Texto de Olavo de Carvalho de 2018 é compartilhado como se falasse de reeleição de Bolsonaro

Texto de Olavo de Carvalho de 2018 é compartilhado como se falasse de reeleição de Bolsonaro

Artigo original foi publicado antes da eleição do presidente; texto foi editado para incluir referências a 2022 e parecer recente

Clarissa Pacheco

13 de dezembro de 2021 | 17h00

Um texto publicado pelo escritor Olavo de Carvalho em sua conta pessoal no Facebook em outubro de 2018, poucos dias após o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil, está sendo reciclado em páginas bolsonaristas como se fosse uma análise das consequências de uma eventual reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

Pelo menos 500 postagens com o mesmo conteúdo foram localizadas em páginas e perfis de apoiadores do presidente no Facebook. De acordo com a ferramenta CrowdTangle, elas somam mais de 31 mil interações na rede. O texto também tem sido compartilhado no WhatsApp — leitores pediram a checagem pelo número (11) 97683-7490.

Apesar da viralização recente, a reciclagem do material começou a ser feita ainda no mês de junho deste ano. Um texto muito semelhante ao original publicado por Olavo de Carvalho circula em blogs desde aquela época, com o título “O que vai acontecer com a vitória de Bolsonaro em 2022?”, para dar a impressão de que o texto é recente. Nos meses seguintes, o mesmo texto foi publicado em outros canais, com referências a uma eventual reeleição.

O post original, de pouco mais de três anos atrás, foi ao ar em 11 de outubro de 2018. Nele, Olavo lista oito coisas que cairiam com “a ascensão do Bolsonaro”: o “esquema de poder construído pelo PT”, o “movimento comunista latino-americano”, os “planos internacionais de eliminação da soberania nacional brasileira”, “planos de carreira e biografias de políticos, intelectuais e artistas de esquerda”, “todo o poder impune do narcotráfico”, “todas as grandes empresas de mídia”, “toda a constelação de prestígios do show business” e “todo o sistema de poder instalado nas universidades”.

Os posts que passaram a circular recentemente tiveram acréscimos de frases inteiras em alguns dos itens que, segundo escreveu Olavo de Carvalho no texto original, teriam queda “imediata e automática no dia da posse de Bolsonaro”.

No item 4, por exemplo, que fala sobre políticos, intelectuais e artistas de esquerda, o texto mais recente acrescenta que eles “viveram por anos usufruindo do dinheiro público”. No item 5, em que Olavo de Carvalho afirmava que cairia “todo o poder impune do narcotráfico e do crime organizado em geral”, foi acrescentado que criminosos hoje tomaram conta do Brasil e deixaram “a sociedade trabalhadora e honesta, acuada e refém nas mãos desses marginais”.

O item 6 também recebeu um trecho a mais – o de que as grandes empresas de mídia de esquerda são “financiadas com o dinheiro público”. No item 7, sobre os prestígios do show business, foi acrescentado que artistas são “de esquerda” e que “acostumaram a viver como milionários usufruindo do dinheiro público”.

Três dias após a postagem original de Olavo de Carvalho em sua conta no Facebook, o cantor e compositor Caetano Veloso fez críticas ao texto em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo. “Esse texto de Olavo anuncia uma escalada de ações violentas e conclama seus seguidores a perpetrá-las tão logo Bolsonaro chegue (se ele chegar) ao Alvorada”, escreveu, em texto publicado no dia 14 de outubro de 2018.

Olavo de Carvalho e o bolsonarismo

Considerado “guru” do bolsonarismo, o escritor Olavo de Carvalho negou, em depoimento à Polícia Federal (PF) no final de novembro, que mantenha relação com o presidente Jair Bolsonaro (PL) e com dois dos filhos dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e o vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Olavo foi ouvido pela PF em videoconferência no inquérito das milícias digitais. Ele afirmou que só conversou com Bolsonaro em quatro ocasiões, tendo sido três delas por telefone com duração de cerca de dois minutos e uma presencialmente na Embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

O escritor afirmou que chegou a ser convidado por Bolsonaro para ser ministro da Cultura ou da Educação, mas que recusou o convite e que indicou os nomes de Ernesto Araújo para o Ministério das Relações Exteriores e Ricardo Vélez Rodrigues pra a Educação. Os dois foram contratados, mas já não fazem parte do governo.

Questionado pela PF sobre seu posicionamento político, Olavo negou possuir qualquer influência sobre o governo federal e que “nunca atuou, em eleição, no interesse de algum candidato” e que mostrou apenas “simpatia” a Bolsonaro na eleição de 2018.

Em junho de 2020, o escritor fez uma série de críticas ao presidente. Em um vídeo, ele afirmou que Bolsonaro não fazia nada para defendê-lo de uma suposta milícia digital, disse que o presidente não era seu amigo e que ainda podia ser processado por prevaricação, já que presenciava crimes e não fazia nada. Ele também ameaçou derrubar o governo.

Em novembro do ano passado, Olavo disse que Bolsonaro deveria renunciar se não fosse “capaz nem de defender a liberdade dos seus mais fiéis amigos”. Depois, disse não pedir uma renúncia imediata: “Não pedi renúncia nenhuma, pus a coisa no condicional”.

Estadão Verifica entrou em contato com o escritor, mas não recebeu resposta.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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