Trecho de fala de Bill Gates é editado para desacreditar segurança de vacinas

Trecho de fala de Bill Gates é editado para desacreditar segurança de vacinas

Co-fundador da Microsoft defendia o uso de transgênicos em plantações, mas vídeo foi cortado para parecer que ele falava mal de imunizantes

Alessandra Monnerat

17 de dezembro de 2020 | 19h31

Um trecho de uma palestra com o bilionário Bill Gates, co-fundador da Microsoft, circula fora de contexto nas redes sociais. O vídeo foi editado para parecer que ele falava de forma negativa sobre vacinas, que seriam “organismos geneticamente modificados (que) estamos injetando nos braços de criancinhas”. Na realidade, Gates fazia uma defesa do uso de plantações geneticamente modificadas como alternativa no combate à fome, e citou remédios como exemplo de produtos seguros de modificação genética.

Esse vídeo foi enviado ao WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

A palestra ocorreu em 22 de janeiro de 2015, em Bruxelas, na Bélgica (veja o vídeo completo abaixo). Na ocasião, Bill e sua mulher, Melinda Gates, divulgavam sua carta anual com apontamentos para o futuro. O casal defendia o uso de organismos geneticamente modificados, também chamados de transgênicos, em plantações no continente africano. Melinda começa o vídeo dizendo que grãos podem ser modificados para enfrentar secas e enchentes, uma preocupação diante das mudanças climáticas.

A filantropa diz que cada país africano deve decidir se quer usar ou não OGMs; ela lembra que grãos geneticamente modificados são testados em laboratórios e em estufas. Em seguida, Bill faz uma analogia com remédios — ele diz que, assim como os medicamentos, OGMs devem ser testados.

Leia abaixo a fala completa de Bill Gates. O trecho tirado de contexto está em negrito.

“A analogia mais forte é (comparar GMOs) com remédios. Devemos nos preocupar com remédios terem efeitos colaterais? Precisamos de testes de segurança? Quer dizer, estamos pegando coisas que são organismos geneticamente modificados e estamos injetando nos braços de criancinhas. Então sim, acho que temos que ter um sistema de segurança, onde fazemos pesquisas e testamos as coisas. A ideia de você pegar uma técnica que promete resolver problemas de nutrição, de produtividade, de doenças de lavouras, para fazendeiros africanos, onde é uma questão de vida ou morte, e dizer: “ah, nada que usa essa técnica pode ser usado”… É tão aleatório o que é considerado OGM e o que não é. Irradiar coisas e fazê-las ter múltiplos cromossomos, isso não é considerado OGM. Ao passo que inserir coisas intencionalmente de uma forma bem cuidadosa, isso é OGM.”

Como mostrou o Projeto Comprova nesta checagem, OGMs são produtos de engenharia genética, uma tecnologia aplicada desde os anos 1970 para modificar aspectos de plantas, animais e microorganismos. Os tipos mais comuns de GMO são plantas modificadas, como milho, soja e algodão.

Em julho, o Parlamento Europeu aprovou uma medida para acelerar a produção de vacinas contra a covid-19, diante da emergência sanitária mundial. A normativa dispensou a exigência de alguns procedimentos para ensaios clínicos com imunizantes que usam OGM.

Os integrantes do Comitê de Meio Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar do Parlamento Europeu concordaram que havia a necessidade de adaptar as regras, mas enfatizaram que os padrões de qualidade, segurança e eficácia da vacina devem ser mantidos.

Por causa de seu papel no financiamento de pesquisas para vacinas contra covid-19, Bill Gates tem sido alvo de várias teorias conspiratórias. Recentemente, o Verifica desmentiu que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha cancelado um programa de Gates com o objetivo de “implantar microchips na população”.

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