Tsunami no Brasil? Possibilidade é muito remota, segundo especialistas

Tsunami no Brasil? Possibilidade é muito remota, segundo especialistas

Vulcão nas ilhas Canárias entrou em erupção, mas possibilidade de que isso causasse ondas gigantes no Brasil é muitíssimo pequena

Alessandra Monnerat

17 de setembro de 2021 | 17h23

Atualização20 de setembro: O vulcão Cumbre Vieja, localizado no arquipélago espanhol das Ilhas Canárias, entrou em erupção neste domingo, 19. Nas redes sociais, postagens voltaram a falar em risco de tsunami no Brasil — a possibilidade, no entanto, continua a ser muito remota, segundo especialistas.

A geóloga e vulcanóloga Letícia Freitas Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP), explica que a maior preocupação é para a população local. “A erupção está sendo bem dentro daquilo do esperado, de baixa magnitude”, disse ela. “Ainda que a altura da erupção esteja entre 1 km e 1,5 km, é de baixa explosividade, gerando muito derrame de lava. Neste cenário, é um risco local, pras populações que moram ali”. Cerca de 100 casas foram destruídas pela lava, mas ninguém ficou ferido, de acordo com a agência Reuters.

Os especialistas do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, pela sigla em inglês) divulgaram um comunicado em que descartam a possibilidade de tsunami. “Não acreditem na história caça-cliques do ‘megatsunami”, informaram.

A teoria de que uma erupção do Cumbre Vieja pudesse causar um tsunami foi proposta em um estudo de 2001. A análise, no entanto, tem falhas, e pesquisas posteriores mostraram que o modelamento que previa ondas gigantescas estava superestimado. Leia a explicação abaixo.

Cumbre Vieja vulcão

Vulcão Cumbre Vieja, nas Ilhas Canárias, entra em erupção. Foto: Desiree Martin/AFP


Texto publicado em 17 de setembro: É possível que um tsunami atinja a costa brasileira? De acordo com especialistas, a possibilidade é muito remota. O tema viralizou nas redes sociais depois que o vulcão Cumbre Vieja, nas Ilhas Canárias, entrou em alerta amarelo — o segundo nível mais baixo em uma escala que vai de verde a vermelho. No entanto, mesmo que o vulcão entre em erupção, a probabilidade de que este evento cause ondas gigantes no Brasil é baixíssima.

No Facebook, postagens enganosas sobre o Cumbre Vieja não mencionam quão pequena é a chance de um tsunami no Brasil. Alguns dos posts analisados pelo Estadão Verifica citavam a possibilidade de que ondas gigantescas atingissem cidades litorâneas no Nordeste, Sudeste e Sul do País. Menções ao vulcão na ilha espanhola geraram mais de 420 mil interações no Facebook desde esta quinta-feira, de acordo com a ferramenta CrowdTangle.

Segundo a geóloga e vulcanóloga Letícia Freitas Guimarães, da Universidade de São Paulo (USP), a possibilidade de tsunamis na costa brasileira é muito baixa, quase “irreal”. Ela explica que a teoria de que uma erupção no Cumbre Vieja pudesse gerar ondas gigantes foi proposta em um estudo de 2001, assinado pelos pesquisadores americanos Steven N. Ward e Simon Day. 

Documento

O trabalho indica que em 1949 uma erupção no Cumbre Vieja causou uma fratura no vulcão, que poderia colapsar caso ocorresse uma erupção de grande explosividade. Isso geraria um grande deslocamento de terra, que seria jogada no Oceano Atlântico, causando as ondas. O problema é que a análise tem falhas, segundo Letícia. 

“O estudo tem limitações: considera um cenário de baixíssima probabilidade do ponto de vista vulcanológico”, afirmou ela. “É muito difícil que um vulcão ‘aja’ de forma diferente do seu histórico. O histórico do Cumbre Vieja é de baixa explosividade. Nos últimos 600 anos, foram seis erupções, todas com índice de explosividade vulcânica 2”.

As erupções são classificadas em uma escala de explosividade de 0 a 8 — o índice é logarítmico, o que quer dizer que a cada ponto da escala o volume de material expelido pelo vulcão aumenta em dez vezes. O Cumbre Vieja entrou em erupção nos anos de 1585, 1646, 1677-1678, 1712, 1949 e 1971. Em todas essas ocasiões, a explosividade foi moderada.

“É pouquíssimo provável que ele tenha uma explosão diferente disso”, explicou Letícia. “Mesmo que tenha, é muito comum que evolua para erupções efusivas, que não têm explosão, apenas derramamento de lava”.

A vulcanóloga aponta que é bastante difícil que o vulcão entre em colapso — o mais provável é que ocorram pequenos deslizamentos. “Há estudos mais recentes que mostram que o modelamento de 2001 está superestimado. Foi feito há 20 anos e muita coisa evoluiu”, lembrou Letícia.

Ela indica ainda que o estudo não considerou outros fatores que poderiam fazer com que as ondas gigantes perdessem força. “Para uma onda vir das Ilhas Canárias para o Brasil, ela tem que viajar por mais de 4 mil quilômetros”, observou. “A energia dessa onda não vai ser constante, vai passar por diversos fenômenos que tendem a dissipar a energia. Esses fatores não estão tratados no modelamento”. 

“O estudo fala de ondas de 70 metros chegando ao Brasil. Isso é meio irreal, bastante improvável”, reforçou.

Especialistas da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) também afirmaram que a probabilidade um tsunami chegar à costa brasileira é baixa. Em um comunicado divulgado pelo Observatório Nacional, o professor Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório Sismológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) lembrou que a atividade vulcânica na região das Canárias é comum e é monitorada. “Na região do Atlântico, não existe nenhum sistema alerta de tsunami porque o risco é baixíssimo para isso ocorrer”, disse o sismólogo.

O Instituto Vulcanológico das Canárias, que monitora a atividade do Cumbre Vieja, também alertou nas redes sociais para a onda de desinformação em torno do assunto.

Imagem de satélite do Cumbre Vieja. Foto: Image Analysis Laboratory, NASA Johnson Space Center

O que significa o alerta amarelo

O Cumbre Vieja está localizado na ilha de La Palma, no arquipélago espanhol das Canárias, a oeste do continente africano. O vulcão começou a se formar há 150 mil anos. Para ser considerado ativo, um vulcão precisa apresentar atividade nos últimos 10 mil anos — sejam erupções, abalos sísmicos ou emissão de gases.

Os observatórios vulcanológicos monitoram essas atividades com instrumentos como GPSs e câmeras. O objetivo é identificar alterações para comunicar a população. Usa-se um sistema de alerta quatro cores: verde, amarelo, laranja e vermelho. 

A primeira cor é usada quando o vulcão tem atividade normal. Letícia cita o exemplo do Stromboli, localizado na ilha italiana de mesmo nome, que está sob alerta verde mesmo tendo erupções frequentes — esse é o habitual para a localidade. No caso do Cumbre Vieja, os observadores verificaram que o padrão de sismos do vulcão teve uma mudança significativa na semana passada.

“Os terremotos que ocorriam num epicentro com profundidade de 30km, passaram a ocorrer numa profundidade mais rasa, média de 12km, com alguns chegando a 4km”, disse Letícia. “A frequência aumentou, eles se tornaram mais frequentes, e a magnitude aumentou também. Isso fez o observatório mudar o alerta para amarelo”.

A especialista ressalta que isso não é motivo para pânico. “O alerta amarelo significa: fiquem atentos aos informes lançados pelo observatório e qualquer alteração vamos avisar”.

“Não conseguimos falar com precisão o dia e a hora que vai ocorrer”, disse ela. “Mas como os vulcões vão mudando conforme a erupção se aproxima, é possível mudar os alertas para avisar a população. A média para este vulcão é de 3, 4 meses até chegar à erupção”.

Ou seja: o risco para moradores do Brasil é baixíssimo. A vulcanóloga opina que os brasileiros devem identificar e se preparar melhor para os perigos mais próximos e frequentes da nossa realidade. “Podemos estar mais atentos aos riscos que temos agora: enchentes, deslizamentos, a pandemia de covid”, disse. “Estarmos atentos faz com que a gente não entre em pânico e responda melhor a qualquer possível evento”. /COLABOROU GABI COELHO


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