se a morte foi provocada por uma complicação da covid ou por outra causa. 

O RT-PCR ou teste molecular é considerado o padrão ouro dos exames de diagnóstico de covid-19. Foto: Andrea Rego Barros/ Prefeitura de Recife

O documento também preconiza o diagnóstico por contexto clínico-epidemiológico, que considera as manifestações de sintomas associadas ao histórico de contato próximo do paciente com outras pessoas já diagnosticadas com a doença. Há ainda a confirmação de diagnóstico por quadro clínico e análise de tomografias dos pulmões. Por fim, o critério puramente clínico observa sintomas de SG e SRAG junto a perda de paladar e olfato “sem outra causa pregressa”.

Esses critérios  também são fundamentais no preenchimento de atestados de óbitos da doença. Outro guia do Ministério da Saúde cita uma situação hipotética em que um homem diagnosticado com covid-19 sofreu uma queda ao escorregar, foi resgatado e morreu. Nesse caso, o diagnóstico de covid-19 é registrado como fator externo, e não a causa da morte. 

“O risco maior não é de excesso de notificação, que pode ocorrer em um número ínfimo de casos mais complicados nos quais pode ter ocorrido dúvida”, pontua Gaudenzi. “O grande problema são os casos notificados a menos, seja pela falta de exame ou porque o paciente chega tardiamente numa unidade de saúde e morre sem conseguir fazer o diagnóstico correto”.

Tudo o que sabemos sobre:

covidcoronavírus

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.