Vídeo engana ao afirmar que lagarta ‘cabeluda’ pode levar à morte
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Vídeo engana ao afirmar que lagarta ‘cabeluda’ pode levar à morte

Na realidade, espécie mais perigosa de taturana tem pequenos espinhos em formato de 'pinheiros' verde-claros

Gabi Coelho, especial para o Estado

04 de agosto de 2020 | 19h27

Um vídeo que circula no Facebook com mais de 130 mil compartilhamentos engana ao afirmar que a espécie Megalopyge Lanata — conhecida como taturana ou lagarta de fogo — pode causar hemorragia e levar à morte, se encostar na pele. Consultados pelo Estadão Verifica, especialistas explicam que o inseto não pica, ao contrário do que afirma a gravação viral. Seu veneno causa uma forte queimação, mas o perigo maior é apenas para os alérgicos, que podem ter complicações mais graves.

Na realidade, a espécie presente no Brasil realmente perigosa é a Lonomia obliqua — chamada popularmente de taturana ou lagarta oblíqua. Em caso de acidentes com esse animal, o tratamento é feito com soro antilonômico. (Leia mais para aprender a identificar esse inseto e a prevenir acidentes)

O vídeo mostra uma foto da taturana de fogo. Na narração, um homem afirma que sua mulher estava próxima de um pé de manga quando o inseto teve contato com a sua mão. O narrador conta que, após sentir fortes dores, ela foi encaminhada para uma UPA em Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Em seguida, profissionais de saúde enviaram uma foto da lagarta para ser avaliada pelo Hospital João XVIII, referência em atendimentos de alta complexidade em urgência e emergência na capital mineira.

O hospital confirmou o relato do homem do vídeo. A paciente foi atendida remotamente (por telefone) na madrugada do dia 16 de junho pela equipe de Toxicologia, que avaliou os efeitos da substância química do inseto no organismo da paciente. “Ao verificar a imagem da lagarta, foi identificada a espécie, que não oferece o risco mencionado no vídeo, apenas desconforto local. Todas as orientações foram prontamente repassadas pela equipe de plantão aos profissionais que prestaram atendimento no município”, confirmou o médico Adebal Andrade, coordenador da área de Toxicologia do Hospital João XVIII.

A equipe médica do pronto-socorro do hospital mineiro também confirmou que a lagarta não é da espécie Lonomia obliqua, responsável por acidentes mais sérios. Além disso, afirmaram que o relato do vídeo não condiz com o quadro causado pela peçonha da espécie apresentada. O caso foi repassado em detalhes à Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais no dia 18 de junho, em decorrência da repercussão nas redes sociais. O objetivo é apurar junto ao município se houve desdobramentos no atendimento. 

O homem que narra o vídeo afirma ainda que o Hospital João XVIII enviou um soro para tratar a paciente. De acordo com Bruno Corrêa Barbosa, professor de Biodiversidade e Conservação da Natureza Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Juiz de Fora, explica que esse soro é chamado de antilonômico”. Essa substância é produzida pelo Instituto Butantan, mas é usada apenas quando a especie Lonomia obliqua é identificada — o que não é o caso do relato analisado. “(O ataque da lagarta oblíqua) exige atenção especial, pois pode causar mudança na coagulação do sangue e, consequentemente, sangramentos na gengiva, urina e em outras regiões do corpo”, disse Barbosa. 

Para o professor, a possibilidade de uma identificação incorreta do animal pode resultar em uma descrição exagerada do quadro clínico. Barbosa afirma que isso pode causar pânico nos pacientes, como ocorreu neste vídeo que viralizou nas redes sociais.

Como diferenciar a taturana de fogo da taturana oblíqua e evitar acidentes

A Megalopyge lanata é conhecida como lagarta de fogo por conta da sensação de queimação que ocorre no contato entre o inseto e a pele. A espécie tem distribuição por toda a América do Sul. No Brasil, é registrada nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, Bahia, Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. É uma praga que afeta inúmeras espécies de vegetais como cafeeiro, abacateiro, pessegueiro, algodoeiro, goiabeira, jabuticabeira e plantas cítricas. 

Segundo Tatiane Tagliatti Maciel, mestre em Comportamento e Biologia Animal da Universidade Federal de Juiz de Fora, existe um medo generalizado em relação à taturana de fogo e é comum atribuírem qualquer acidente com lagartas a essa espécie. “O medo gerado por essa situação pode levar as pessoas a matarem em massa várias espécies de lagartas inofensivas para os seres humanos, porém com grande importância para o meio ambiente”, afirma ela.

De acordo com os especialistas consultados, é fácil diferenciar uma lagarta da outra. Enquanto as taturanas da família da Megalopyge são brancas e têm cerdas que parecem pelos longos e sedosos, os insetos da família da Lonomia têm coloração marrom-claro e cerdas urticantes em forma de espinhos, semelhantes a pequenos pinheiros verdes.

Para prevenir acidentes com a Lonomia obliqua, o Ministério da Saúde recomenda ter cuidado ao coletar frutas no pomar e realizar atividades de jardinagem ou em ambientes silvestres. A orientação é “observar bem o local, troncos, folhas, gravetos antes de manuseá-los, fazendo sempre o uso de luvas para evitar o acidente”.

Em caso de picada, o Ministério da Saúde afirma ser necessário lavar o local atingido com água fria ou gelada e sabão e procurar imediatamente o serviço médico. Não se deve fazer torniquete, furar, cortar, espremer ou queimar a ferida. Também não é recomendado passar álcool ou qualquer outra substância na pele, nem fazer curativos.

Veja fotos das duas lagartas diferentes:

A Megalopyge lanata, conhecida como lagarta de fogo, não é perigosa. Foto: José Roberto Peruca, Araçatuba/SP – Wikimedia Commons

A Lonomia obliqua, conhecida como taturana oblíqua, é mais perigosa. Foto: Centro de Informações Toxicológicas de Santa Catarina – Wikimedia Commons

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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